#title Bakunin & Nechayev
#author Paul Avrich
#SORTauthors Paul Avrich; Mikhail Bakunin; Felipe Corrêa
#lang pt
#date 1974
#pubdate 2026-10-31
#topics anarquismo; Primeira Internacional (1864-1877); Rússia; história do movimento operário; ensaio
#source Texto extraído do arquivo de diagramação da edição brasileira: Paul Avrich, *Bakunin & Nechayev*, Projeto editorial, preparação dos originais, revisão, capa e diagramação: Ian Caetano de Oliveira;tradução e notas de Lira Furtado (francês) e Ian Caetano de Oliveira (inglês); editor executivo: Victor Hugo Viegas; capa sobre desenho e ideia de Heitor Aquino Vilela., prefácio de Felipe Corrêa, Aparecida de Goiânia, Escultura, 2016.
#notes
#teaser Ensaio de Paul Avrich sobre a relação entre Mikhail Bakunin e
Sergey Nechayev (1869-1872): o jacobinismo russo, o *Catecismo do
Revolucionário*, o assassinato de Ivanov, a ruptura entre os dois e as
questões de tática e moral revolucionária que o episódio deixou ao
anarquismo. Acompanham as cartas de Bakunin a Nechayev de 1870.
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-1.jpg 40][Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (Михаил Александрович Бакунин), 1814-1876]]
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-5.jpg 40][Sergey Gennadiyevich Nechayev (Сергей Геннадиевич Нечаев), 1847-1882]]
** In memoriam: Ian Caetano de Oliveira
Nota do Arquivo Lucy Parsons na republicação de 2026
Esta republicação chega à biblioteca do Arquivo Lucy Parsons poucos dias depois da morte de Ian Caetano de Oliveira, em Goiânia, na madrugada de 30 de outubro de 2026, aos 32 anos. Ian foi o responsável pelo projeto editorial, pela preparação dos originais e pela revisão desta edição brasileira de Bakunin & Nechayev. Traduziu o texto de Avrich do inglês, escreveu as notas, fez a diagramação e desenhou a capa sobre a ideia e o desenho de Heitor Vilela. É a ele, em grande parte, que devemos este livro em português.
Ian começou cedo. Aos 17 anos integrava a coordenação da Frente de Luta do Transporte Público, que em maio de 2013 levou às ruas de Goiânia a luta contra o aumento da passagem, semanas antes de a revolta se espalhar pelo país. Pagou por isso: em maio de 2014 foi preso preventivamente na chamada Operação 2,80, junto com outros jovens do movimento, entre eles Heitor Vilela, e só foi solto cerca de uma semana depois, por habeas corpus.
Com Heitor Vilela fundou a Escultura Produções Editoriais, editora independente que estreou com este livro. A nota que abre a edição apresenta o propósito da empreitada: publicar no Brasil pesquisadores do pensamento anarquista ainda inéditos e “trazer ao debate autores relevantes de nosso e de outros tempos, mas que, por razões várias, não estão inseridos nele”. Foi esse trabalho que pôs em circulação, em português, o ensaio de Paul Avrich e as cartas de Bakunin a Nechayev.
Disponibilizar este livro em acesso aberto é a forma que encontramos de manter vivo o trabalho que Ian ajudou a construir. Aos seus familiares, amigos e companheiros de luta, a solidariedade do Arquivo Lucy Parsons.
** Nota à presente edição
A presente edição inaugura a empreita editorial que a Escultura pretende
levar a cabo: a publicação de pesquisadores e analistas teóricos do
pensamento anarquista ainda inéditos no Brasil. Em especial, mas não só,
de língua anglófona.
O texto original Bakunin & Nechaev foi publicado sem notas de rodapé,
portanto todas as notas de rodapé neste volume são da edição brasileira.
Elas trazem, fundamentalmente, breves descrições de personagens
históricos menos conhecidos.
A tradução foi feita diretamente do original em inglês, com detido
cuidado na significação semântica. Sempre que possível (o que soma a
maioria dos casos) foi mantida a exata pontuação utilizada pelo autor.
Todos os itálicos do texto são do próprio autor. Sempre que encontradas,
as obras mencionadas pelo autor trazem suas correspondentes versões em
português, seja em publicações impressas, seja em publicações online.
Nos apêndices: a tradução da primeira carta, inédita em português, foi
feita diretamente do francês por Lira Furtado. A segunda, mais famosa,
foi coletada do Arquivo Bakunin (arquivobakunin.blogspot.com), traduzida
a partir da versão espanhola de Franz Mint por “Antonio”.
Esta obra de Avrich foi originalmente publicada pela Freedom Press.
Apesar de diversos esforços, não conseguimos contatá-los na busca pelos
direitos formais de tradução da obra, tampouco conseguimos contato com
Ina Avrich (viúva do autor) ou com Jane e Karen Avrich (filhas do
autor). Em um último esforço, tentamos contato também com a AK press,
que publicou outras obras do autor, mas, igualmente, não obtivemos
sucesso. A Escultura fica à disposição destas pessoas e editoras para
esclarecimentos sobre a tradução.
O motivo, todavia, ao menos da maneira como vemos, é nobre: o de trazer
ao debate autores relevantes de nosso e de outros tempos, mas que, por
razões várias, não estão inseridos nele.
Agradecemos Heitor Aquino Vilela pela bela ilustração utilizada na capa
deste livro. Agradecemos também Felipe Corrêa pelo prefácio.
Março de 2016
** Prefácio | Prefácio — Contexto e implicações da relação Bakunin-Netchaiev
**Contexto e implicações da relação Bakunin-Netchaiev**[1]
*Felipe Corrêa*
A publicação Bakunin & Nechayev, do historiador Paul Avrich, chega num
momento importante, em que, ao menos num setor restrito do Brasil, se
aprofundam as discussões sobre Mikhail A. Bakunin. Apesar de sucinto,
este escrito contribui com a compreensão da complexa relação entre ambos
os russos que, mesmo tendo durado pouco tempo, teve consequências
marcantes e duradouras, não apenas na história do movimento da classe
trabalhadora, mas também nas produções historiográficas que se
debruçaram sobre Bakunin e sua obra.
Nos próximos parágrafos, pretendo contextualizar o ambiente em que se
deu essa relação e apontar suas principais implicações, tanto no que
tange às mencionadas consequências, quanto no que diz respeito ao debate
político por elas suscitado.
*** A Associação Internacional dos Trabalhadores e o contexto dos anos 1869-1872
Quando Netchaiev conheceu Bakunin pessoalmente, em março de 1869, a
Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) rumava para seu ápice
em termos de tamanho e radicalização política. O número de trabalhadores
filiados multiplicava-se e chegava, naquele ano, a 2 milhões. (Malon,
2014, p. 50) Essa associação, que havia sido fundada em 1864,
principalmente pelos esforços do proletariado francês e inglês, vinha se
radicalizando desde 1866, ano em que realizou seu primeiro congresso em
Genebra. No Congresso de Lausanne, de 1867, a AIT posicionou-se em favor
da “extinção do salariado e a repartição dos produtos”; no Congresso de
Bruxelas, de 1868, aprovou a necessidade da coletivização da propriedade
nas cidades e nos campos, posição ratificada no Congresso da Basileia,
de 1869, que, além disso, posicionou-se em favor da “abolição do direito
de herança”. (Samis, 2014, pp. 170, 174-175, 182)
Na verdade, essa radicalização dos congressos evidenciava um traço do
próprio movimento de trabalhadores que, naquele período, adotava
posições mais combativas de luta, em particular por meio das greves. Num
artigo de abril de 1869 reproduzido nas obras de Bakunin[2], há um
trecho que dá uma ideia da relevância das greves naquele momento:
As notícias relativas ao movimento operário europeu podem resumir-se em
uma palavra: greves. Na Bélgica, greve dos tipógrafos em várias cidades,
greve dos fiandeiros em Gante, greve dos tapeceiros em Bruges; na
Inglaterra, greve iminente dos distritos manufatureiros; na Prússia,
greve dos mineiros do zinco; em Paris, greve dos gesseiros e pintores;
na Suíça, greves na Basileia e em Genebra. (Bakunin, 1911, p. 50)
Essas e outras greves e mobilizações do período foram fundamentais para
subsidiar os debates do movimento operário e definir a mudança da
correlação de forças dentro da Internacional que, em 1869, passou a ser
hegemonicamente federalista coletivista. Elas foram também determinantes
para que Bakunin, que havia ingressado na Internacional no ano anterior,
formulasse os últimos aspectos das posições que caracterizarão sua
concepção política da maturidade, o anarquismo.
Uma das chaves para interpretar as disputas internas da AIT é o
conflito, presente em toda sua trajetória, entre federalistas
(especialmente mutualistas e coletivistas) e centralistas
(particularmente blanquistas e comunistas). Apesar das posições
contrárias dos membros do Conselho Geral, no qual se encontrava Karl
Marx, os federalistas, segundo Alexandre Samis (2011, pp. 103-186),
detiveram a hegemonia desta associação em praticamente toda sua
história, fato que pode ser constatado em suas resoluções congressuais.
