Doença econômica, cura econômica
Consciência no trabalho e consciência de classe
Ferramentas e habilidades obsoletas
O problema do trabalhador é industrial, não artesanal
Partidos políticos e a Greve Geral
Rebeldes de verdade se encontram em terreno comum
Os trabalhadores devem construir o poder industrial
Oposição em massa à exploração
Jornadas reduzidas: a demanda revolucionária
A Greve Geral e o piquete geral
As celebrações do 1º de maio como dia internacional da classe trabalhadora rememoram, mesmo sem saber, o massacre da Praça de Haymarket, ocorrido em 1886, na cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Um ano depois dessa tragédia que marcaria a luta global dos trabalhadores, nascia Ralph Chaplin, autor deste livro.
Filho de uma família operária, conviveu desde cedo com a violência patronal ao presenciar, ainda criança, assassinatos de grevistas a mando de empresários. Sua mãe lhe transmitiu o gosto pelas artes, que se tornaria sua principal profissão como ilustrador. Outrora trabalhando em empregos precários, foi se formando como organizador dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW), organização da qual se tornaria uma das principais vozes.
Escreveu poemas e canções, como “Solidarity Forever”, que se tornou um hino das lutas sindicais nos Estados Unidos até hoje. Desenhou o Sabo-Tabby, um gato preto arrepiado que representa a sabotagem no trabalho, símbolo que se tornaria mundial.
Foi preso junto com tantos outros wobblies[1]por se opor à participação dos trabalhadores na Primeira Guerra Mundial. Atravessando a grande crise de 1929, escreve este texto em 1933, quando tinha 46 anos.
Esta obra, nunca antes traduzida para o português, carrega um tom de sistematização das experiências políticas desenvolvidas pela IWW durante seu auge. Contraditoriamente, é espantoso como as direções que o autor aponta parecem tão atuais no período em que vivemos. A baixa sindicalização oficial, a decadência da política eleitoral, o fracasso das greves — tudo isso é estranhamente familiar para um texto que em breve completará um século.
Isso não é à toa. Organizadores que mantiveram os pés no chão das grandes lutas por muito tempo têm uma oportunidade única de teorizar a partir do vivido e construir entendimentos que vão além da própria existência.
Essa oportunidade não está disponível para muitos críticos das teorias desenvolvidas por esses wobblies. É comum encontrar comentários dizendo que esses trabalhadores — às vezes envolvendo todos os sindicalistas revolucionários ou semelhantes — não possuem teoria sobre suas práticas. Como se fossem um corpo sem cabeça. Afinal, pensar seria coisa de partido. E um movimento cheio de trabalhadores não qualificados estaria supostamente marginalizado do pensamento.
Por fim, lembro das palavras do lutador curdo Abdullah Öcalan: “não precisamos de grandes teorias”. Neste livro, Ralph Chaplin nos diz que precisamos… de Um Grande Sindicato.
Lúcio Alves
Fevereiro de 2026
Milhares de trabalhadores atenciosos e com consciência de classe no passado olharam para a Greve Geral em busca de libertação da escravidão assalariada. Hoje, suas esperanças estão mais fortes do que nunca. Seu número foi aumentado com milhares a mais que estão confiantes de que a Greve Geral, e apenas a Greve Geral, pode salvar a Humanidade da tortura e degradação da continuação do capitalismo e da miséria e privação de suas guerras e depressões recorrentes.
A Greve Geral é filha do Movimento dos trabalhadores. É a reação natural dos trabalhadores a um sistema de sociedade baseado na propriedade privada do maquinário de produção. É a atitude final dos trabalhadores na luta de classes. É a resposta dos trabalhadores ao problema da desorganização econômica.
Logicamente, a Greve Geral tornou-se o grito de guerra de milhões de pessoas em todo o mundo que a favorecem simplesmente porque não desejam ver o mundo moderno altamente industrializado afundar no caos, e a sociedade humana afundar no nível da sobrevivência selvagem.
A ideia da Greve Geral veio para ficar. Surgiu com a perfeição do processo da máquina e a centralização do controle que o tornou possível. E permanecerá como um desafio constante ao capitalismo enquanto o maquinário de produção for operado para o lucro e não para o uso.
Toda pessoa inteligente agora percebe que há algo radicalmente errado com o sistema social sob o qual estamos vivendo. Todos, exceto os beneficiários deste sistema, concordam que algo deve ser feito a respeito. O problema é que as pessoas atualmente parecem incapazes de concordar com qualquer programa de ação comum. Alguns aceitam sua sorte infeliz com uma paciência e coragem dignas de uma causa melhor, outros teorizam ineficazmente e fazem pouco, enquanto outros ainda reclamam amargamente e atacam cegamente. Quase todo mundo corre para lá e para cá em busca de fuga, mas sem ter nenhum objetivo claro em vista. Considerando o controle da imprensa e de todos os meios de desinformação e propaganda pela atual classe dominante, esta situação não é de se admirar.
Vamos examinar brevemente as coisas que as pessoas em geral estão dizendo e fazendo sobre a situação desesperadora que a sociedade enfrenta agora: um grupo diz: “Sejamos pacientes até que a pressão da opinião pública traga uma mudança ou, pelo menos, uma melhoria das condições”. Outro grupo diz: “Enquanto tivermos a cédula, vamos usar a ação política para realizar as mudanças necessárias”. Ainda outro grupo afirma: “Não podemos esperar mais. Apenas uma revolta violenta... insurreição armada!”
Esses grupos, independentemente de suas diferenças de opinião, são compostos por homens e mulheres que pensaram e estudaram o assunto. Eles merecem crédito por tentar encontrar uma solução para o problema desconcertante que os confronta. Não importa o quão equivocados possam ser, seus esforços são pelo menos direcionados para tornar o mundo um lugar adequado para se viver. Infelizmente, a maioria da população não foi tão longe. A maioria ainda vive e sofre em uma condição de perplexidade impensada. Eles simplesmente não sabem do que se trata. Assim como fizeram, por eras passadas, eles se contentam em trabalhar como robôs ou morrer de fome como bestas estúpidas sem ousar se organizar para acabar com o sistema que os está esmagando. E, o que é pior, eles são realmente enganados para apoiar esse sistema.
Mas ainda há outro grupo muito mais significativo. Esse grupo representa o ponto de vista da classe trabalhadora desperta e com consciência de classe. Sua oposição à ordem atual é inalterável e seus métodos e objetivos são distintamente os do proletariado revolucionário mundial. Este grupo assume a posição de que, diante da atual desintegração do sistema de lucro ou salário, a opinião pública, a ação política e a insurreição armada são muito tímidas, muito incertas e muito anticientíficas para servir em uma emergência tão grande. Este grupo defende uma Greve Geral do exército mundial de produção e sua equipe gerencial como meio de pôr fim ao capitalismo e inaugurar em seu lugar uma era de industrialismo científico e democracia industrial.
O argumento para a Greve Geral baseia-se na convicção persistente e muito lógica da classe trabalhadora de que a classe dominante se recusará a se permitir ser despojada por qualquer poder mais fraco do que o seu e que a opinião pública, a ação política e a insurreição, portanto, não poderão ser desenvolvidas ou usadas em qualquer medida apreciável. Baseia-se ainda na firme crença de que o trabalhador, por si só, pode salvar o mundo do caos durante e após o período de transição. Enquanto a produção de bens sob qualquer sistema depender da solidariedade disciplinada da classe produtora, é evidente que essa solidariedade por si só é capaz de interromper as operações da velha ordem ou de iniciar e continuar as da nova.
Nesse sentido, a Greve Geral não é apenas a esperança do trabalhador; é a esperança da raça humana. É o único método que será considerado confiável quando todos os outros métodos falharem. Se é verdade, como muitos acreditam, que os desajustes econômicos da sociedade moderna só podem ser remediados por medidas econômicas, então a Greve Geral se tornará cada vez mais importante a cada dia que passa. A necessidade da propriedade coletiva e da operação democrática de máquinas socialmente necessárias é agora admitida por técnicos, economistas, estudantes e trabalhadores com consciência de classe. Há diversidade de opiniões sobre como a mudança deve ser feita, mas não há falta de unanimidade quanto ao cabimento da mudança. A este respeito, o programa da Greve Geral é muito importante para não ser seriamente considerado.
Na verdade, qualquer poder menos potente do que o de uma Greve Geral é de eficácia duvidosa. A opinião pública na América, no seu melhor, é apenas um meio de registrar a desaprovação ou indignação de uma minoria inteligente. Na pior das hipóteses, é tudo o que os Poderosos poderiam esperar dela — histeria em massa e violência da multidão a serem dirigidas à vontade por aqueles ricos o suficiente para comprá-lo no mercado como qualquer outra mercadoria. Qualquer opinião pública que ignore o fato básico da luta de classes está fadada a ser um gesto hipócrita. Nesse sentido, os liberais estão entre os piores infratores. O grito fraco do liberal convencional pela paz em um mundo sem paz é uma das evidências mais convincentes da esterilidade inata da atitude liberal. Devido à sua perspectiva irremediavelmente restrita, esses confusos da classe média são incapazes de ver a inevitabilidade da luta e do conflito enquanto a sociedade estiver dividida em duas classes com interesses irreconciliáveis.
A menos que a luta de classes seja usada como chave, a história humana continuará sendo uma questão de adivinhação. A menos que a evolução da sociedade seja estudada à luz das ciências sociais, as mudanças sociais permanecerão inexplicáveis. Quão mais clara e menos confusa é a posição dos Trabalhadores Industriais do Mundo expressa em seu Preâmbulo,
A classe trabalhadora e a classe empregadora não têm nada em comum. Não pode haver paz enquanto a fome e a miséria forem encontradas entre os milhões de trabalhadores e os poucos que compõem a classe empregadora tiverem todas as coisas boas da vida.
Isso é apresentado como uma declaração clara de fato inegável.