Contudo, se até 1867 a principal força política do campo federalista era
o mutualismo proudhoniano, entre 1868 e 1869 foi o coletivismo, do qual
Bakunin era partidário, que se consolidou como tal. O federalismo
coletivista foi não somente a principal força no Congresso da Basileia
de 1869, mas conformou as bases da chamada Internacional Antiautoritária
que, fundada em 1872, deu continuidade à obra da Internacional até 1877.
Essa conjuntura na Europa ocidental, especialmente dos anos 1870 a 1872,
foi também duramente marcada pelos efeitos da Guerra Franco-Prussiana
(1870-1871) e da Comuna de Paris de 1871, e a AIT não escapou deles.
Esse período, que contou com uma imensa ascensão da repressão, impediu a
realização de um congresso e proporcionou as condições para que
ocorresse, ainda em 1871, a Conferência de Londres, que antecipou em
alguma medida as deliberações do Congresso de Haia, acontecido no ano
seguinte.
Conforme coloca René Berthier (2015, pp. 67-77), ambos os encontros,
caracterizados pela absoluta falta de representação das seções,
introduziram uma concepção política obrigatória a toda a Internacional
e, com isso, terminaram excluindo dela a quase totalidade de suas
seções.[3]
*** As implicações relativas ao movimento operário e à interpretação de Bakunin
O marco da chamada “cisão” da AIT foi a expulsão de Bakunin e James
Guillaume, no Congresso de Haia, em 1872, para a qual a relação do
primeiro com Netchaiev contribuiu significativamente. Inclusive, a
própria interpretação posterior de Bakunin foi consideravelmente marcada
por essa relação. Marc Leier aponta, nesse sentido, que
Netchaiev roubou dinheiro e reputação do anarquista, inadvertidamente
auxiliou Marx a expulsá-lo da Associação Internacional dos Trabalhadores
e forneceu munições amplas, ainda que indiscriminadas e incorretas, aos
inimigos do anarquismo que eles continuam a utilizar até hoje. (Leier,
2006, p. 201)
São exatamente as mencionadas “munições” que revelam as implicações da
relação Bakunin-Netchaiev concernentes ao movimento operário e à
interpretação de Bakunin em particular e do anarquismo em geral.
No que tange às primeiras, pode-se dizer que, basicamente, Bakunin foi
responsabilizado por tudo aquilo que foi feito por Netchaiev. Não parece
haver dúvida, conforme apontam Leier (2006, pp. 201-223) e Jean Barrué
(1976), que Bakunin fascinou-se extremamente pelo jovem russo,
principalmente por sua energia revolucionária, e trabalhou ativamente,
entre 1869 e 1870, para introduzi-lo e legitimá-lo em seu círculo; além
disso, incentivou-o a levar a proposta da Aliança para a Rússia e
trabalhou conjuntamente com ele na produção de textos de propaganda.
Independente da ingenuidade de Bakunin, que ele mesmo reconheceu mais
tarde, o fato é que ele definitivamente não concordava com a totalidade
das posições de Netchaiev e sequer tinha conhecimento de parte
considerável dos fatos que o incriminariam frente à polícia e o
movimento da classe trabalhadora. A carta de Bakunin (2008) a Netchaiev,
de 2 de junho de 1870, que veio a público somente em 1966, esclarece
sobremaneira suas posições e elucida vários desses aspectos que envolvem
suas concordâncias e discordâncias em relação ao jovem russo. Trata-se
de um documento central para aqueles que têm interesse no tema.
Contudo, há que se ter em mente que, em 1872, não só essa carta e a
versão de Bakunin não eram amplamente conhecidas, mas interessava
politicamente ao setor centralista estabelecer esse vínculo quase
indissociável entre os dois russos. Um documento intitulado “A Aliança
da Democracia Socialista e a Associação Internacional dos
Trabalhadores”, redigido por Paul Lafargue, Friedrich Engels e Karl Marx
(1978), e que serviu para subsidiar a expulsão de Bakunin e Guillaume em
Haia, permite que se entenda como esse vínculo foi realizado.[4]
Sustentando a tese de que a Aliança existia, pretendia destruir a
Internacional e que Bakunin era sua principal liderança, este documento
dedica uma parte bastante ampla (aproximadamente um terço de suas quase
100 páginas) ao caso da Rússia. Ele estabelece o vínculo entre Bakunin e
Netchaiev, afirmando ter sido encontrado com o segundo um cartão de
membro da Aliança assinado pelo primeiro, e sustentando: “a ação da
Aliança na Rússia nos foi revelada pelo processo político conhecido pelo
nome de ‘Caso Netchaiev’, que se desenvolveu em julho de 1871”.
(Lafargue, Engels e Marx, 1978, p. 341) O documento relata a quase
totalidade da história de Netchaiev obtida na justiça e na imprensa na
ocasião de sua prisão, e conta com o “Catecismo” de 1869 praticamente na
íntegra. Este e outros textos, que hoje se sabe terem sido escritos por
Netchaiev, são atribuídos à Bakunin, assim como todas as ações do jovem
russo.
Dessa maneira, a relação Bakunin-Netchaiev contribuiu diretamente com a
história da Internacional, visto que subsidiou parte considerável do
dossiê de expulsão dos dois federalistas em 1872, algo que, em termos
mais amplos, anunciaria a mencionada “cisão” iniciada naquele ano e que
se consolidaria nos anos seguintes.
No que diz respeito às segundas, pode-se dizer que essa visão do campo
centralista em geral e do marxismo em particular continuou a ser
difundida e marcou profundamente as diversas interpretações de Bakunin.
A atribuição do “Catecismo” de Netchaiev a Bakunin, por exemplo,
subsidiou parte importante das teses que vêm sustentando haver uma
contradição entre as posições públicas de Bakunin, em particular o
federalismo proposto para a Internacional, e suas posições “secretas”,
especialmente o “centralismo” defendido para a Aliança e outras
organizações. (Cf., entre muitos casos, Brupbacher, 2015, p. 108) Essa
equivocada atribuição influiu diretamente as interpretações marxistas e
liberais de Bakunin, conforme aponta Brian Morris:
Seus [de Bakunin] escritos e os documentos programáticos sobre as
“sociedades secretas” [incluindo o “Catecismo” de Netchaiev],
especialmente os mais antigos, deram a impressão para muitos acadêmicos
que, embora Bakunin pregasse uma doutrina libertária, o anarquismo, na
verdade, e mesmo em termos teóricos, ele defenderia também uma ditadura
revolucionária e, assim, o “despotismo”. Por esse motivo, os marxistas
repudiaram Bakunin, considerando-o irrelevante e um perigoso romântico,
enquanto os liberais equipararam Bakunin a Robespierre e aos jacobinos,
considerando-o um precursor do bolchevismo ou mesmo do stalinismo.
(Morris, 1993, p. 143)
Tais posições, que extrapolaram o campo acadêmico e estenderam-se ao
campo político, não apenas continuam a ser defendidas como, não raro,
são estendidas à distintas correntes do anarquismo.
Dessa forma, a relação Bakunin-Netchaiev influenciou as interpretações
de Bakunin, não apenas em função deste caso do “Catecismo” de 1869, mas
também pelo fato de terem sido atribuídos a Bakunin outros textos de
Netchaiev (como “Os Princípios da Revolução”, de 1869), assim como
muitas de suas posições e atitudes, senão, em alguns casos, a totalidade
delas.
*** O texto de Avrich e as implicações políticas da relação Bakunin-Netchaiev
Finalmente, parece-me importante destacar que essa relação entre ambos
os russos, cujo texto de Avrich contribui significativamente para
desvendar, possui – além da virtude de colaborar com o conhecimento
acerca da vida e da obra de Bakunin, muitíssimo limitado dentro e fora
das universidades – a qualidade de suscitar um debate político de
primeira ordem acerca da relação entre ética e política.
Essa problemática, muito bem enunciada por Maquiavel em O Príncipe[5],
teve continuadores à esquerda e à direita, revolucionários, reformistas
e conservadores. Ela esteve no cerne da política do chamado “mundo
socialista” e está no centro da política contemporânea, incluindo as
democracias ditas liberais com a crise de legitimidade que as afeta.
A relação Bakunin-Netchaiev expõe desdobramentos concretos dessa
problemática e permite pensar, desde perspectivas revolucionárias,
socialistas, anarquistas, quais devem ser os limites éticos da prática
política. Se Netchaiev aproxima-se, em certo sentido, do realismo
maquiaveliano, as posições de Bakunin questionam esse pragmatismo amoral
e definem certos pressupostos éticos para a ação política.
Tal relação, observada à luz da obra bakuniniana, e mesmo da tradição
histórica anarquista como um todo, permite que se avance em respostas a
distintas questões. Qual é (e qual deve ser) a relação entre ética e
política? Existem limites éticos para a prática política? Se sim, quais
são? A ética deve nortear a política com aliados, adversários e
inimigos? Se sim, como, em cada um destes casos? Para os
revolucionários, os socialistas, os anarquistas, como essas relações são
entendidas? Muitas outras perguntas poderiam ser feitas.
Bakunin & Nechayev fornece importantes subsídios ao leitor para refletir
sobre essas e outras questões. E mais: ao realizar uma análise histórica
do passado, termina por oferecer elementos que contribuem com a
constituição de um ferramental teórico e político visando enfrentar o
presente e futuro.
*** Bibliografia
BAKUNIN, Mikhail. “Organisation et Grève Générale”. In: Oeuvres. Tome V.
Paris: Stock, 1911.
________________. CD-ROM Bakounine: Ouvres Completes, IIHS de Amsterdã,
2000.
________________. Relations avec Serge Netchaiev (1870-1872). Antony:
Tops / H. Trinquier, 2003.
________________. “Carta a Netchaiev de 2 de junho de 1870”. Archivo
Miguel Bakunin, 2008.
BARRUÉ, Jean. “Bakunin e Netchaiev”. In: O Anarquismo Hoje. Lisboa:
Assirio & Alvim, 1976.
BERTHIER, René. Social-Democracy & Anarchism in the International
Workers’ Association (1864-1877). Londres: Anarres, 2015.
BRUPBACHER, Fritz. Bakunin, o satã da revolta (com notas de Jean
Barrué). São Paulo: Imaginário/Intermezzo, 2015.
CORRÊA, Felipe. “Introdução”. In: BAKUNIN, Mikhail. Revolução e
Liberdade: cartas de 1845 a 1875. São Paulo: Hedra, 2010
______________. Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo. Curitiba:
Prismas, 2014.
LAFARGUE Paul; ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. “La Alianza de la
Democracia Socialista y la Asociación Internacional de Trabajadores:
informes y documientos publicados por orden del Congreso Internacional
de La Haya”. In: RIBEILL Ribeill (org). Marx/Bakunin: socialismo
autoritário, socialismo libertario. Barcelona: Madrágora, 1978.
LEIER, Mark. Bakunin: the creative passion. Nova York: St. Martin’s
Press, 2006.
MALON, Benoit. A Internacional: sua história e seus princípios. São
Paulo: Imaginário, 2014.
MEHRING, Franz. Karl Marx: a história de sua vida. São Paulo:
Sundermann, 2014.
MORRIS, Brian. The Philosophy of Freedom. Montréal: Black Rose, 1993.
NORTE, Sérgio. Bakunin: sangue, suor e barricadas. Campinas: Papirus,
1988.
SAMIS, Alexandre. Negras Tormentas: o federalismo e o internacionalismo
na Comuna de Paris. São Paulo: Hedra, 2011.
________________. “A Associação Internacional dos Trabalhadores e a
Conformação da Tradição Libertária”. In: CORRÊA, Felipe; SILVA, Rafael
V.; SILVA, Alessandro S. da (orgs.). Teoria e História do Anarquismo.
Curitiba: Prismas, 2014.
[1] O autor do prefácio optou pelo uso da grafia “Netchaiev”, ao invés
da que o tradutor utilizou no texto principal “Nechayev”. Optamos por
manter a preferência para demonstrar o pluralismo de interpretações na
tradução do alfabeto russo. (Nota da Edição)
[2] Apesar de constar nas obras de Bakunin, não se sabe ao certo se a
autoria deste artigo é dele ou de Charles Perron, um outro membro da
Aliança, cujas posições acerca das greves eram significativamente
próximas às do revolucionário russo. (Cf. Bakunin, 1911, p. 48)
[3] Endosso a tese de Berthier (2015) acerca da “cisão” da AIT ocorrida
em 1872. Segundo argumenta este autor, tal ruptura não resultou das
maquinações de Bakunin e dos aliancistas para tomar controle ou destruir
a Internacional, como em geral se afirmou no campo marxista, e nem de
uma simples divisão em função das posições políticas, colocando de um
lado federalistas e de outro centralistas, como em geral se interpreta
hoje em dia. Para ele, o que ocasionou a ruptura – em cujo processo
localizam-se as expulsões de Bakunin e Guillaume – foi a imposição de um
programa político à Internacional (a constituição da classe em partido e
a busca da conquista do poder político), realizado provisoriamente em
Londres e definitivamente em Haia, contrariando aquilo que era
recomendado por Bakunin, a unidade em torno da luta econômica imediata.
Foi isso que, segundo sustenta, motivou a insatisfação generalizada e o
protesto das seções em relação ao Conselho Geral; com a subsequente
resolução deste organismo, de que aqueles que discordassem das
resoluções estariam automaticamente excluídos, o que aconteceu foi que
foram “excluídas” da “AIT” praticamente a totalidade de suas seções e,
assim, a imensa maioria de seus membros.
A transferência do Conselho Geral para Nova York em 1872 antecipou o
atestado de óbito da Internacional Centralista, formalizado quatro
anos depois. Quando Berthier (2015, p. 1) considera que “Haia foi a
vitória da corrente federalista”, ele entende que, naquela ocasião,
venceu a imensa maioria de seções e membros, que recusou a imposição
do programa político e a conduta do Conselho Geral e rearticulou-se,
criando, ainda em 1872, a chamada Internacional Antiautoritária,
legítima continuadora da AIT. Essa associação deu prosseguimento à
obra de massas internacionalista e realizou outros quatro congressos
no eixo Suíça-Bélgica até 1877, quando também encontrou seu fim.
Curiosamente, entre outros fatores, Berthier argumenta que esse fim
deveu-se, novamente, à imposição de um programa político à
Internacional; só que dessa vez os responsáveis foram os
anarquistas.
[4] Sobre este texto, mesmo Franz Mehring (2014, p. 530), principal
biógrafo de Marx e marxista, afirma que ele encontra-se “num nível
abaixo de qualquer outra coisa jamais publicada por Marx e Engels” e que
“não é um documento histórico, mas uma acusação cujo caráter tendencioso
é aparente em cada página”.
[5] Digo que a problemática foi bem “enunciada” por Maquiavel, pois
considero que ele colocou a questão de maneira bastante pertinente. No
entanto, não estou de acordo com a resposta dada por ele neste mesmo
livro e nem com aquelas dadas por autores que continuaram a discussão,
como Max Weber, em “A Política como Vocação”. Para uma discussão mais
aprofundada acerca desta problemática, ver um artigo que escrevi
intitulado “Ética e Política em O Príncipe de Maquiavel”, o qual está em
avaliação e será, em breve, publicado.
** Nota do autor
O período Nechayev da carreira de Mikhail Bakunin (1869-1872) foi
relativamente breve. Ainda assim, excluído o fato de este ser um drama
psicológico fascinante, tal drama constitui um importante capítulo na
história do movimento revolucionário russo, colocando questões
fundamentais sobre táticas revolucionárias e moralidade revolucionária,
com as quais militantes radicais continuam a se debater até hoje. A
relação de Bakunin com Nechayev foi também um fator contributivo no
famoso conflito do primeiro com Marx, e em sua expulsão da Primeira
Internacional. E isso o levou a uma reavaliação de suas doutrinas
revolucionárias e a uma reafirmação de seus princípios libertários em
oposição ao que ele chamava de “jesuitismo” e “maquiavelianismo” de seu
jovem discípulo. Estamos, portanto, em grande dívida com Arthur Lehning
e Michael Confino (ver nota bibliográfica) por disponibilizarem os
materiais necessários à revisão do caso Nechayev, que é o objeto do
presente ensaio.
1974
Paul Avrich
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-2.jpg 35][Capa da 2ª edição britânica, 1987]]
** I – Nechayev e o Jacobinismo Russo
Sergey Gennadiyevich Nechayev nasceu em 20 de Setembro de 1847, em
Ivanovo, uma cidade têxtil emergente a nordeste de Moscou, que começava
a ganhar a reputação de “Manchester Russa”. Seu pai era um pintor de
letreiros, sua mãe uma costureira, e ambos eram de origem servil, de tal
modo que Nechayev foi um dos primeiros radicais russos proeminentes com
um completo histórico plebeu. Ele “não era um produto do nosso mundo”,
escrevera Vera Zasulich[6] em suas memórias, mas “um estranho entre
nós”. Como um filho do povo, todavia, ele era, todo, o mais
impressionante aos olhos de seus colegas revolucionários, arrependidos
da nobreza, ansiosos por pagar suas dívidas com as classes baixas. Um
conhecido chamou Nechayev “um verdadeiro revolucionário, um camponês que
preservou todo o ódio servil contra seus mestres”, um ódio que acabaria
por virar-se até mesmo contra seus próprios camaradas, com seus berços e
educação aristocráticos.
Em abril de 1866, contando 18 anos, Nechayev troca Ivanovo por São
Petersburgo, onde leciona, por um tempo, em uma escola paroquial. No
outono de 1868 ele ingressa na universidade como aluno ouvinte, e
ingressou em um grupo de jovens revolucionários que incluía alguns
futuros anarquistas, como Z. K. Ralli[7], V. N. Cherkezov[8] e F. V.
Volkhovsky[9], bem como alguns quase anarquistas, ou socialistas
libertários, como Mark Natanson[10], German Lopatin[11] e L. B.
Goldenberg. Embora Nechayev ainda não soubesse francês, ele observava as
discussões acerca da historiografia de Buonarroti[12] sobre a
Conspiração dos Iguais de Babeuf[13], um livro que ajudou a moldar toda
uma geração de rebeldes russos, e seus sonhos foram logo dominados por
sociedades secretas e pela vida conspirativa. Ele se viu
irresistivelmente atraído pelo jacobinismo e pelo blanquismo, e quando,
mais tarde, visitara Ralli na Suíça, carregava livros de Rousseau e
Robespierre, e suas tendências autoritárias, sua pretensão de conhecedor
da “vontade geral” e de “forçar o povo a ser livre”, já estavam bem
desenvolvidas.