Reformadores de todos os tipos estão e devem estar principalmente preocupados com a reparação do sistema capitalista decadente e historicamente injustificável. Eles são incapazes de ver a sociedade como um processo de mudança sob pressão econômica — uma evolução contínua de um estágio de desenvolvimento para outro, com base na lei de ferro do determinismo econômico. Sob a escravidão ou a servidão, esses senhores míopes teriam acreditado, como fazem agora sob o capitalismo, que o sistema existente era permanente, preordenado e historicamente inatacável. Para eles, a riqueza e a pobreza não são o resultado de desajustes sociais definíveis e remediáveis, mas a condição normal da vida humana. A invenção do maquinário que economiza trabalho e aumenta o lucro, como eles o veem, não fazia parte de um processo evolutivo; eles preferem acreditar que foi apenas um acidente conveniente e muito lucrativo. Eles estão infantilmente surpresos que seu direito de monopolizar a terra e seus recursos deva ser contestado. Há até autores, editores e professores que os apoiam nessa ilusão fantástica. Neste ponto, a posição da IWW é tão surpreendente quanto cientificamente sólida:
Entre essas duas classes, uma luta deve continuar até que os trabalhadores se organizem como classe, tomem posse da terra e do maquinário de produção, abolindo o sistema salarial.
Se algum liberal é capaz de enxergar tão longe, ele já está curado de seu liberalismo.
A opinião pública, estando em grande parte à mercê dos interesses predatórios através de seu controle da imprensa, rádio, etc., está, portanto, em sua maioria fora de questão como um meio de efetuar mudanças sociais fundamentais. Mesmo o programa e a personalidade incomuns de Gandhi seriam impotentes diante do controle privado da opinião pública que existe nos EUA. Dentro de quinze dias, o educado Mahatma seria jogado na armadilha acusado de plantar uma bomba ou arquitetar um assalto à folha de pagamento. Tais coisas já aconteceram antes, com o público longe de não estar convencido.
E assim o controle capitalista da maquinaria da publicidade, juntamente com a ignorância econômica das massas muito divididas e há muito enganadas, torna a opinião pública como o único método de acabar com o pesadelo do capitalismo um tanto remoto. A menos que se cristalize em uma ação definida e determinada de algum tipo, tudo o que podemos esperar da opinião pública é o registro de uma desaprovação tardia e um tanto patética.
A ação política como método de obtenção do controle da maquinaria de produção também parece peculiarmente pouco convincente. Apenas o mais ingênuo dos revolucionários de mentalidade política acredita que a votação ou as emendas constitucionais induzirão os Interesses Investidos a ceder o controle e o título à maquinaria de produção de propriedade privada. É nitidamente absurdo esperar que a classe que manchou as páginas da história em inúmeras lutas trabalhistas ceda o controle completo porque o eleitorado (a quem eles desprezam) achou por bem o exigir. Pode-se confiar na classe parasita dos EUA para não renunciar a seus direitos sacrossantos de “propriedade” até que sejam confrontados com um poder maior do que aquele que têm sob seu comando. Qualquer coisa a menos será ridicularizada.
O que é mais provável, à luz da experiência passada, do que sua capitulação, é que o direito de votar será revogado ou restringido no momento em que ameaçar ser usado para qualquer finalidade que não seja a barganha dos políticos. Mesmo com a ameaça da sempre presente ditadura fascista em potencial removida, há poucas razões para acreditar que os ricos entregarão suas propriedades aos pobres apenas porque os pobres decidiram votar por ela.
O programa da insurreição armada está aberto a tantos ângulos de crítica quanto o da ação política. Em primeiro lugar, os trabalhadores como um todo não estão apenas desarmados, mas não são treinados no uso de armas. Doze aviões podem destruir uma cidade e é bastante improvável que uma cidade de trabalhadores armados possa controlar até mesmo uma força bem pequena de mercenários capitalistas. A técnica da guerra moderna tornou o rifle e a pistola, e até mesmo as granadas e metralhadoras, obsoletas diante de tanques, gás venenoso, aviões e artilharia pesada. A defesa da insurreição armada é fatalmente enganosa porque induz os trabalhadores a acreditar que o que foi feito em um país atrasado pode ser duplicado em um país completamente moderno. Na América, as chances de multidões derrotarem tropas altamente treinadas são tudo menos iguais. Depois, há o perigo de revolução prematura precipitada por fanáticos ou delatores.
A defesa da insurreição armada é enganosa também porque a maioria de seus protagonistas, sendo de mentalidade política e treinados politicamente, está mais determinada a capturar o poder do Estado do que a capturar as indústrias. O político é totalmente incapaz de pensar em termos de indústria. Ele é incompetente para controlar ou dirigir processos industriais. Em um país como os EUA, com 48 estados e centenas de municípios, além da capital federal em Washington — todas adequadamente vigiadas — o problema é quase irremediavelmente complicado. Na pior das hipóteses, uma tentativa de levante armado resultaria em uma série de massacres sem precedentes, na melhor das hipóteses em uma burocracia exagerada e muito estúpida ou em uma ditadura de políticos igualmente estúpida e muito mais cruel.
É muito mais provável que nem as cédulas dos políticos, nem as balas dos insurrectos tenham a oportunidade de chegar perto de virar o jogo. Com a luta final iminente, é muito provável que todas as armas, exceto a da ação econômica, tenham sido tiradas de suas mãos. Por esta razão, é mais necessário que o trabalhador estude e se prepare para a Greve Geral do que confiar suas fortunas a cédulas ou balas como único meio de efetuar sua libertação das labutas da escravidão assalariada.
A Greve Geral aliou a seu serviço pensadores e homens de ação de muitas escolas diferentes de pensamento. Por mais de um quarto de século, os Trabalhadores Industriais do Mundo têm defendido consistentemente a Greve Geral como a arma mais poderosa do trabalhador na luta de classes.
Atualmente, é difícil encontrar um partido socialista, comunista ou grupo libertário em qualquer lugar do mundo que não tenha, pelo menos, minorias que admitam abertamente que a luta de classes é, em grande parte, uma luta industrial e que a vitória final deve ser conquistada por meios industriais, e não políticos. As muitas derrotas de movimentos socialistas politicamente poderosos na Europa diante da guerra e da ditadura os convenceram da inadequação da ação política, da futilidade da violência e da lógica e poder irresistíveis da Greve Geral.
Parece muito longe de Bill Haywood para Thorsten Veblen, mas o líder trabalhista inconformado e o professor suave e erudito se encontram em um terreno comum na defesa da Greve Geral.
Não só é verdade que o Professor Veblen está em perfeito acordo com a filosofia, programa e métodos industriais da IWW em relação à Greve Geral, mas a preponderância da opinião tecnológica competente da América também favorece esse ponto de vista. O técnico avançado aprendeu com a experiência a olhar para a Greve Geral com simpatia. Ele vê nele o método mais rápido e confiável de manter os processos vitais de produção e transporte intactos durante o colapso iminente do sistema de produção com fins lucrativos.
A Greve Geral, em comparação com os slogans de melhoria transitória e as plataformas dos partidos políticos, é tão firme e inabalável quanto as Montanhas Rochosas. É tão básico quanto o instinto de viver e tão fundamental quanto a indústria. Todas as panaceias e remendos do político e reformador sindical soam rasas e sem sentido quando consideradas lado a lado com ações industriais de tal magnitude e possibilidades.
O político que procura distorcer a Greve Geral em um mero complemento de um partido político é como a cauda tentando abanar o cão. O objetivo lógico e legítimo da Greve Geral é a abolição do capitalismo — não a reforma ou o comércio político de qualquer tipo. A Greve Geral não é o brinquedo de políticos ambiciosos. É o arco-íris vermelho no céu do desespero industrial. É um alerta permanente para que os políticos cumpram suas promessas, para que a Autoridade tenha cuidado e para que os ditadores desapareçam. A Greve Geral é o seguro de vida do trabalhador contra a traição.
Nada pode ser mais lógico do que a Greve Geral oferecer um programa que é um excelente ponto de encontro comum neutro para as 72 seitas em guerra do movimento trabalhista.
Se chegar o momento em que a classe trabalhadora organizada for capaz de superar ou deixar de lado os antigos preconceitos do pensamento político, a Greve Geral será bem-vinda pelo que é — a arma suprema do trabalhador para a sua luta suprema.
Nunca houve uma grande luta trabalhista em qualquer lugar do mundo em que a Greve Geral não fosse discutida e nunca houve um sindicato em qualquer lugar que não tenha, em um momento ou outro, desejado ardentemente usá-la na luta interminável contra a ganância corporativa e a injustiça econômica.
Os interesses dos trabalhadores e empregadores são diametralmente opostos e cada lado usa as armas na luta de classes adequadas aos seus propósitos. Os proprietários ausentes da indústria, ao contrário da classe média, são inteligentes demais para levar o político a sério. E, a esse respeito, eles são muito mais sábios do que muitos dos trabalhadores.
Os verdadeiros capitalistas desprezam o político e o usam apenas como uma ferramenta. Estando enraizados na indústria em razão da propriedade e derivando seus rendimentos da mais-valia suada das peles de seus escravos assalariados, eles não toleram intermediários na luta entre os trabalhadores e eles mesmos. Se, por exemplo, eles desejam cortar salários, prolongar as horas da jornada de trabalho ou empregar mulheres e crianças no lugar dos homens, eles simplesmente vão em frente e fazem isso. Eles não recorrem a um político para ajudá-los. Eles não precisam. Toda vez que disciplinam, dispensam ou demitem um grupo de trabalhadores, os empregadores estão usando a ação direta. Toda vez que o sistema de lista negra ou espionagem é usado no trabalho, toda vez que fura-greves ou bandidos armados são usados, toda vez que o sistema de aceleração, más condições, longas horas e baixos salários são aplicados, os empregadores estão usando ação industrial contra seus escravos.