Nechaev foi também atraído pela tradição jacobina interna ao próprio
movimento revolucionário russo, uma tradição que volta até o líder
dezembrista Pestel[14], na década de 1820, e a Nikolay Pleshcheyev[15]
na década de 1840, que enfatizava a necessidade de táticas
conspiratórias e uma ditadura revolucionária baseada, em seus termos, no
modelo “jesuíta”. Uma sugestão que levou o fourierista Mikhail
Petrashevsky[16] a declarar: “Eu seria o primeiro a erguer minha mão
contra o ditador”. Em 1862, quatro anos antes da chegada de Nechayev a
São Petersburgo, um folheto clandestino chamado “Jovem Rússia” foi
publicado por Peter Zaichnevsky, uma liderança jacobinista russa que foi
influenciada por Robbespierre e Babeuf, e por Mazzini e pela Carbonari
italiana (o título de seu panfleto foi derivado do Jovem Itália) com
seus métodos de conspiração revolucionária. Seu objetivo final, contudo,
era inspirado no socialismo descentralizado de Proudhon, e quando a
polícia o prendeu, encontraram uma tradução russa inacabada do O Que é a
Propriedade?[17] entre seus papeis.
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-4.jpg 30][Pavel Ivanovich Pestel (Павел Иванович Пестель), 1793-1826]]
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-3.jpg 30][Aleksey Nikolayevich Pleshcheyev (Алексе́й Никола́евич Плеще́ев), 1825-1893]]
No Jovem Rússia Zaichnevsky clamava por uma “sangrenta e implacável”
revolução, nos modelos de Razin[18] e Pugachev[19], e pela aniquilação
inclemente da família tzarista e de seus apoiadores: “Clamaremos ‘ante
seus machados’ e então iremos atacar o partido imperial sem poupar
nossos golpes, assim como eles não poupam os seus contra nós.
Destrui-los-emos nas praças, se a porcada covarde ousar lá ir.
Destrui-los-emos em vossas casas, nas estreitas ruas das cidades, nas
grandes avenidas da capital e nos vilarejos. Lembrem-se disso, quando
isso acontecer, qualquer um que não estiver conosco está contra nós, um
inimigo, e de que qualquer método é utilizado à destruição de um
inimigo”.
Herzen[20] repeliu o folheto por seu imoralismo cruel e cru, e até mesmo
Bakunin condenara seu autor por seu “louco e verdadeiramente doutrinário
escárnio pelo povo”, ainda assim Jovem Rússia exerceu uma poderosa
influência entre a jovem geração de Nechayev, os “homens da década de
60”, que eram inspirados por esta retórica desafiadora e
descompromissada.
Outra fonte de inspiração foi o personagem Rakhmetov do romance de
Chernyshevsky Que fazer?[21], que foi publicado em 1864. Rakhmetov era
um prótipo literário do novo revolucionário, um homem possesso e vivendo
uma vida puramente ascética, sujeitando a si mesmo a intensas privações
físicas em preparação ao seu papel revolucionário. Para empedernir-se,
come carne crua e dorme em uma cama de pregos. Ele não tem vida pessoal,
não tem esposa, não tem amigos, nenhum laço familiar que possa desviá-lo
de seu propósito. Ele adota uma maneira de conversar e comportamento
deliberadamente bruscos, ambos para excluí-lo da sociedade convencional
e para evitar perdas de tempo em palavras vazias e formalidades. Ele usa
seu dinheiro não para necessidades pessoais, mas para ajudar estudantes
pobres e a causa revolucionária.
A figura de Rakhmetov agarrou a imaginação de jovens revolucionários por
décadas (em 1892 Alexander Berkman[22] usou “Rakhmetov” como codinome
quando atirou em Henry Clay Frick[23]). Durante meados de 1860 Rakhmetov
serviu como um modelo para o Círculo Ishutin, cujos membros (incluindo o
futuro camarada de Kropotkin, Varlaam Cherkezov, e Dmitri Karakozov,
cujo atentado ao Tzar em 1866 foi saudado por Nechayev como “o princípio
de nossa sagrada causa”) renunciaram todos os prazeres pessoais e
seguiram vidas rigorosamente ascéticas, dormindo no chão, dando todo seu
dinheiro à causa, e devotando todas as energias à libertação do povo.
Eles também demonstravam um forte viés anti-intelectualsita, desprezavam
a universidade por treinar “generais da cultura” ao invés de ajudantes
dos trabalhadores e dos camponeses. Alguns até abandonaram seus estudos
e organizaram cooperativas. Como um membro lembra, “as massas não eram
escoladas; portanto nós não temos direito a uma educação. Você não
precisa de muito aprendizado para explicar às pessoas que elas estão
sendo trapaceadas e roubadas”. Como Zaichnevsky, eles rejeitavam
reformas ou paliativos, e desprezavam a velha geração de radicais, os
“homens da década de quarenta”, exemplificados por Herzen e seu círculo,
como homens impotentes que, por toda sua erudição e frases
revolucionárias, eram incapazes de romper com a velha ordem ou com suas
próprias raízes aristocráticas. Eles clamavam, novamente como
Zaichnevsky, pelo extermínio da família tzarista, com vistas a
desencadear uma sublevação social, uma revolta à la Pugachev que
transformaria a ordem existente em pó.
Para levar a cabo esta tarefa, um pequeno grupo chamado Inferno foi
organizado dentro do Círculo de Ishutin, uma estrutura ascética de
terroristas envolta em sigilo e levando uma existência anônima e
subterrânea. Todo membro do Inferno considerava-se um homem amaldiçoado,
excluído da sociedade normal e integralmente dedicado à revolução. Ele
deve desistir de seus amigos, de sua família, de sua vida pessoal, até
mesmo de seu nome, em total autonegação em prol da causa. Nas palavras
de Ishutin (mais tarde ecoadas por Nechayev), ele deve “viver com um
único e exclusivo objetivo”, a emancipação das classes baixas. Para
alcançar este fim todos os meios são permitidos, incluindo roubar,
chantagear, até mesmo assassinar, sem mencionar fraude, enganar,
denunciar pessoas inocentes, ou infiltrar-se em organizações secretas
rivais para ganhar controle sobre elas – tudo sob estrita disciplina
revolucionária, que, se violada, tinha como penalidade a morte. Um
membro até cogitou envenenar o próprio pai para dar a herança à causa; e
planos eram feitos para furtos – mais tarde chamados de “expropriações”
– em estabelecimentos comerciais e governamentais. O principal objetivo,
todavia, era o assassinato do Tzar e de seus oficiais. Uma vez executada
a ação, o terrorista deve levar a cabo o maior gesto de autoaniquilação,
comprimindo uma pastilha de fulminato de mercúrio entre os dentes -
Berkman tentou fazê-lo após seu atentado a Frick – para que a polícia
nunca descubra sua verdadeira identidade. Ishutin[24], que era inspirado
pelo atentado de Orsini[25] a Napoleão III, espalhara que o Inferno era
apenas a sessão russa de uma organização revolucionária espalhada por
toda a Europa, cujo propósito era o de eliminar monarcas em todos os
cantos. Sendo o pioneiro de uma técnica de mistificação que Nechayev
desenvolveria em fina arte.
Ainda resta um elo na corrente do jacobinismo russo, corrente que
estendeu-se de Pestel a Lênin, este elo era Pyotr Tkachev[26], que
sustentava que uma revolução bem-sucedida poderia ser trazida à tona
apenas por uma bem alinhavada elite que “deve ter poder moral e
intelectual sobre a maioria” e cuja organização demandava
“centralização, severa disciplina, velocidade, poder de decisão, e
controle das atividades”. Zaichnevsky, é válido notar, tornou-se um dos
mais firmes apoiadores de Tkachev, permanecendo fiel a seus princípios
jacobinos até o fim de sua vida; e em 1869 Nechayev colaborou com
Tkachev na redação de Um Programa da Ação Revolucionária que clamava por
uma organização de “protótipos revolucionários” que operariam, como o
Círculo de Ishutin, de acordo com o princípio de que o fim
revolucionário justifica todos e quaisquer meios. “Aqueles que ingressam
na organização”, escreveram, “devem desistir de toda posse, ocupação ou
laço familiar, pois famílias e ocupações podem distrair os membros de
suas atividades”. Novamente como Ishutin, eles visionavam uma união de
todas as organizações revolucionárias, com centro no oeste, e é, talvez,
com isso em mente que Nechayev vai à Suíça em 1896, quando encontra,
pela primeira vez, Mikhail Bakunin.
[6] 1849-1919. Revolucionária com origem em uma família nobre falida.
Mais tarde aproximou-se do marxismo.
[7] 1848-1933. Participou da AIT, simpático a conspirações niilistas e
narodnik.
[8] 1846-1925. Nascido em família nobre e um dos terrotórios do Império
Russo, envolveu-se com o movimento anarquista e, mais tarde, com o
movimento de libertação nacional.
[9] 1846-1914. Envolveu-se no movimento radical estudantil de São
Petersburgo, teve importante papel no contato entre os movimentos russos
e os da Europa ocidental.
[10] 1850-1919. Russo de origem judia, foi um dos fundadores do Círculo
de Tchaikovsky
[11] 1845-1918. Filho da aristocracia, estudava física em São
Petersburgo.