Uma recessão nada mais é do que um bloqueio contra o trabalhador. Os proprietários das indústrias simplesmente fecham as lojas e cessam as operações porque não conseguem mais obter seus lucros habituais. E todas as leis e políticos do mundo, ou todos os exércitos do mundo, não poderiam forçá-los a recomeçar, a menos que lhes pagasse para fazê-lo. Negócios são negócios. A classe empregadora sabe muito bem o que significa poder industrial. Eles usam isso o tempo todo na forma de bloqueios impiedosos, greves e sabotagem contra o trabalho. Mas eles decididamente não estão dispostos a que os trabalhadores retaliem em espécie.
Sua defesa está aberta apenas em um ponto: eles obtêm seus lucros das peles dos trabalhadores e em nenhum outro lugar. E se os trabalhadores, por uma retirada consciente da eficiência, se recusam a ser explorados além de um certo ponto ou se recusam a ser explorados de todo modo, os exploradores podem fazer pouco. Sua maquinaria não produzirá lucros nem qualquer outra coisa até que seja lubrificada com o suor do trabalho humano. Eles temem a Greve Geral mais do que qualquer coisa na terra porque sabem que a Greve Geral seria, na realidade, um bloqueio geral — o fim da atual classe dominante. Contra essa poderosa força industrial, eles não têm astúcia nem poder para se defender.
Mas eles têm a astúcia e o poder de enganar e enganar os trabalhadores e manter as forças dos trabalhadores divididas para que a ação unida seja difícil de alcançar. Devido ao controle capitalista da imprensa, rádio e canais de publicidade e educação, aos trabalhadores é efetivamente negado o direito de chamar suas mentes de suas. Na verdade, os trabalhadores bicos-de-tesoura[2] têm muito pouco em suas cabeças que possam chamar de seu. Suas mentes pertencem ao último editor, palestrante ou político que preencheu o vazio dolorido com veneno traiçoeiro ou desinformação antiproletária. Esses trabalhadores não só fazem o papel de otários no jogo de cartas marcadas do capitalismo, mas também são burros e cegos demais para perceber o que aconteceu quando as coisas dão errado. É por isso que eles são chamados de bicos-de-tesoura.
Mas, não importa o quanto sofram de insegurança e privação sob o capitalismo, esse tipo de trabalhador não pode fazer nada por seus próprios interesses até que aprenda a pensar por si mesmo. Se você é um escravo assalariado com uma mente capitalista ou uma mente de classe média decadente, sem dúvida coçará a cabeça e se perguntará o que a Greve Geral pode significar para você. No começo você não vai gostar da ideia. Você provavelmente descobrirá que isso significa virar de cabeça para baixo todas as coisas pelas quais você tinha respeito e confiança.
Mas o trabalhador com consciência de classe é diferente. Ele descartou os preconceitos capitalistas e a submissão à exploração e às mentiras. Ele abandonou sua fé de classe média tanto nos políticos quanto na eficácia da ação política. Ele sabe o que há de errado com o mundo e sabe exatamente o que deve ser feito para acabar com esse erro. Ele não é mais apático ou indiferente aos seus interesses de classe. Ele não pode mais ser enganado. Ele percebe que ele, como membro da classe trabalhadora, está enraizado na indústria e deve se unir e fazer causa comum com todos os outros trabalhadores da indústria, e se tornar um lutador ativo e ávido na luta para libertar o mundo da longa maldição do parasitismo social. Ele sabe o que a palavra greve significa e não precisa ser informado de que é sua arma mais forte e segura.
Os trabalhadores rebeldes que foram treinados, disciplinados e endurecidos na luta de classes reconhecem instintivamente que a greve é a arma natural do trabalhador. Eles sabem o que é o poder industrial e sabem como usá-lo. Eles foram forçados a usá-lo por toda a vida em pequenas coisas e estão dispostos a usá-lo para coisas maiores — para tudo. Eles aprenderam com a experiência que delegar seu poder nas mãos de políticos tem mais chances de resultar em decepção e traição do que em lucro para eles próprios. Eles aprenderam que, mesmo em seus sindicatos, devem ter uma democracia real para manter seus diretores em linha reta. Na guerra de classes, eles estão convencidos de que a greve é a chave.
A lógica é simples. Se os salários forem muito baixos para atender às necessidades da vida, se as horas de trabalho forem muito longas ou se as condições de trabalho forem intoleráveis, o que se deve fazer não é chamar um político milagroso, mas simplesmente parar de trabalhar em número suficiente e com solidariedade suficiente para forçar a paralisação das operações até que os males sejam remediados.
Todo trabalhador e trabalhadora sabe que essas coisas são verdadeiras. Eles não precisam ler sobre uma greve em livros ou ter isso explicado a eles por um professor. Quando chega a hora da greve, eles fazem a greve. E ninguém pode convencê-los de que não há mais nada a fazer além da greve. Os trabalhadores, via de regra, não levam a política muito a sério, a menos que sejam pagos para votar, o que geralmente é o caso, ou a menos que sejam intimidados e levados às urnas por bandidos no interesse de uma máquina política corrupta.
Como regra geral, eles votam da mesma forma que apostariam em uma luta de prêmios — para ver se conseguem escolher um vencedor. Mas eles levam a greve a sério. E quando ficar claro para os trabalhadores que eles podem acabar com a interminável miséria e incerteza do capitalismo por meio de uma grande greve tão facilmente quanto derrotaram um corte salarial com uma pequena greve, eles atacarão com o mesmo vigor e a mesma determinação.
E esse é o tipo de mentalidade que o desenvolvimento avançado do capitalismo está forçando neles. As greves têm uma maneira de se tornarem maiores a cada ano que passa. A própria associação dos trabalhadores com a indústria produtiva sugere e controla os métodos que eles devem usar na luta industrial. Como seus empregadores, eles são forçados pelo ambiente a pensar em termos de ação direta. A greve cresce em poder e alcance. A greve é a arma natural do trabalhador e a centralização do controle na indústria torna a perspectiva de uma Greve Geral mais do que uma mera possibilidade.
O dicionário define a palavra arma como qualquer instrumento de ataque ou defesa. Certamente o maquinário de produção é capaz de ser usado para ataque e defesa tanto pelo empregador quanto pela classe trabalhadora. Cada ataque, cada bloqueio prova que o controle e a operação de máquinas modernas desenvolveram uma nova técnica de guerra, bem como as armas mais poderosas que o mundo já conheceu. Estamos tentando mostrar que o controle deste maquinário é a arma que dá ao empregador o domínio de classe sobre todo o mundo, e que o uso deste maquinário dá à classe trabalhadora o poder final sobre os chamados proprietários.
A invenção da pólvora alterou o curso da história humana, assim como a máquina a vapor, o avião e o rádio. A ciência militar admite que a fábrica por trás das linhas é tão importante quanto a bucha de canhão humana nas trincheiras para a vitória de uma guerra. Deus não está mais do lado dos batalhões mais fortes, como disse Napoleão. Ele agora está do lado das indústrias mais perfeitamente organizadas. Os trabalhadores devem ter em mente que as verdadeiras armas da era das máquinas são as próprias máquinas.
Tem sido frequentemente afirmado que na próxima guerra não haverá não-combatentes. Esta é apenas outra maneira de dizer que a máquina é uma arma tão potente quanto o canhão. As forças militares são piores do que inúteis, a menos que recebam alimentos, suprimentos e transporte. Tanto na guerra quanto na indústria, o indivíduo conta menos e o conjunto mais. Poder individual não é nada, poder coletivo é tudo. Um exército em batalha que não está organizado é apenas uma multidão. Os trabalhadores da indústria que não estão organizados estão na mesma categoria. Eles devem ser organizados por seus diretores técnicos e capatazes, a fim de produzir de forma eficiente. Eles devem se organizar em sindicatos industriais, assim como estão agrupados nas indústrias, se quiserem usar a arma do poder econômico em seu próprio nome.
O dia da pequena guerra ou do pequeno ataque se foi para sempre. O trabalhador, sem organização e solidariedade disciplinada, sem unidade e unicidade de propósito, deve necessariamente permanecer em sua rotina tradicional. O trabalhador não pode se emancipar até que aprenda a usar as poderosas armas que o contato com o maquinário de produção colocou em suas mãos.
O avanço contínuo da marcha do processo da máquina não apenas mudou o método e a tática da guerra, mas também mudou nosso conceito dos métodos e táticas da revolução. Fez isso tornando obsoletas as armas antigas e disponibilizando novas armas. A guerra costumava ser uma arte; agora é uma indústria. A antiga arte das armas agora é praticada principalmente por esporte. Hoje em dia, uma nação não se engaja no negócio sombrio da guerra até que as rodas da indústria comecem a girar.
O avanço contínuo do processo da máquina mudou completamente nosso conceito dos métodos e táticas da revolução. Aviões modernos, veneno e gás incendiário, artilharia e metralhadoras nas mãos de especialistas altamente treinados colocaram o trabalhador desarmado e praticamente inexperiente em desvantagem definitiva em matéria de combate militar. Mas mesmo que as probabilidades fossem iguais, seria um ato de loucura para os trabalhadores de qualquer país altamente industrializado tomar como modelos as revoluções clássicas de 1848, a Revolução Francesa, a Comuna de Paris ou até mesmo a russa. O poder do trabalho foi transferido da rua para a indústria. As ações no local de trabalho substituíram as manifestações; os piquetes, as barricadas. O ato supremo da revolução atual não será o levantamento da bandeira vermelha sobre a antiga prefeitura, mas sim a operação contínua e ordenada das máquinas de produção, transporte e troca pelos trabalhadores industriais funcionando exatamente como funcionam agora; envolvendo apenas um bloqueio completo da classe parasita e de seus defensores. A Greve Geral para quebrar o domínio final dos Parasitas na Indústria!