[12] 1761-1837. Socialista italiano radicado na França.
[13] Conspiration pour l’Egalité dite de Babeuf, suivie du procès auquel
elle donna lieu. Publicada originalmente em 1828
[14] 1793-1826.
[15] 1825-1893. Poeta radical russo.
[16] 1821-1866. Pensador russo, fundador do círculo Petrashevsky.
[17] Publicado no Brasil pela editora L&PM em 2015
[18] 1630-1671. Liderança cossaca, liderou uma grande sublevação contra
a nobreza e a burocracia tzarista
[19] 1742-1775. De origem nobre, também articulou uma insurreição
cossaca durante o reinado de Yekaterina II.
[20] 1812-1870. Considerado pai do socialismo russo.
[21] No original Что делать?. No brasil, publicado em 2015 pela editora
Prismas.
[22] 1870-1936. Cumpriu quatorze anos de pena pela tentativa de
assassinato.
[23] 1849-1919. Empresário Americano.
[24] 1840-1879. Um dos primeiros socialistas utópicos russos, endossava
práticas terroristas.
[25] 1819-1858 Um dos líderes do movimento Carbonari. Em 14 de Janeiro
de 1858 tentou o assassinato de Napoleão III.
[26] 1844-1886. Escritor russo, formulador de muitos dos princípios
revolucionários populares nos movimentos russos.
** II – O Catecismo do Revolucionário
Antes de deixar a Rússia, Nechayev começou sua carreira de mistificação
e mentira. Em março de 1869 Vera Zasulich recebeu uma carta anônima com
as seguintes palavras: “Andando hoje na Ilha de Vasilevsky, Vi uma
carruagem carregando prisioneiros. Uma mão saiu pela janela e jogou um
bilhete. Ao mesmo tempo ouvi as seguintes palavras: ‘se você é um
estudante, entregue este ao endereço indicado’. Eu sou um estudante e
considero meu dever atender ao pedido. Destrua minha carta”. O bilhete
que acompanhava a carta, com a caligrafia de Nechayev, informava seus
amigos que ele havia sido preso e estava sendo levado à fortaleza de
Pedro e Paulo. Logo após isso, um rumor circulara de que ele havia
escapado da fortaleza – um feito sem precedentes – e estava a caminho do
oeste. Na verdade não houve fuga, nem mesmo encarceramento. Tudo isso
foi uma fabricação, a primeira de toda uma série de fugas inventadas por
Nechayev para construir a si mesmo como herói, para cercar-se de uma
aura de mistério e para autonomear-se ao papel de “protótipo
revolucionário” do seu Programa da Ação Revolucionária, escrito em
conjunto com Tkachev.
Nechayev cruzou a fronteira russa em 4 de março de 1869. Chegando a
Genebra, ele imediatamente comunicou-se com Bakunin, alegando-se
representante de uma poderosa organização revolucionária dentro do
império tzarista. Bakunin apaixonara-se de imediato por este “jovem
selvagem”, este “filhote de tigre”, como ele chamava Nechayev. “Tenho
aqui comigo”, escreveu ele a James Guillame em 13 de abril de 1869, “um
daqueles jovens fanáticos que não têm dúvidas, que nada temem… crentes
sem Deus, heróis sem retórica”. Ele viu em Nechayev o conspirador
revolucionário ideal, o arauto de uma nova geração cuja energia,
determinação e intransigência iriam derrubar a ordem imperial. A chegada
de Nechayev na Suíça, como observa E. H. Carr, deu ao envelhecido
Bakunin um novo sopro de vida, um renascimento da esperança
revolucionária e um ar de sua terra natal, que ele nunca mais veria.
Para Bakunin, como coloca o professor Confino, “Nechayev era a juventude
russa, a Rússia revolucionária, a Rússia enquanto tal”.
Durante a primavera e o verão de 1869, Bakunin e Nechayev produziram uma
série de panfletos e manifestos, clamando por uma sublevação social na
Rússia. Em Algumas Palavras aos Nossos Jovens Irmãos na Rússia[27],
Bakunin exorta a juventude revolucionária a “ir ao povo” com uma
mensagem de rebelião, para animá-los a uma luta de vida-ou-morte contra
o estado e as classes privilegiadas, seguindo o modelo estabelecido por
Stenka Razin, dois séculos antes. “Jovens com instrução não devem
tornar-se os benfeitores do povo, nem seus ditadores, nem seus guias,
mas apenas a alavanca para que o povo liberte a si mesmo, os
unificadores das energias e forças do próprio povo”, Bakunin declarou.
“Tomem ciência do conhecimento, em nome de quem os homens tentam
algemar-vos e despossuí-vos de vosso poder. Conhecimento deste tipo deve
morrer juntamente com este mundo do qual ele é uma expressão”.
Uma proclamação similar Aos Estudantes da Universidade, da Academia e do
Instituto Técnico foi rascunhada por Nechayev, e uma outra chamada
Estudantes Russos por N. Ogarev, pessoa próxima de Herzen e Bakunin. O
restante – Como a Questão Revolucionária Apresenta-se; Princípios da
Revolução; e Publicações da Sociedade da “Justiça do Povo”, No 1
(consistindo de dois artigos datados do verão de 1869) – eram todos
anônimos e sua autoria não foi conclusivamente determinada. Enaltecendo
destruição indiscriminada em nome da revolução, pregavam a justificativa
de todos os meios à finalidade revolucionária. Como a Revolução se
Apresenta é notável por seu elogio ao banditismo em termos
distintivamente bakuninistas: “o assaltante na Rússia é o único
verdadeiro revolucionário – o revolucionário sem fraseologia, sem
retórica livresca, o irreconciliável, infatigável, indomável
revolucionário da ação… aproximam-se os aniversários de Stenka Razin e
Pugachev; preparemo-nos para a festa”.
A autoria dos Princípios da Revolução (que parece ser obra de Nechayev)
é especialmente importante, por sua forte semelhança estilística com o
Catecismo do Revolucionário: “Não reconhecemos nenhuma outra atividade
que não a obra da exterminação, mas admitimos que as formas que esta
atividade assumirá serão extremamente variadas – veneno, faca, corda,
etc. Nessa luta, a revolução santifica todas igualmente”. A Justiça do
Povo No 1, com seu apelo à rebelião campesina à la Razin e Pugachev e o
criticismo aos “professores não-requisitados” do povo, cujos
ensinamentos destituíram as massas de sua “essência popular”,
aproxima-se das marcas tanto de Bakunin quanto de Nechayev, embora seu
apelo ao exemplo de Ishutin soe mais como o “jovem selvagem”: “Ishutin
tomou a iniciativa; agora é nossa vez de começar, antes que suas pegadas
se apaguem”. O professor Confino, infelizmente, nada diz sobre a autoria
destas proclamações anônimas, espera-se que Arthur Lehning lance luz
sobre a questão em sua próxima obra sobre 1869[28].
Foi durante este período entre abril e agosto de 1869 que o notório
Catecismo do Revolucionário foi escrito, objeto de acaloradas
controvérsias e discussões desde então. Prenunciado por documentos
anteriores do movimento revolucionário europeu, esta obra expressa
ideias e sentimentos que já haviam sido propostos por Zaichnevsky e
Ishutin na Rússia e pelas Carbonari e Jovem Itália no oeste. Ainda
assim, levando ao definitivo extremo a crueldade e a imoralidade de seus
predecessores, esta se constituiu na declaração máxima de um credo
revolucionário, que tem ocupado um lugar proeminente na história
revolucionária por mais de um século. No Catecismo o revolucionário é
retratado como um completo imoralista, comprometido a cometer qualquer
crime, qualquer perfídia, qualquer baixeza ou fraude para realizar a
destruição da ordem existente. Por causa disso, Nicolas Walter denunciou
a obra como “um revoltante, antes de revolucionário, documento”, a
expressão do “revolucionismo puro, total, fanático, destrutivo, niilista
e autoderrotado”.
O Catecismo é dividido em duas partes: I) Regras Gerais da Organização,
consistindo de 22 parágrafos enumerados, e II) Regras de Conduta dos
Revolucionários, com 26 parágrafos sob três subtítulos: A atitude do
revolucionário acerca de si mesmo; A atitude do revolucionário acerca de
seus camaradas revolucionários; e A atitude do revolucionário acerca da
sociedade. A parte II, que é a mais famosa, foi amplamente publicada em
vários idiomas e edições, enquanto a parte I, até onde sei, nunca foi
traduzida para o Inglês, mas é incluída uma versão francesa integral no
livro de Confino listado na nota bibliográfica[29]. A versão original do
Catecismo, escrita criptografada com caracteres latinos, retornou com
Nechayev à Russia em agosto de 1869. O original foi encontrado pela
polícia durante uma batida policial entre os seguidores de Nechayev e
foi usado contra eles em julgamento. O manuscrito original, que foi
primeiramente publicado in Pravitel’ stvennyi Vestnik (arauto do
governo) em julho 1871, perdeu-se em um incêndio no ministério da
justiça em 1917; mas o texto foi reimpresso em 1924 no jornal Bor’ ba
Klassov (luta de classes) a partir de uma cópia encontrada nos arquivos
da polícia secreta tzarista.
A parte II do Catecismo foi publicada em francês por marxistas em 1873,
durante sua campanha contra Bakunin na Primeira Internacional. A
primeira tradução em inglês foi publicada em 1939 no Apóstolos da
Revolução de Max Nomad, e uma outra apareceu em 1957 no Os Terroristas
de Robert Payne (reimpresso em 1967 numa versão expandida do livro
chamado A Fortaleza). Há extensivos excertos na obra Raízes da Revolução
de Franco Venturi; e entre 1969 e 1971 ao menos três edições apareceram
em formato de panfleto, a primeira produzida pelo partido dos Panteras
Negras em Berkeley, California, com uma introdução de Eldridge Cleaver,
a segunda pela Kropotkin Lighthouse Publicações em Londres, com um
prefácio de Nicolas Walter (ambas reproduzindo a tradução de Nomad), e
uma nova tradução como Red Pamphlet No 1 com um prefácio anônimo e sem
local de publicação indicado.
“O revolucionário é um homem amaldiçoado”, começa a parte II do
Catecismo em linguagem que faz lembrar Ishutin. “Ele não tem interesses
pessoais, não tem relações, não tem sentimentos, não tem laços, não tem
propriedade, nem mesmo um nome próprio. Tudo nele é absorvido por um
interesse exclusivo, um pensamento, uma paixão – a revolução” (Paragrafo
I). Ele estuda química e outras ciências naturais com o propósito de
destruir seus inimigos (Parágrafo III). Ele rompeu todas as conexões com
a ordem social, com o mundo da educação e da moralidade convencional. “A
ele qualquer coisa que ajude no triunfo da revolução é ético; tudo que
dificulte este triunfo é antiético e criminoso” (Parágrafo IV). “Toda
ternura, sentimentos brandos como parentesco, amizade, amor, gratidão e
até mesmo honra devem ser ceifadas dele pela paixão fria e única da
causa revolucionária. A ele há apenas uma satisfação, consolação e
deleite – o sucesso da revolução. Dia e noite ele deve ter apenas um
pensamento, um objetivo – destruição inexorável. Esforçando-se fria e
resolutamente rumo a este objetivo, ele deve estar preparado para
destruir-se e destruir com as próprias mão tudo que dificulte esta
realização” (Parágrafo VI). A organização revolucionária deve organizar
uma lista de pessoas a serem exterminadas (Parágrafo XV), e “devem ser
destruídos aqueles homens particularmente nocivos à organização
revolucionária” (Parágrafo XVI). O revolucionário deve armar-lhes cilada
com dinheiro ou influência e “transformá-los em escravos” (Parágrafo
XVIII). Quanto aos liberais, “o revolucionário deve apossar-se deles,
apossar-se de todos os seus segredos, comprometê-los ao máximo, até que
nenhuma escapatória lhes reste” (Parágrafo XIX). Os parágrafos finais
repetem a mensagem incendiária de Algumas Palavras aos Nossos Jovens
Irmãos na Rússia, Como a Questão Revolucionária Apresenta-se e
Princípios da Revolução: “nosso negócio é destruição, terrível,
completa, universal e ímpia” (Parágrafo XXIV). “Deixe-nos juntar mão com
o ousado mundo dos bandidos – os unicamente genuínos revolucionários da
Rússia” (Parágrafo XXV).
A autoria do Catecismo tem sido objeto de prolongada e amarga disputa.
Na ausência de evidência conclusiva, pesquisadores hostis ao anarquismo
têm usualmente atribuído esta autoria a Bakunin, enquanto outros a têm
atribuído a Nechayev, e ainda outros a ambos como um produto de
colaboração durante 1869. Embora a edição da Kropotkin Lighthouse dê
Nechayev como o autor, enquanto tanto as edições dos Panteras Negras
quanto as do Red Pamphlet apresentem Bakunin, o editor anônimo da última
insiste que “o mito de que Nechayev tenha escrito este texto foi
inventado por pequeno-burgueses pseudo‘anarquistas’ revisionistas de
Bakunin”. Proeminentes pesquisadores como Max Nettlau, E. H. Carr e
Franco Venturi, no ocidente, e B. P. Kozmin na União Soviética, têm
atribuído o Catecismo a Bakunin, assim como os colegas do próprio
Bakunin Z. K. Ralli e Michael Sazhin (“Armand Ross”), que afirmam ter
visto uma cópia do manuscrito com a caligrafia de Bakunin. Alguns,
incluindo Carr, têm argumentado que o Catecismo carrega ecos do estilo
de Bakunin e que catecismo era uma das formas favoritas de composição
para Bakunin (ele havia publicado o Catecismo Revolucionário[30] em
1866). Por outro lado, o catecismo, enquanto formato literário, era
amplamente usado por revolucionários, tanto na Rússia quanto no ocidente
através do século XIX. Além disso, o professor Confino sustenta que uma
comparação entre O Catecismo do Revolucionário com o anterior Catecismo
Revolucionário mostra que eles são “radicalmente díspares” em estilo e
terminologia. Tanto em estilo quanto em conteúdo, ainda, o anterior
aparenta ter emergido do meio social do revolucionismo estudantil da
Rússia durante a década de 1860 – um meio social no qual Bakunin,
diferente de Nechayev, teve um papel – mais que de uma geração antiga de
exilados na Suíça.
Uma importante nova evidência sobre a questão está contida em uma carta
de Bakunin a Nechayev de 2 a 9 de junho de 1870[31], localizada nos
arquivos de Natalie Herzen da Bibliothèque Nationale de Paris, e
publicada primeiramente por Confino em 1966 no Cahers du Monde Russe et
Soviétique. Esta é a mais extensa e mais interessante carta que Bakunin
já escrevera, demandando oito dias para redigi-la e preenchendo mais de
trinta páginas de texto pouco espaçado. Ela constitui a peça central
tanto da obra de Lehning, quanto da Obra de Confino, e teremos mais a
dizer sobre ela mais tarde. Nela, Bakunin especificamente repudia o que
ele chama de “vosso catecismo”, juntamente com todo o “sistema jesuíta”
de Nechayev. Com base nessa declaração, o Catecismo deve ser atribuído a
Nechayev, embora não seja, de forma alguma, certo que Bakunin não teve
participação em sua composição ou revisão. Como este foi escrito em um
período de íntima colaboração entre os dois, e mesmo que o fardo da
autoria seja de fato de Nechayev, Bakunin, ainda assim, pode ter ajudado
com a escrita ou a edição. Isso, de fato, explicaria a ocasional
fraseologia bakuninista bem como a alegada existência de uma cópia na
caligrafia de Bakunin. A carta de Bakunin a Nechayev de 2 de Junho de
1870 admite que ele estava familiarizado com o texto durante seu período
de composição – um tempo em que ele esteve extremamente suscetível à
influência de Nechayev – e, significativamente, ele não levantou nenhum
protesto, que se saiba, contra o texto até sua ruptura com Nechayev, um
ano depois.
[27] Disponível em:
arquivobakunin.blogspot.com.br/2010/11/algumas-palavras-aos-meus-jovens-irmaos.html
[28] Publicado em francês pela editora E. J . Brill em 1972: Michel
Bakounine et ses rélations avec Serjej Necaev.
[29] O editor não encontrou a parte I em português, a parte II está
disponível em:
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/04/253458.shtml
[30] Esta obra foi publicada no Brasil pela Editora Imaginário (2009).
[31] Reproduzida como apêndice na presente edição.
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-9.jpg 50][Capa da edição espanhola d’O Catecismo do Revolucionário. Editora La Felguera, 2014]]
** III – O Caso Ivanov
Antes de Nechayev retornar à Rússia com o manuscrito do Catecismo, ele
já tinha começado a aplicar suas premissas. Tendo já enganado seus
camaradas revolucionários com a falsa história de sua prisão e fuga, ele
agora enviava cartas incriminatórias e literatura revolucionária a seus
conhecidos mais moderados na Rússia, com vistas a comprometê-los ante as
autoridades e, em acordo com os parágrafos XVIII e XIX do Catecismo,
para envolvê-los mais profundamente na atividade radical. Entre março e
agosto de 1869, não menos que 560 itens, envolvendo 387 pessoas, foram
interceptados só em São Petersburgo. Seguindo o mesmo princípio,
Nechayev iria, mais tarde, roubar cartas privadas e documentos de
Bakunin e de seu círculo, com vistas a exercer pressão sobre eles, e
iria até mesmo assassinar, na finalidade de unir seus cúmplices em torno
de sua vontade. Tudo isso era parte de um sistema de total desprezo pela
decência e pela honestidade, que ficou legado na história revolucionária
sob o nome de “nechayevismo”.
Nesse interim, Bakunin enveredou-se em um pouco de mistificação à sua
maneira. Em maio de 1869, endereçara a Nechayev um certificado
designando-o como “um dos representantes autorizados da sessão russa da
Aliança Mundial Revolucionária, No. 2771”. Assinada por Bakunin, trazia
o selo da “Aliança Europeia Revolucionária, Comitê Central”, uma simples
invenção – similar àquelas já utilizadas por Ishutin e Nechayev –
destinada a criar a impressão de uma rede de revolucionários em escala
global.