Este é o alinhamento moderno na luta mundial da classe trabalhadora para se libertar da maldição da escravidão assalariada e da exploração. A revolução dos nossos dias será uma luta industrial e as armas, para serem eficazes, devem ser armas industriais.
Canhões, aviões, submarinos, minas e metralhadoras são projetados para o uso de mercenários da classe capitalista. Essas armas dificilmente são adequadas à luta econômica moderna para determinar se os trabalhadores ou os parasitas controlarão a indústria. Aqui a luta ocorre no ponto de produção e os trabalhadores têm uma grande vantagem na luta: eles são o exército produtor da indústria. As máquinas são totalmente sem valor sem a força e o cérebro dos homens que as operam.
Os trabalhadores estão posicionados estrategicamente na indústria. Ao contrário dos “proprietários” que abocanham os lucros, eles são uma parte indispensável do processo industrial. Os trabalhadores estão nas máquinas porque são necessários para manter essas máquinas em operação. Por pura força dos números, eles já possuem as indústrias. Eles são treinados no uso das máquinas de produção, transporte e troca, das quais todos os dispositivos de guerra dependem. Além disso, a causa dos trabalhadores, tendo por objetivo a ampliação da felicidade humana, tem a aprovação de todas as pessoas de pensamento correto em comparação com a causa da Classe Parasita, que necessariamente não pode ter outro objetivo além do da continuação do parasitismo social. O poder dos trabalhadores é maior, portanto, do que o poder da classe capitalista e de seus mercenários bélicos.
O capitalismo só pode continuar enquanto a classe trabalhadora, de forma ignorante, der seu consentimento e aprovação. A exploração de muitos por poucos só pode continuar enquanto muitos não enxergarem caminhos melhores do que se submeter à exploração. Em nenhum lugar essa aprovação ou desaprovação pode ser expressa com tanta força quanto no setor em que a exploração ocorre. A Greve Geral será, portanto, a rejeição econômica do trabalhador à sua escravização econômica.
Individualmente, sob o capitalismo, o trabalhador assalariado não tem armas. Se ele tem um emprego e não gosta, pode pedir demissão. Se ele não tiver um emprego, pode rastejar para um beco e morrer de fome. Além disso, ele é livre para beber até a morte ou tomar veneno, ou acabar com tudo com uma bala, fazendo assim um favor à classe dominante. Qualquer outra guerra privada ou revolta própria contra o sistema é geralmente classificada em algum lugar entre o significado das duas palavras, “contravenção” e “crime”.
A esperança do escravo assalariado moderno está nos números. Na guerra de classes, apenas as armas coletivas contam. Ele só pode ter força combinando sua força individual com a força em massa de seus colegas de trabalho na indústria. A luta de classes exige armas de classe. Felizmente, sua posição na sociedade de classes forçou o escravo assalariado a pensar em termos de “nós” em vez de termos de “eu”.
O escravo assalariado moderno foi treinado para pensar no poder em termos de números. Em contraste com os artesãos dos velhos tempos, cuja perspectiva era necessariamente limitada à do indivíduo ou do ofício, o trabalhador industrial de hoje é forçado a ver seus problemas do ponto de vista da indústria em que está empregado. Se ele tiver alguma inteligência, poderá ver imediatamente que seu problema pessoal na indústria é idêntico aos milhares de trabalhadores empregados na mesma fábrica. Instintivamente, quando confrontado com a ganância e a ferocidade da classe exploradora, ele pensa não em termos de voto, tiro, bombardeio e baioneta (como seus mestres fazem), mas em termos de greve.
Isso era verdade no início, quando a indústria era pequena, e é verdade hoje. A única diferença é que é mais difícil e leva mais tempo para comunicar o impulso de movimento a um objeto grande do que a um objeto pequeno. Uma pequena greve nos primeiros dias do capitalismo era uma coisa comparativamente simples. Qualquer greve hoje sob o super-capitalismo está fadada a ser maior e mais complicada. O impulso de ataque, em vez de ser comunicado a dezenas ou centenas de homens, é comunicado a milhares ou centenas de milhares. Esse impulso, devido às verificações e controles incentivados pelos empregadores, nem sempre pode ter sucesso em colocar a grande massa em ação. Mas o impulso está sempre lá e, no final, grandes greves são tão inevitáveis quanto pequenas greves já foram.
Da consciência no trabalho à consciência de classe, da ação no trabalho à ação industrial, da greve no trabalho à Greve Geral é apenas uma questão de grau. Cada greve sob condições industriais modernas é uma Greve Geral embrionária. Mesmo a proposta de descentralização da indústria apenas alterará as táticas e a estratégia da Greve Geral. Não vai de forma alguma acabar com a vontade dos trabalhadores de usar a greve como uma arma de importância cada vez maior na luta de classes. Por outro lado, isso enfraquecerá a classe patronal. Em vez de defender uma única fábrica mantida por fura-greves, eles poderão ter que proteger várias ao mesmo tempo, todas cercadas por piquetes, contando apenas com seu reduzido aparato repressivo quando a grande luta começar.
Independentemente de quanta insatisfação política possa existir a qualquer momento, a queixa do trabalhador contra o capitalismo continuará a ser econômica. Ele é roubado no ponto de produção e no ponto de produção ele deve lutar contra a exploração contínua. Se puder ser demonstrado que qualquer coisa pode ser feita por meio de ação política para tornar a luta dos trabalhadores mais fácil, tanto melhor. Mas os trabalhadores não devem se iludir sobre a eficácia da ação política. Não importa o quão vermelhos eles votem no dia da eleição ou quem eles elejam para o cargo, eles descobrirão que sua luta pelo poder é apenas a sombra de sua luta na indústria.
O perigo de exagerar a importância da ação política reside no fato de que os trabalhadores são assim levados a confiar em outra pessoa (geralmente não um membro da classe trabalhadora) para fazer algo por eles que, com um pouco de compreensão e determinação, eles poderiam ter feito muito mais facilmente por si mesmos — e sem o perigo de traição. A confiança na ação política não apenas priva o trabalhador da iniciativa de ação independente, mas também o leva a esse estado de espírito em que ele está disposto a trocar um tipo de ditadura por outra. O objetivo final da Greve Geral não é substituir a dominação do capitalismo, a dominação do republicano vermelho, do fascista, do militarista — ou qualquer outra dominação. A Greve Geral também pode ser usada pelos trabalhadores para instituir a verdadeira liberdade industrial e a democracia e para acabar com todas as dominações, exceto a do trabalho social necessário, que é a obrigação comum de todos os nascidos no mundo.
No início da era capitalista, os artesãos eram contratados, seja individualmente ou em pequenos grupos, por um empregador individual ou por uma sociedade. Naquela época, não havia indústrias vastas e altamente especializadas como as que existem hoje. Tampouco havia propriedade e controle centralizados de indústrias inteiras por um punhado de plutocratas que operavam por meio de diretorias interligadas, como sabemos atualmente. A fábrica era uma pequena fábrica, o patrão um pequeno patrão e a greve, por necessidade, uma pequena greve.
Mas as pequenas fábricas não permaneceram pequenas. Com o crescimento da população e o amadurecimento do sistema capitalista, elas se tornaram cada vez maiores. Eles foram se fundido e consolidando sob pressão da necessidade econômica. Elas se tornaram vastas indústrias. A pequena loja tornou-se uma fábrica; a sala de tecelagem, uma fábrica têxtil; a forja do vilarejo, uma fundição. Pittsburgh, Chicago e Detroit surgiram em todo o seu poder sombrio e os tentáculos de Wall Street chegaram aos cantos mais remotos da terra. Ao mesmo tempo, havia cada vez menos empregadores e agregações mais vastas de escravos assalariados. A direção e a gestão reais da indústria passaram do proprietário ausente para o técnico contratado, e tanto o técnico quanto o operário trabalham para satisfazer a ganância insaciável por lucros do empresário e da classe parasita ausente.
Claro, não era tão simples quanto parece, mas, de uma maneira geral, as greves se tornaram maiores e o poder industrial da classe trabalhadora proporcionalmente maior. A formação na luta de classes não era mais entre o pequeno empregador e o pequeno grupo de trabalhadores, mas entre trabalhadores em áreas industriais inteiras e corporações numericamente menores, mas infinitamente mais poderosas. As minas, moinhos e fábricas se espalharam como uma praga de vastas prisões sobre a terra. E o dia da pequena greve ou do pequeno sindicato se foi para sempre.
Tudo isso teria sido bom se o poder consciente da classe trabalhadora tivesse crescido proporcionalmente ao crescimento da indústria. As máquinas não tiravam perceptivelmente o fardo da labuta dos ombros da classe trabalhadora; simplesmente aumentavam os lucros dos proprietários parasitas. As queixas dos escravos assalariados tornaram-se maiores e suas greves maiores e cada vez mais amargamente contestadas.
Na sociedade capitalista, a aceleração do processo da máquina não apenas muda a maneira como os homens são agrupados para trabalhar, mas também muda a maneira como eles se agrupam para lutar. Em cada país, os trabalhadores reagem à luta de classes de acordo com a maturidade ou imaturidade do processo da máquina naquele país. Isso explica o fato de que as táticas proletárias combativas adequadas, por exemplo, a uma terra comparativamente atrasada como a Rússia, são de pouco valor para os trabalhadores sob um sistema industrial altamente avançado como o que prevalece na América do Norte. Isso também explica por que a IWW — o notável expoente mundial do sindicalismo industrial revolucionário — se originou nos EUA, onde o capitalismo havia atingido sua forma mais madura e perfeita.
O propósito do sindicalismo industrial é dar à classe trabalhadora o maior poder organizado possível na indústria. Inquestionavelmente, a Greve Geral, dentro ou fora do trabalho, é a manifestação mais perfeita desse poder. Se os sindicatos artesanais de hoje forem examinados em relação à sua adaptabilidade para esse fim, isso colocará o movimento sindical industrial revolucionário sob uma luz totalmente nova. Também revelará claramente as deficiências do sindicalismo convencional em geral e do movimento sindical artesanal em particular. Afinal, a medida total do poder é o teste ácido de qualquer organização trabalhista.
Um olhar superficial para o movimento sindical artesanal revelará o fato de que ele é construído de forma a dividir em vez de unificar as forças do trabalho. O sindicato artesanal não é projetado para permitir que a mão de obra use todo o seu poder. Esse tipo de união surgiu durante o período de evolução industrial conhecido como pequena produção, quando as ferramentas do ofício e a habilidade do artesão eram coisas importantes. Naqueles dias, o poder organizado do comerciante consistia em ter o monopólio da habilidade necessária para tornar as ferramentas de seu comércio industrialmente produtivas. A retirada dessa habilidade durante os períodos de greve era tudo o que era necessário para forçar o antigo empregador do trabalho a aceitar. Assim, aconteceu que o sindicato artesanal foi organizado em torno das ferramentas, então importantes, dos artesãos.
Mas tudo isso foi mudado. A marcha para a frente do processo da máquina tornou, em grande medida, as ferramentas e as habilidades desnecessárias. Este grande avanço no desenvolvimento técnico tornou o antigo sindicato incapaz de lidar com as condições modernas. Os sindicatos artesanais continuam como uma questão de hábito, é verdade, mas são anacronismos neste mundo moderno. Alguns deles servem apenas mamatas para os homens de negócios cansados, que são seus diretores, e todos esses sindicatos servem mais ou menos como adereços da ordem existente. Mas eles não são sindicatos no sentido moderno. Eles são apenas as conchas de sindicatos outrora úteis que operam para garantir vantagens para alguns grupos favorecidos de trabalhadores, sem levar em conta os interesses da classe trabalhadora como um todo. Eles estão organizados dentro do sistema capitalista que eles foram ensinados a tomar como certo, e eles não têm nenhum pensamento ou programa de nada além deste sistema.
Em relação à manifesta fraqueza da estrutura e conceito de sindicatos de ofício, o Preâmbulo da IWW aponta com ênfase reveladora:
Descobrimos que a centralização da gestão das indústrias em cada vez menos mãos torna os sindicatos de ofício incapazes de lidar com o poder cada vez maior da classe empregadora. Os sindicatos de ofício promovem um estado de coisas que permite que um conjunto de trabalhadores seja confrontado com outro conjunto de trabalhadores da mesma indústria, ajudando assim a derrotar um ao outro nas guerras salariais. Além disso, os sindicatos de ofício ajudam a classe empregadora a enganar os trabalhadores na crença de que os trabalhadores têm interesses em comum com seus empregadores.
O problema do trabalho hoje não é um ofício, mas um problema industrial. Um sindicato no presente momento, para ser um instrumento eficaz de ataque e defesa, deve estar em conformidade com a estrutura da indústria moderna. Deve ser industrial em vez de artesanal em sua forma. Mas os sindicatos artesanais não acompanharam as necessidades de um mundo em mudança. Eles permaneceram, na maioria, exatamente onde estavam no início. Longe de serem os instrumentos de luta úteis que eram nos velhos tempos, eles agora se tornaram apenas mais um meio de efetuar a escravização da classe cujos interesses deveriam servir.
Uma Greve Geral dos sindicatos de ofício é uma impossibilidade impensável. Sendo organizados com o único propósito de permitir que alguns grupos de trabalhadores “sobrevivam” sob o capitalismo, eles não têm a forma e o espírito necessários para tornar possível uma ação unida para um objetivo comum contra um inimigo comum. Por esta razão, como organizado hoje, eles seriam de ajuda muito duvidosa para qualquer esforço unificado da classe trabalhadora para se libertar da escravidão assalariada por meios industriais. A luta industrial moderna exige armas industriais modernas. E nesse sentido o sindicato artesanal é tão obsoleto quanto o dodô[3]. Os trabalhadores que concebem a luta final pela emancipação em termos de poder industrial terão que procurar em outro lugar uma forma organizacional mais adequada para esse fim.
Os chamados sindicatos industriais independentes estão na mesma categoria. É verdade que sua estrutura industrial bastante frouxa possibilita que eles pensem o seu sindicato em termos de uma determinada indústria. Mas, como no caso da U.M.W.A. (United Mine Workers of America) e outros sindicatos semelhantes, eles são divididos em distritos, se não em ofícios, e são amarrados por contratos que impossibilitam que eles atuem em uníssono. Em nenhum caso há evidência de qualquer tentativa ou desejo por parte deles de se aliarem para fins de solidariedade com os trabalhadores de transporte ou de outras categorias, nas linhas de Um Grande Sindicato. Trabalhadores organizados das ferrovias, da confecção e de muitas outras áreas nos EUA estão igualmente presos, igualmente divididos e igualmente incapazes de se unirem para uma ação conjunta de qualquer tipo.
No que diz respeito aos interesses do trabalhador, estes passos devem estar na direção certa. Eles não devem apenas ser distintamente industriais, mas devem ser inquestionavelmente revolucionários.
Em vez do lema conservador, ‘Um salário justo por um dia de trabalho justo’, devemos inscrever em nossa bandeira a palavra de ordem revolucionária: Abolição do sistema salarial.
Assim afirma o Preâmbulo da IWW. E neste slogan histórico encontra-se a fonte da força e inspiração dos trabalhadores industriais organizados de todo o mundo.
Os partidos políticos da classe trabalhadora, embora não sejam unânimes em endossar a Greve Geral, são francos em admitir a necessidade do poder econômico em qualquer programa de reconstrução revolucionária. Socialistas e comunistas parecem reconhecer a importância do sindicalismo industrial, mas não fazem muito a respeito. Eles não podem. Os partidos políticos não são organizados dessa maneira.
Em mais de uma ocasião, no entanto, particularmente na Europa, socialistas e comunistas apelaram aos trabalhadores por uma Greve Geral. Esta é uma coisa que é mais do que provável de acontecer novamente. O problema é que essas organizações, sendo partidos políticos e não sindicatos, não têm o maquinário para colocar em prática uma Greve Geral. Depois que todas as outras medidas falham, eles emitem apelos frenéticos para o que deveriam ter pensado em primeiro lugar — a solidariedade industrial. Normalmente, eles são forçados a apelar para sindicatos conservadores mais ou menos antipáticos, com os quais seus contatos têm sido em grande parte superficiais. Tais sindicatos, nem em estrutura, nem em espírito, foram projetados para responder efetivamente a tal demanda.
Uma estrutura planejada e conscientemente moderna é tão necessária para o sindicato quanto uma economia planejada para a sociedade como um todo. Esperar ação de classe de um sindicato de ofício é, pelo menos, tão tolo quanto esperar propostas revolucionárias de um partido conservador. Este método aleatório e acidental de fazer apelos de última hora por uma Greve Geral não indica a maior confiança possível na eficácia da ação política. Os esforços dos socialistas e comunistas de mentalidade política da Alemanha em 1932 para convocar uma Greve Geral a fim de impedir o fascismo são um exemplo disso. Depois de 1914, eles deveriam ter sabido melhor e deveriam, há muito tempo, ter se preparado para tal emergência, esquecendo o jogo da política por tempo suficiente para construir um poderoso movimento industrial conforme as linhas de Um Grande Sindicato. Então a história teria sido muito diferente do que é hoje.
A IWW desde o seu início manteve diante dos trabalhadores o objetivo da democracia industrial a ser obtida por meio da Greve Geral. O Preâmbulo, do qual centenas de milhões de cópias foram distribuídas, afirma em termos inequívocos:
Essas condições podem ser alteradas e os interesses da classe trabalhadora defendidos apenas por uma organização formada de tal forma que todos os seus membros em qualquer indústria, ou em todas as indústrias, se necessário, deixem de trabalhar sempre que uma greve ou bloqueio estiver em vigor em qualquer departamento dela, tornando assim um ataque a um, um ataque a todos.
Alguma vez apareceu uma declaração indicando mais claramente a interdependência orgânica, a unidade e o poder potencial dos produtores do mundo?
Apesar de certas semelhanças superficiais enganosas, que são indevidamente enfatizadas por observadores superficiais, o movimento anarco-sindicalista europeu e a IWW diferem consideravelmente em mais de um aspecto. Isso se tornou inevitável devido ao fato de que a IWW foi o resultado de um período posterior e mais maduro de desenvolvimento industrial.
Isso explica o fato de que o sindicalismo europeu, ao contrário da IWW, não está organizado em Um Grande Sindicato com base em departamentos industriais perfeitamente coordenados e centralizados. Também explica o fato de que a IWW tem sua forma projetada para servir não apenas como uma poderosa força combativa na luta de classes cotidiana, mas também como a estrutura da nova sociedade, tanto no que diz respeito à produção quanto à administração. Aliás, o conceito da Greve Geral da IWW difere quase tanto do anarco-sindicalista quanto do sindicalista político ou artesanal. Em forma, estrutura e objetivo, a IWW. é mais autossuficiente, mais madura e mais moderna do que qualquer um de seus antecessores anarcosindicalistas.
Pode-se contestar que a IWW. não entrou em contato e cooperou com os técnicos na medida em que os Sindicalistas Europeus o fizeram. Se isso é verdade, não se deve a qualquer falta de apreciação da importância do técnico no organismo industrial, mas sim ao fato de que a IWW tem lutado na luta de classes americana a um ponto que dificultou a continuidade do contato.