“Assim, Nechayev, um suposto representante de um provavelmente
inexistente comitê revolucionário russo, recebera de Bakunin autoridade
para agir na Rússia como representante de uma inexistente Aliança
Europeia Revolucionária”,
E. H. Carr comenta ironicamente. “Esta foi uma deleitosa situação que
tem poucos paralelos, seja na história, ou na comédia”. Para ampliar o
prestígio de Nechayev, Bakunin persuade Ogarev a dedicar um poema,
escrito a um estudante que morrera como mártir na Sibéria, a este “jovem
amigo Nechayev”. O poema foi impresso em folheto, e, no outuno de 1869,
circulara pela Rússia, onde ajudara a construir a lenda de Nechayev.
Nos fins de agosto de 1869 Nechayev retorna à Rússia, munido do poema,
do Catecismo e das bênçãos de Bakunin e Ogarev. Chegando em Moscou ele
empenha-se na organização de uma sociedade revolucionária chamada
Justiça do Povo – o mesmo nome da brochura publicada em Genebra – nas
linhas prescritas pelo Catecismo. Esta era uma associação secreta,
disciplinadamente organizada, em grupos de “quinas revolucionárias”[32]
(como na Inferno de Ishution e na primeira organização por Terra e
Liberdade da década de 1860, também semelhante às organizações secretas
espalhadas pela Europa ocidental), com cada membro devendo absoluta
obediência ao líder, que, por sua vez, recebia as ordens do comitê
central. Seu principal objetivo era engatilhar uma sublevação social em
19 de fevereiro de 1870, o nono aniversário da emancipação dos servos, e
seu selo oficial era um machado com as palavras “Comitê da Justiça do
Povo, de 19 de Fevereiro de 1870”. A organização era dominada pela
pessoa de Nechayev, que, como todas as fontes concordam, demandava
completa e inquestionável obediência de seus camaradas, a quem ele
endereçava ordens em nome de um comitê central inexistente. Nechayev
colocava membros para espionar uns aos outros e encorajava-os a
extorquir e chantagear como meio de obtenção de dinheiro em prol da
causa.
Tais métodos, aparentemente, provaram-se demasiado repugnantes a um dos
aptos membros da organização, um estudante da Academia de Agricultura de
Petrovsk, com o improvável nome de Ivan Ivanovisch Ivanov. Ivanov parece
ter sido um honrado e inteligente membro no círculo de sua Academia,
atuando ativamente em cooperativas estudantis, investindo tempo
ensinando crianças camponesas; e exercera considerável influência entre
seus camaradas revolucionários. Em certo momento, ele evidentemente
objetou algumas das ordens de Nechayev, questionou a existência do
comitê central em nome do qual Nechayev alegava falar, e é possível que
tenha até ameaçado formar um novo grupo revolucionário em linhas mais
democráticas, algo que dificilmente Nechayev toleraria. Com tudo isso,
Nechayev investira-se em convencer alguns de seus seguidores de que
Ivanov estava planejando delatá-los, e que, de acordo com o parágrafo
XVI do Catecismo (“devem ser destruídos aqueles homens particularmente
nocivos à organização revolucionária”), era necessário fazê-lo
desaparecer.
Na noite de 21 de Novembro de 1869, Ivanov foi atraído até uma gruta do
parque da Academia de Agricultura sob o pretexto de desenterrar uma obra
impressa clandestinamente. Lá ele foi atacado e espancado por Nechayev e
quatro cúmplices. Nechayev tentou estrangulá-lo, mas foi severamente
mordido na mão, quando então sacou uma pistola e atirou na cabeça de
Ivanov. Aumentaram o peso do corpo com pedras e jogaram-no em um buraco
no gelo de um lago próximo. Dessa forma Nechayev removera um potencial
adversário, enquanto, a um só tempo, incriminava seus camaradas, de modo
a assegurar a obediência deles à sua autoridade. Este foi um exemplo
extremo de sua técnica para ganhar submissão por meio do envolvimento de
camaradas em crimes. Sua vítima, contudo, não era um agente da
autocracia, mas um deles próprios, que despertara o antagonismo do
líder.
O assassinato de Ivanov criou uma grande comoção. Dostoiévski usou o
incidente como enredo para seu romance Os Demônios[33], com Verkhovensky
representando Nechayev e Shatov sendo Ivanov. A descoberta do corpo de
Ivanov, quatro dias depois, levou à prisão de uma soma de 300
revolucionários e, por fim, ao julgamento de 84 nechayevistas no verão
de 1871. Um dos condenados foi o genro de Peter Lavrov, Mikhail
Negreskul, que havia, previamente, se oposto às táticas de Nechayev em
São Petersburgo, e que estava entre aqueles que Nechayev buscara
comprometer com o envio de proclamações revolucionárias, remetidas da
Suíça. Negreskul foi encarcerado na fortaleza de Pedro e Paulo, adoecera
pela extenuação e, por fim, morreu sob prisão domiciliar em fevereiro de
1870. Nechayev, enquanto isso, havia ido de Moscou para São Peterburgo,
onde obteve um passaporte falso e, com êxito, cruza a fronteira em
dezembro de 1869, deixando seus camaradas para trás para pagar a conta.
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-7.jpg 35][Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Фёдор Миха́йлович Достое́вский), 1821-1881]]
[32] Grupos de cinco.
[33] Publicado no Brasil em 2004 (5ª edição de 2013) pela Editora 34. Em
algumas outras versões o título é traduzido como O Possuído.
** IV – A Ruptura
Em 12 de janeiro de 1870, Bakunin, que estava vivendo em Locarno, recebe
uma carta de Ogarev, anunciando que Nechayev chegara a Genebra. Bakunin
pulou de alegria tão entusiasmadamente que “quase quebra o teto de sua
velha cabeça”. Um breve período depois, Nechayev foi a Locarno e os dois
homens retomaram suas colaborações, publicando dois manifestos à nobreza
russa, o primeiro provavelmente escrito por Bakunin e o segundo por
Nechayev. Nechayev também publica o segundo número do Justiça do Povo
(datado do inverno de 1870), bem como seis publicações d’O Sino em abril
e maio de 1870.
Para financiar estas venturas, Nechayev usou dinheiro do tão falado
fundo Bakhmetiev, deixado a Alexander Herzen por um jovem nobre russo
que em 1858 viajou ao pacífico sul para fundar uma comunidade utópica.
Quando Herzen conheceu Nechayev em Genebra, 1869, ele, instintivamente,
não gostara de Nechayev. Mas, sob pressão de Bakunin e Ogarev, ele
renunciou a metade deste fundo, boa parte dele foi passada a Nechayev,
que a usou para financiar suas atividades revolucionárias quando
retornou à Rússia. Quando Herzen morre, em Janeiro de 1870, Bakunin
insiste a Ogarev para que reivindique o saldo do fundo à família de
Herzen. O filho de Herzen cedera e, de Ogarev, quase todo o dinheiro foi
para Nechayev, que se recusara a assinar um recibo, mas aceitara em nome
de seu não-existente comitê central.
Na mesma época, Bakunin estava tendo problemas financeiros próprios. Ela
havia aceitado uma incumbência de um editor russo chamado Poliakov para
traduzir Das Kapital[34], de Karl Marx, e havia recebido 300 rublos, mas
não pôde fazer qualquer avanço no projeto. Em 17 fevereiro de 1870,
Nechayev escrevera uma carta de ameaça a um estudante russo chamado
Liubavin, que havia agido como um intermediário entre Bakunin e
Poliakov, exigindo que Bakunin fosse deixado em paz e que fosse liberado
de todas as obrigações que estavam sobre ele. A carta, escrita em papel
do comitê central da Justiça do Povo e adornada com um machado, uma
adaga e uma pistola, foi, mais tarde, utilizada por Marx para
descredibilizar Bakunin e para expulsá-lo da Internacional.
Muito antes, todavia, as relações entre Bakunin e Nechayev começaram a
deteriorar-se. O racha que se seguiu, como Lehning e Confino mostram,
foi um dilema complicado envolvendo considerações psicológicas,
financeiras, políticas, morais e ideológicas. Durante sua segunda estada
na Suíça, a atitude de Nechayev sobre Bakunin não era a mesma que a de
um ano antes. Segundo Ralli, ele não mostrava qualquer respeito a seu
mentor. Ao contrário, ele demandava que o percebessem como a única
pessoa com uma organização revolucionária séria. Ele tratava com Bakunin
de maneira cada vez mais ríspida, até mesmo negando a ele dinheiro do
fundo Bakhmetiev para o custeio de despesas diárias. Ele reclamara a
Sazhin que Bakunin não tinha mais “o nível de energia e abnegação”
requisitados de um verdadeiro revolucionário, um reflexo de um conflito
de gerações – de filhos contra pais, de “homens da década de 1860”
contra os “homens da década de 1840” – dentro do movimento popular. Ele
começou, de fato, a tratar Bakunin como o Catecismo dizia que liberais
deviam ser tratados após ter-se conseguido deles extrair tudo que se
podia. Ele buscou impor a Bakunin e seus amigos seus métodos
autoritários próprios, chegando ao ponto de roubar deles documentos
pessoais, com vistas a chantageá-los e manipulá-los no futuro (“o
revolucionário deve apossar-se deles, apossar-se de todos os seus
segredos, comprometê-los ao máximo, até que nenhuma escapatória lhes
reste” – Parágrafo XIX do Catecismo).