A IWW sempre considerou o técnico como um membro vitalmente necessário da classe produtora. Ele é indispensável a qualquer programa de reconstrução econômica fundamental. Seu lugar, no Quadro do Grande Sindicato, corresponde ao seu lugar e à sua importância na indústria. A IWW concebe a Democracia Industrial como as forças gerenciais tecnológicas que cooperam com as forças produtivas trabalhadoras do exército da indústria sob a Administração Geral do Grande Sindicato no interesse de toda a raça humana. Praticamente desde a sua criação, a IWW acolheu o engenheiro em seus conselhos. Alguns de seus excelentes educadores foram homens tecnicamente treinados. O engenheiro que não se envolvia com política, que era contra os patrões e tinha mentalidade industrial sempre foi reconhecido pela IWW como um irmão de sangue. Em 1921, a IWW tentou construir um Escritório de Pesquisa Industrial sob a direção de um grupo de engenheiros capazes com visão social e senso de responsabilidade social. Esse ambicioso projeto que a IWW foi forçada a abandonar porque muitos de seus funcionários ativos haviam sido enviados para a prisão naquela época. Antes e depois daquele período, a IWW tem pregado e praticado aquele tipo de solidariedade disciplinada que, segundo o técnico, é tão vitalmente necessária a qualquer plano de conduzir a produção sem os Capitães das Finanças que lucram com o trabalho alheio.
A IWW está de pleno acordo e comprometida, por uma política de quase meio século, com a ideia de que trabalhadores e engenheiros são os únicos elementos indispensáveis nos processos produtivos modernos. O técnico é, em todos os sentidos da palavra, um colega de trabalho. Ele é a “outra face” do homem na máquina — a força tecnológica gerencial na indústria que contrapõe as forças de trabalho produtivas no exército da produção. Ambos são igualmente necessários para qualquer plano de continuar a produção quando o capitalismo tiver sido derrubado. Ambos são igualmente necessários para qualquer plano de pôr fim ao sistema de lucro por outros meios que não os de derramamento de sangue e destruição. Este ponto se destaca na doutrina da IWW da Greve Geral. É bom que os técnicos, os membros da IWW e os estudantes em geral tenham isso em mente.
Nada poderia ser mais natural do que esse vínculo de companheirismo entre a IWW e outros grupos de mentalidade industrial no exército da produção ou entre os movimentos da classe trabalhadora. Foi demonstrado que os sindicatos artesanais e industriais independentes tornam a obtenção e o uso de todo o poder econômico do trabalhadorimpossível ou difícil de alcançar. Também foi demonstrado que os partidos políticos revolucionários, além das atividades educacionais e defensivas, complicam em vez de simplificar a situação no que diz respeito à Greve Geral. Portanto, a IWW apela aos trabalhadores das indústrias do mundo para que deixem de lado preconceitos e diferenças de opinião quanto a raça, cor, religião ou política e unam seu poder econômico em Um Grande Sindicato, independentemente das fronteiras nacionais, a fim de pôr fim ao monstro hediondo do imperialismo mundial que escravizou e degradou os trabalhadores de todas as nações. A Greve Geral é UM programa no qual todos os trabalhadores assalariados devem concordar.
Houve uma grande confusão quanto ao que se queria dizer com o termo, Greve Geral. No passado, qualquer greve de proporções consideráveis geralmente era chamada de "Greve Geral". Mas muitas vezes essa definição não era realmente aplicável. Grande parte do equívoco resulta de uma concepção errônea ou limitada sobre o que é uma Greve Geral e o que ela deve fazer. A Greve Geral, como o próprio nome indica, deve ser uma greve revolucionária ou de classe, em vez de uma greve para melhorar as condições. Deve ser projetada para abolir a propriedade privada dos meios de vida e suplantá-la com a propriedade social. Deve ser uma greve, não de alguns grupos locais, industriais ou nacionais de trabalhadores, mas dos trabalhadores industriais do mundo como uma entidade. Se tivermos em mente que existem quatro fases da Greve Geral, isso ajudará a entender claramente o que queremos dizer com o termo:
Uma Greve Geral em uma comunidade.
Uma Greve Geral em uma indústria.
Uma Greve Geral nacional.
Uma greve revolucionária ou de classe
— A Greve Geral.
Será visto, a partir do exposto, que, embora as três primeiras sejam Greves Gerais no significado limitado e comumente aceito do termo, apenas a última, ou greve de classe revolucionária, é uma Greve Geral no sentido pleno do termo. Os três primeiros foram tentados às vezes com diferentes graus de sucesso, mas o último ainda não foi organizado e tornado eficaz.
Assim, por exemplo, a demonstração de poder industrial pelos trabalhadores da Finlândia e da Rússia em 1905 ou aquela relacionada ao levante em Moscou que resultou na derrubada do governo Kerensky em 1917, ou a greve dos ferroviários franceses em 1909, a grande greve na Suécia em 1909, ou a greve na Alemanha quando a administração de Von Kapp foi prejudicada da mesma forma. Houve também importantes Greves Gerais na Bélgica em 1913, em Buenos Aires em 1920 e novamente na Grã-Bretanha em 1926. Todos estes foram referidos como "Greves Gerais". E são Greves Gerais no sentido limitado definido acima.
A chamada Greve Geral na Dinamarca, que foi convocada pelos socialistas para bloquear a formação de um gabinete impopular pelo rei, é um exemplo, assim como a agora famosa tentativa dos trabalhadores italianos de assumir as indústrias em 1920.
As greves da IWW de 100.000 madeireiros ou 40.000 mineiros de cobre em 1917 são exemplos justos da Greve Geral industrial, enquanto as que afetam Seattle e Winnipeg são exemplos da Greve Geral comunitária. Livros podem ser escritos sobre cada uma das instâncias citadas. Mas, no final, ficaria claro que, em cada caso, as greves não cobriam uma área suficiente e não eram apoiadas por um número suficiente de trabalhadores nas várias indústrias. A abolição da escravidão assalariada também não era o objetivo dessas greves. Em outras palavras, eram apenas o prenúncio do que o trabalhador poderia fazer por si mesmo sob maior provocação, inspirado por um maior senso de solidariedade e com uma organização mais aperfeiçoada à sua disposição.
As condições necessárias para a operação bem-sucedida de qualquer um dos quatro tipos de Greve Geral enumerados acima nunca existiram. Mas, como ainda não foi possível usar o poder econômico do trabalhador em pleno proveito, não há sinal de que tais condições nunca existirão. Tem sido dito muitas vezes, com bastante sinceridade, que “uma andorinha só não faz verão”. É igualmente verdade que as andorinhas nunca nos visitam no auge do inverno. O fato do trabalhador ter tido sucesso em uma extensão limitada indica que ele pode usar seu poder econômico em uma extensão muito maior.
A Greve Geral, uma vez claramente definida e compreendida, oferece ao trabalhador uma arma no uso da qual mostrou grande aptidão e disposição — uma arma com a qual todas as outras armas na guerra de classes são insignificantes em comparação. Assim como a pólvora substituiu o arco e a flecha, a ação econômica deslocará as armas mais cruas e menos potentes do trabalhador na luta final pela emancipação da escravidão assalariada. Somente os críticos mais superficiais das táticas da classe trabalhadora procurarão desencorajar o uso do maior poder do trabalhador para atingir o objetivo mais elevado do trabalhador. E apenas os observadores mais superficiais podem deixar de ver que o plano organizacional da IWW é idealmente construído para permitir que o trabalhador use esse poder.
A IWW acredita que a construção da nova sociedade, especialmente durante o período de crise, é, pelo menos, tão importante quanto a abolição da antiga. Isso não é apenas um dogma; são táticas sólidas. Se o objetivo da revolução social é alcançar a socialização e o controle democrático da indústria, o momento de tornar essa conquista um fato é durante a crise revolucionária, e com o menor atraso, burocracia ou desorientação da classe média possível. De qualquer forma, seria fatal perder o rumo do objetivo durante o período de turbulência. Deve ficar claro, mesmo para o observador mais casual, que as táticas europeias não são totalmente adequadas às necessidades da mão de obra americana. Nos EUA, não há um, mas três tipos distintos de cultura — o leste e centro-oeste industrial; o sul feudal e a ainda inovadora costa oeste. Em qualquer um deles, é evidente que seria uma coisa fácil, sob incitação, que a guerra de classes degenerasse em uma guerra religiosa, política ou racial. E é ainda mais evidente que o impacto da violência da multidão no organismo industrial altamente desenvolvido resultaria em um desastre que poderia resultar em destruição universal e caos final. Às vezes, a gente se vê forçado a se perguntar sobre a ousadia da liderança do movimento comunista americano ao pensar que pode controlar e direcionar para fins construtivos as forças sinistras da caixa de Pandora da guerra civil, que eles parecem ansiosos por abrir sobre uma terra cujo idioma mal sabem falar.
A IWW sempre assumiu a posição de que a insurreição armada em um país tecnicamente avançado como os EUA seria bem diferente de uma insurreição armada em um país tecnicamente atrasado e em grande parte agrícola como a Rússia — particularmente sob condições que prevaleceram em Moscou e Petrogrado após o armistício em 1918. O que as condições americanas exigem é uma operação em grande escala na natureza de um bloqueio bem coordenado dos Capitães de Finanças por trabalhadores e técnicos, o que poria fim ao sistema de lucro, mas deixaria a produção e o transporte de mercadorias intactos. Isso, juntamente com o programa de piquetes nas indústrias pelos desempregados, é o que a IWW tem em mente ao defender a Greve Geral. Qualquer coisa menor do que isso ou maior é simplesmente adicionar confusão à confusão. A lógica é a seguinte: um relógio moderno perfeito pode ser desmontado tão facilmente quanto um brinquedo de lata; mas é muito mais difícil de montar novamente.
Na América, a IWW é, e tem sido desde a sua criação, o porta-estandarte do sindicalismo industrial revolucionário. Desde o início, a IWW tem uma mentalidade industrial. Em grande parte como resultado de sua constante insistência no uso do poder econômico, tanto os socialistas quanto os comunistas foram forçados a admitir que, no movimento revolucionário, o sindicato é a vanguarda de luta. Ambas as partes agora buscam contatos industriais e ambas se posicionam, pelo menos teoricamente, a favor do sindicalismo industrial. Ambos admitirão, quando presos a ela, que a sociedade futura será organizada com base na administração industrial e não no governo político. O problema é que ambos os partidos, devido, sem dúvida, à mistura generosa de elementos não proletários em suas fileiras, estão sobrecarregados com a política. Eles pensam em termos de campanhas políticas (e coisas ainda mais tolas) em vez de greves, piquetes e sindicatos que tornam possível a obtenção de um poder econômico substancial. Os partidos políticos organizados dentro de fronteiras nacionais específicas devem necessariamente permanecer nacionalistas. Na própria natureza das coisas, é impossível para eles conceber a solidariedade internacional, exceto em termos da federação de unidades nacionais.
A IWW, por outro lado, ignora as linhas de fronteira nacionais e vê o problema do ponto de vista da interdependência da classe produtora, estreitamente unida e organicamente relacionada e que abrange o mundo. A IWW afirma que as “mãos do outro lado do mar” devem ser as mãos dos trabalhadores industriais e não dos políticos. Nada prova mais à força a exatidão dessa posição do que as duas guerras mundiais. Quatro milhões e meio de eleitores socialistas na Alemanha, e mais milhões de eleitores socialistas na França, Inglaterra e Bélgica, não foram capazes de parar o cataclismo inspirado pela ganância que começou em 1914 e que tem progredido até o recente holocausto mundial. O trabalhador não ganhou nada com essas guerras. Perdeu muito. Pagou o custo em sangue, miséria e recursos — e continuará a pagar por muitos anos. E o objetivo do trabalhador está ainda mais longe agora do que no início da Primeira Guerra Mundial. A IWW alegou em 1914, e ainda afirma, que, se os trabalhadores da Europa tivessem sido organizados industrialmente, treinados, disciplinados e educados no uso do poder industrial, não apenas essas matanças imperialistas teriam sido impossíveis, mas a vitória final do trabalhador teria sido alcançada há muito tempo.
Se os políticos salvadores da classe trabalhadora nos EUA apenas lucrassem com esse erro fatal e, mesmo agora, procurassem construir um poderoso movimento sindical industrial revolucionário em vez de enormes e desagradáveis máquinas políticas, as perspectivas de uma vitória clara para o trabalhador seriam imensamente mais brilhantes.
Em face disso, a função precisa de um partido político com sua liderança, na maioria, não proletária em um movimento sindical é difícil de determinar. A vantagem para a base no sindicato sob o controle dos políticos ainda é mais difícil de descobrir. Implicar que o sindicato industrial, por exemplo, precisa da liderança e dominação do partido político é implicar que os sindicalistas são incapazes de administrar seus próprios assuntos. Admitir que o sindicato industrial é e deve ser meramente o complemento do partido político é admitir que o poder econômico é de menor importância do que o poder político e que o sindicato é projetado para ser apenas o brinquedo do político ambicioso ou a ferramenta do líder burguês projetista. Se essa é a atitude, por que é necessário ter sindicatos? Por que não voltar ao socialista “amarelo”[4] do pré-guerra, que acreditava que os sindicatos eram muito mais um obstáculo do que uma ajuda aos trabalhadores, na medida em que o sindicato distraía a mente do trabalhador das urnas? Se o termo “Democracia Industrial” significa alguma coisa, significa que os membros do sindicato — os trabalhadores reais na indústria — têm direito e são capazes de controlar os assuntos de sua própria organização sem a interferência de pessoas de fora.
Ao ensinar à classe trabalhadora a necessidade e os benefícios do sindicalismo industrial revolucionário, os partidos políticos estão fazendo um trabalho necessário e valioso. Mas ao tentar dominar e controlar o movimento industrial de fora ou de dentro dos partidos políticos, conscientemente ou não, eles estão cometendo um erro medonho. A IWW ainda se lembra da lição de 1914.
É lógico que não cabe nem pode caber a um partido político organizar ou tornar efetiva uma Greve Geral ou qualquer outro tipo de greve. Eles podem defender, incentivar e exigir o uso total ou parcial do poder industrial do Trabalho, mas apenas uma organização que funcione na indústria pode tornar essa ação possível. O partido político não tem a estrutura para convocar ou realizar uma greve. Se tivesse essa estrutura seria um sindicato e não um partido político. Somente os trabalhadores organizados em seus próprios sindicatos podem funcionar para fins de combate ou administração nessa função.
Por esta razão, os trabalhadores de todos os países que desejam usar seu poder industrial combinado para pôr fim à exploração e à escravidão assalariada devem procurar construir um irresistível movimento de Um Grande Sindicato, nos moldes defendidos pelos Trabalhadores Industriais do Mundo. E, a menos que desejem abrir mão do princípio da democracia em favor do princípio da ditadura, devem se recusar a ceder o controle de sua organização a políticos ou líderes não proletários de qualquer tipo ou cor.
Pode-se argumentar, no entanto, que a Greve Geral poderia ser tão difícil de controlar e, devido à possível paralisação do transporte, tão produtiva em termos de privações quanto a guerra civil. Se o poder do Estado não fosse capturado pelos trabalhadores, as forças armadas da classe dominante não esmagariam a greve com o poder militar? O resultado a longo prazo não seria o mesmo no que diz respeito à fome e à desorganização em massa?
A resposta é que, como a IWW concebe a Greve Geral, ela seria tão perfeitamente organizada por trabalhadores e técnicos e efetivamente usada que a alimentação, o fornecimento e o transporte de mercenários armados seriam praticamente impossíveis. As greves em Seattle e Winnipeg deram alguma indicação da capacidade dos grevistas de organizar, fazer piquetes e policiar sua greve e, ao mesmo tempo, providenciar a distribuição adequada de alimentos para a população. Quanto a metralhadoras, tanques, aviões e bombas de caráter asfixiante ou incendiário, é bom lembrar que tais coisas só estão disponíveis quando são fabricadas e transportadas pelo trabalho e seriam mais difíceis de usar contra trabalhadores posicionados nas e sobre as indústrias amplamente espalhadas pela nação do que contra multidões reunidas nos guetos operários das grandes cidades.
Conforme a ideia moderna da Greve Geral, não seria necessário, durante um movimento de classe bem organizado desse tipo, que os trabalhadores empregados deixassem seus lugares designados na indústria. Pelo contrário, o esforço seria feito para levar os trabalhadores para as indústrias, em vez de sair delas, a fim de manter as rodas da produção funcionando. A Greve Geral, em outras palavras, seria um meio de alimentar e não de matar as pessoas de fome.
Isso está de acordo com o programa da IWW de GREVE NO TRABALHO. A única diferença seria que as portas da fábrica, sob a direção da equipe técnica gerencial das forças produtivas, seriam escancaradas para absorver os milhões de desempregados. As rodas da indústria operariam em sua maneira habitual apenas com o propósito de suprir as necessidades humanas, em vez do enriquecimento de uma Classe Parasita gananciosa pelo lucro.
A Greve Geral, portanto, significaria simplesmente que o exército de produção, sob direção técnica e gerencial competente, continuaria a trabalhar e a permanecer nas indústrias, produzindo e transportando bens para consumo, mas se recusando a ceder mais-valia para a classe parasita. A Greve Geral seria um Bloqueio Geral contra esses zangões ociosos que agora detêm como sua “propriedade privada” o maquinário do qual a raça humana depende para viver.
A Greve Geral está condicionada à VONTADE dos trabalhadores de torná-la eficaz e à sua determinação obstinada em pôr fim à exploração, produzindo bens para USO em vez de LUCRO. Ao contrário da pequena greve, a Greve Geral não depende necessariamente da retirada completa do esforço produtivo das máquinas, mas sim de sua capacidade de retirar ou reter apenas o esforço que acabará completamente com os lucros dos “proprietários” parasitas.
O objetivo final da Greve Geral no que diz respeito aos salários é dar a cada produtor o produto completo de seu trabalho. A demanda por melhores salários só se torna revolucionária quando é acoplada à demanda de que a exploração do trabalho deve cessar. O trabalhador é explorado no ponto de produção, e é apenas no ponto de produção que o trabalhador pode impedir que os zangões ociosos e ausentes recebam mais do que produzem. Somente a proibição completa de qualquer participação aos não produtores garantirá justiça econômica à classe trabalhadora. As condições de trabalho sob o capitalismo causaram muitas controvérsias amargas, mas mesmo as demandas mais necessárias para sua melhoria dificilmente poderiam ser chamadas de revolucionárias. Mesmo sob a Democracia Industrial, essas coisas serão questões de conveniência e melhoria consistentemente contínuas, de acordo com as necessidades reconhecidas.
A demanda por redução da jornada, no entanto, é decididamente uma demanda revolucionária. Com base em um dia de oito horas, menos de três horas são tudo o que é necessário para que o trabalhador ganhe seu salário; o resto do dia ele é empregado na produção de mais-valia para o patrão. Cada hora reduzida do dia de trabalho significa para o empregador uma hora a menos de lucros por trabalhador empregado — uma hora a menos de oportunidade de exploração. Isso explica o fato de que as demandas do trabalhador por redução da jornada sempre foram contestadas com mais vigor do que as demandas por melhores condições ou mesmo aumento salarial.
A razão é óbvia: a diferença entre a jornada de seis horas e a jornada de oito horas é a diferença entre as três horas e as cinco horas concedidas ao empregador para extrair lucros das peles de seus empregados, sendo que cada hora reduzida se dá às custas do explorador. A diferença entre o dia de seis horas e, digamos, o dia de três horas, é a diferença entre três horas suando para o lucro e nenhuma. Portanto, se o empregador deseja continuar a viver do trabalho de seus escravos assalariados, ele deve proteger, tal como faz, zelosamente a duração da jornada de trabalho do trabalhador. Dela depende não apenas o valor de sua renda imerecida, mas também a continuação de seu privilégio de viver sem produzir.
A principal demanda da Greve Geral seria, portanto, logicamente, uma demanda por uma jornada de trabalho média não superior a três horas ou qualquer período de tempo tecnologicamente necessário para continuar a produção sem fins lucrativos. Esta é a mais revolucionária de todas as demandas porque seca a possibilidade de exploração de classe em sua fonte. Sob um sistema industrial planejado e com o maquinário aperfeiçoada da produção moderna colocada à disposição da raça humana, mesmo com a atual equipe de diretores competentes, não há razão alguma (além do sistema de lucro) para que alguém seja forçado a trabalhar mais de duas horas e meia ou três horas por dia. Qualquer dia de trabalho mais longo do que o necessário para fazer o trabalho necessário do mundo simplesmente serve para engordar os parasitas já gordurosos da indústria. A Greve Geral para o dia de três horas não só colocaria os milhões de desempregados de volta ao trabalho, mas também colocaria os Ladrões das Grandes Empresas para trabalhar ao lado deles. A este respeito, é bom lembrar que os madeireiros da IWW no noroeste ganharam a jornada de oito horas pelo simples gesto de soprar o apito ao final de oito horas e depois sair do trabalho em massa.
A IWW é creditada por ter introduzido duas táticas notáveis de guerra industrial no movimento trabalhista americano — a greve no local de trabalho e o piquete em massa dos desempregados. Ambos são de extrema importância para a operação bem-sucedida da Greve Geral. De fato, o sucesso da ação (além da direção tecnológica competente) dependeria da solidariedade existente entre trabalhadores empregados e desempregados. Em uma greve de classe, essa solidariedade é indispensável, porque somente por ação conjunta e entendimento comum desse tipo as horas de trabalho podem ser encurtadas para permitir que todos voltem ao trabalho. O efeito sobre o sistema capitalista de milhões de desempregados fazendo piquetes nos portões da fábrica por uma jornada de trabalho mais curta pode ser facilmente imaginado. Ao fazê-lo, os desempregados não só estariam atingindo a causa raiz do desemprego (longas horas), mas também estariam atingindo a causa raiz da exploração (a propriedade privada do maquinário socialmente necessário).
Pode-se questionar que, mesmo admitindo que a Greve Geral seja uma coisa boa, ainda há pouca possibilidade de que ela venha a ser usada. Bem, a resposta é: claro que sim! Há todas as razões para acreditar que uma vitória da Greve Geral é muito mais provável do que uma vitória por cédulas ou balas. Deve-se admitir, no entanto, que sua possibilidade é prejudicada pela insistente promoção por políticos, insurgentes e reformistas de métodos não industriais. Do mesmo modo, ajudaria uma campanha educacional agressiva ao longo de linhas sindicais industriais revolucionárias. A menos que seja feito um grande esforço para direcionar o crescente descontentamento da classe trabalhadora ao longo das linhas industriais para a obtenção da democracia industrial por meio da Greve Geral, muitas outras coisas provavelmente acontecerão. As únicas outras alternativas parecem ser multidões desordenadas e ditadura de um tipo ou de outro. Os trabalhadores devem fazer todos os esforços para conseguir o que querem, mas devem ter certeza absoluta de que querem.
O sistema capitalista, por mais podre que seja, tem recursos que não podem ser negligenciados. As forças armadas do Estado não são tão formidáveis quanto a imprensa corrupta e outras vias de publicidade e deseducação de classe. A imprensa e o rádio, controlados pela classe capitalista, são talvez os baluartes mais fortes para a ordem estabelecida. Por meio deles, o ódio dos trabalhadores e o frenesi da multidão podem ser levados ao extremo a qualquer momento e contra qualquer indivíduo ou grupo que se atreva a desafiar o sistema capitalista. Será lembrado, no entanto, que os trabalhadores de jornais às vezes, notadamente em Seattle, se recusaram a diagramar ou imprimir matéria editorial caluniosa e inflamatória contra os trabalhadores. Portanto, aqui, assim como na fabricação e transporte de material de guerra, o poder econômico dos trabalhadores pode ser usado em vantagem.
O sistema de exploração ainda está fortemente arraigado e profundamente enraizado na ignorância econômica, bem como nos hábitos, costumes e no individualismo imbecil do eleitorado que dança conforme a música. Mas, independentemente dessas vantagens óbvias, os defensores da ordem atual estão lutando uma luta perdida. O capitalismo ultrapassou a sua utilidade como sistema social. Tornou-se uma maldição para toda a raça humana. Não há mais justificativa histórica para sua existência. Tornou-se um obstáculo para um maior progresso social. Está condenado pela lei de ferro da mudança inexorável. Assim como a escravidão por posse cedeu lugar à servidão, e esta evoluiu para a escravidão assalariada, também esta última se vê forçada — pela pressão evolutiva e revolucionária — a abrir caminho para o industrialismo científico: a Democracia Industrial. Mas mesmo isso não é garantido, pois a atual classe dominante mostra vontade inconfundível de mergulhar o mundo inteiro na desorganização e no caos. Ela pode ter sucesso, a menos que sejam tomadas medidas para detê-los.
O mundo já é um tumulto de desordem e rebelião devido à fome e ao desgoverno. Nenhum indivíduo ou organização pode prever com precisão o curso que os eventos podem tomar em cada um dos países civilizados, durante os últimos dias da ordem social que expira. Tudo o que podemos ver à luz das ciências sociais é que as indústrias devem ser assumidas por aqueles que as utilizam e delas necessitam, e operadas para uso, não para lucro. A socialização dos meios de produção, transporte e troca é agora necessária para a sobrevivência da raça humana. Somente os trabalhadores estão em posição de fazer isso e é seu dever, A TODO CUSTO, garantir que isso seja feito. Devidamente organizado e disciplinado, nenhum poder na terra pode impedir que a classe trabalhadora despertada se imponha.
O caráter cientificamente sólido e completamente construtivo do programa da IWW nunca foi enfatizado com mais força do que nos parágrafos finais de seu Preâmbulo:
É missão histórica da classe trabalhadora acabar com o capitalismo. O exército da produção deve ser organizado não apenas para a luta cotidiana com os capitalistas, mas também para continuar a produção quando o capitalismo tiver sido derrubado. Ao nos organizarmos industrialmente, estamos formando a estrutura da nova sociedade dentro da casca da antiga.
“Tomar as indústrias” é atualmente um slogan desacreditado, pois, por inferência, somos levados a entender que isso significa tomar as indústrias de fora. Mas, francamente, é necessário que os trabalhadores “tomem” algo que já possuem?
Todos os dias, no trabalho, os trabalhadores estão na posse das indústrias. O problema não é como “tomá-las”, mas como evitar entregá-las. A Greve Geral científica moderna teria um slogan muito mais simples e um programa muito mais sensato: Para os empregados: “Não larguem as indústrias, mas se recusem a produzir para o lucro”. Para os desempregados: “Façam piquete nas indústrias e não aceitem fazer o trabalho de fura-greve — nem deixem que mais ninguém aceite.”
É vitalmente necessário para os atuais “proprietários” que as máquinas e recursos sejam operados pelos trabalhadores. É igualmente necessário, durante a transição revolucionária, que o trabalhador se recuse a ceder seu domínio sobre as máquinas aos “proprietários”, fura-greves e mercenários.
É desnecessário dizer que o trabalhador defenderá seus próprios interesses. A IWW ensinou e está ensinando os trabalhadores a lutar, não a mendigar — a exigir, não a implorar pelo que querem. E nesta luta final para libertar o mundo do parasitismo social, a coragem, o pensamento claro e o espírito de luta destemido são necessários como nunca antes.
Percebendo que o controle da indústria só pode chegar às mãos da classe produtora quando os produtores tiverem poder suficiente para manter e conservar esse controle, a IWW defende a Greve Geral no trabalho, reforçada por formidáveis e determinados piquetes revolucionários de desempregados. Sendo inevitável a mudança da propriedade privada para a social, só assim o perigo de destruição grave e derramamento de sangue poderá ser minimizado.
A classe trabalhadora deve fazer todos os esforços para esse fim. Toda a corrente do movimento revolucionário deve ser direcionada das ruas para as indústrias. A luta revolucionária deve ser pensada e combatida em termos de ação industrial — controle, defesa, operação. A luta de classes, em última análise, deve ser uma luta para controlar os meios de produção, transporte e troca. Provavelmente será uma luta amarga, mas que pode ter apenas um fim — a vitória completa para os trabalhadores nas indústrias do mundo.
Aconteça o que acontecer, nenhum trabalhador deve calcular o custo. Mesmo na pior das hipóteses, uma Greve Geral dificilmente poderia implicar mais privação e sofrimento do que uma das muitas e frequentes recessões do capitalismo. A Greve Geral é mais sã do que a insurreição e mais segura do que a ação política. E além dela — depois da tempestade — há um mundo cientificamente planejado e ordenado baseado na paz, abundância e segurança para a humanidade martirizada. Que outra coisa valeria mais a pena ser almejada por homens e mulheres corajosos do que o ideal dessa Democracia Industrial sem classes pela qual a IWW tem lutado com tanto valor e por tantos anos?
[1][N. t.] Apelido pelo qual são conhecidos os integrantes da IWW.
[2][N. t.] Bico-de-tesoura (talha-mar) é uma ave que existe no Brasil e nos Estados Unidos. No dialeto da IWW, era um apelido usado para chamar de forma crítica o trabalhador que ficava do lado dos patrões, contra os próprios trabalhadores. O organizador Joe Hill chegou a fazer uma canção com esse nome.
[3][N. t.] Dodô é uma espécie de ave extinta em 1681.
[4][N. t.] Movimento que defendia a paz entre patrões em empregados promovido por Pierre Biétry na França durante o começo do século XX.