A desilusão de Bakunin foi arrasadora. Seu orgulho sofrera
sensivelmente, por seu afeto pelo “Garoto”. “Se você introduzi-lo a um
amigo, ele buscará imediatamente semear a discórdia, a difamação e a
intriga entre você e seu amigo, e colocá-los-á em desavença”, escrevera
Bakunin, “Se seu amigo tem uma esposa ou filha, ele tentará seduzi-la e
engravidá-la para desapossá-la da moralidade convencional e, assim,
mergulhá-la, contra vontade, no protesto revolucionário contra a
sociedade” (Tal comportamento foi precisamente o de Nechayev em relação
a Natalie Herzen, como descreve o diário dela). Enquanto isso, German
Lopatin havia chegado da Rússia e contava a verdade acerca do
assassinato de Ivanov, explicando que as cicatrizes no dedo de Nechayev
eram injúrias de sua vítima, expondo a ficção de Nechayev sobre seu
comitê central e sua vangloriada fuga da fortaleza.
O ápice da controvérsia veio com uma carta de Bakunin a Nechayev, de 2
de Junho de 1870, uma tradução inglesa dela (feita por Lydia Bott) foi
publicada na revista Encounter em julho e agosto de 1972, com nota
introdutória do Professor Confino. A carta não foi “descoberta” por
Confino, como a Encounter afirma, embora ele tenha sido, de fato, o
primeiro a publicá-la. Sua existência na Bibliothèque Nationale havia
sido notada anteriormente, e Arthur Lehning a havia examinado em 1962,
juntamente com outros documentos pertinentes do arquivo de Nataile
Herzen. Além do mais, a nota introdutória que está na Encounter, feita
por Confino, está equivocada ao dizer que esta é a única carta de
Bakunin a Nechayev ainda existente, uma vez que há uma pequena carta de
11 de Maio de 1870[35], publicada na obra de Lehning. Confino está,
ainda assim, correto ao chamar esta carta um dos mais extraordinários
documentos na história do movimento revolucionário do século XIX. Pois
esta não só joga luz sobra autoria do famoso Catecismo, mas também
esclarece as razões da ruptura de Bakunin com Nechayev; ajuda-nos a
entender as diferentes visões deles acerca de organizações secretas, e,
acima de tudo, ilumina a questão da ética revolucionária – da relação
entre meios e fins – que revolucionários de toda parte continuam a
enfrentar.
Bakunin, expressando desapontamento e quase insuportável humilhação,
escreve com grande impressão e força. Ele reclama a Nechayev de ter tido
“completa confiança em você, enquanto você enganou-me. Descobri-me um
completo tolo. Isso é doloroso e vergonhoso para um homem de minha
experiência e idade. Pior que isso, degradei minha situação no que diz
respeito às causas russas e internacionais”.
Sobre a questão da revolução, Bakunin rejeita firmemente o jacobinismo e
blanquismo de Nechayev – sua crença na tomada do poder por uma minoria
revolucionária e o estabelecimento de uma ditadura revolucionária –
clamando, em oposição, uma sublevação espontânea de massas feitas pelo
próprio povo:
“Estou profundamente convencido de que qualquer outra revolução é
desonesta, danosa e significa morte à liberdade e ao povo”.
Qual o papel de uma organização revolucionária? A concepção de Nechayev
é falsa, preparando os novos “exploradores do povo”, matando “todo
sentimento e honestidade pessoais” e “educando-os a mentir, suspeitar,
espionar e denunciar”. Uma verdadeira organização revolucionária, diz
Bakunin,
“não compele o povo a quaisquer novas regulações, ordens, estilos de
vida, mas simplesmente liberta suas vontades e dá-lhes amplo escopo à
sua autodeterminação, e à sua organização econômica e social, que deve
ser criada por eles mesmos e por baixo, não por cima”.
A organização revolucionária deve
“fazer impossível, após a vitória popular, o estabelecimento de qualquer
poder estatal sobre o povo – mesmo o mais revolucionário, mesmo o seu
poder – porque qualquer poder, seja lá como se chame, irá
inevitavelmente sujeitar o povo à velha escravidão sob nova forma”.
“Amo-o profundamente, e continuo a amar”, escreve Bakunin, mas você deve
rejeitar seu “falso sistema jesuíta”, seu “sistema de enganação, que
está crescentemente tornando-se seu único sistema, sua maior arma e
meio, [e][36] isso é fatal à própria causa”.
Este foi o apelo de Bakunin a seu teimoso discípulo. Ainda assim, sua
rejeição ao “nechayevismo” estava longe de completa. Apesar de toda sua
desilusão, sua atitude acerca de Nechayev permanecia ambivalente.
Nechayev, a seus olhos, ainda era um devotado revolucionário, que agia,
enquanto outros apenas falavam; e cuja energia, perseverança,
autenticidade e força-de-vontade ainda exerciam um enorme atração nele.
“Você é um homem ardente e dedicado”, escreve Bakunin a Nechayev. “Isso
é sua força, seu valor, e sua justificação”. Se você alterar seus
métodos, ele acrescenta, “Desejo não somente permanecer aliado a você,
mas fazer nossa ligação ainda mais próxima e firme”. Bakunin enviara uma
mensagem similar a Ogarev e seus associados:
“A principal coisa no momento é salvar nosso errante e confuso amigo.
Apesar de tudo, ele permanece um homem valioso, e existem poucos homens
valiosos no mundo… nós o amamos, acreditamos nele, prevemos que sua
atividade futura será de imenso benefício ao povo. É por isso que temos
de afastá-lo de seu falso e desastroso caminho”.
Portanto, apesar de todo seu orgulho ferido, apesar de toda sua
desaprovação das práticas e princípios de Nechayev, o afeto de Bakunin
por seu “filhote de tigre” era tão forte que ele era incapaz de romper
definitivamente com ele – não obstante as mentiras e humilhações, a
desenfreada imoralidade do Catecismo e até mesmo o assassinato de
Ivanov. Então, também, ainda permaneciam muitas bases comuns entre eles.
O programa de ambos, admitia Bakunin, era “verdadeiramente idêntico”.
Apenas mais tarde, quando Nechayev começou a empregar seus métodos
tortuosos contra o próprio Bakunin, que ele expressara seu asco contra
eles.
Bakunin, não menos que Nechayev, tinha uma paixão por conspirações e
organizações secretas. Apesar de todos os seus ataques a ditaduras
revolucionárias, ele era, ele próprio, um incansável advogado de uma
associação revolucionária fechada, unida por tácita obediência a um
líder revolucionário. Os admiradores não-críticos de Bakunin são pouco
convincentes quando sustentam que suas referências a “disciplina de
ferro” ou a uma “ditadura invisível” são isoladas e descaracterizadas;
seja voltando à época em que suas teorias anarquistas estavam plenamente
desenvolvidas, seja quando expressas enquanto ele estava sob a
perniciosa influência de Nechayev. Ao contrário, conspiração foi um fio
central em toda sua carreira revolucionária. Não por acaso ele tenha
celebrado Buonarroti como “o maior conspirador de sua época”.
Ao longo de sua vida adulta, da década de 1840 até a de 1870, Bakunin
buscou criar sociedades clandestinas à moda daquelas do ocidente. Em
1845 ele se tornou um Franco-maçon. E em 1848, clamava por uma
organização secreta de grupos de três a cinco homens, que estivessem
“sujeitos a estrita hierarquia e obediência incondicional a um controle
central”. Ele não abandonou este objetivo nos anos subsequentes. Durante
a década de 1860 ele fundou uma gama de sociedades secretas – a
fraternidade Florentina (1864), a fraternidade Internacional (1866), a
Aliança Internacional da Social Democracia (1868) – e elaborou
diretrizes para dirigir o comportamento de seus membros. A organização
deveria agir “como um pelotão a serviço de seu general”, trabalhando
“invisivelmente nas massas” e permanecendo intacta mesmo depois de
alcançada a revolução, de modo a prevenir o estabelecimento de qualquer
“ditadura oficial”. Esta organização deveria exercer, ela própria, uma
“ditadura coletiva”, uma ditadura “sem qualquer selo, título, direito
oficial, assim, a mais poderosa, pois carece da aparência do poder”.
Seus membros, declarou Bakunin, em linguagem que lembra a do Catecismo,
devem se submeter a uma “rígida disciplina”, que, se violada, deveria
ser considerada um “crime” punível na forma de “expulsão, combinada com
o recebimento da vendeta de todos os seus membros”. Em 1872 ele ainda
escrevia: “Nosso objetivo é a criação de uma poderosa, mas sempre
invisível, organização; que deve preparar a revolução e liderá-la”.
A mesma posição é manifestada em sua carta a Nechayev. A revolução
popular, ele repete, deve ser “liderada invisivelmente, não por uma
ditadura oficial, mas por ditaduras inominadas e coletivas, compostas
por aqueles em favor da total libertação do povo de toda a opressão,
firmemente unidos em uma sociedade secreta e sempre, e em qualquer
lugar, agindo em favor de um objetivo comum e em acordo com um programa
comum”. Ele chama esta organização revolucionária “o batalhão do
exército do povo” e adiciona, novamente na linguagem do Catecismo, que
esta organização deve ser composta por pessoas
“que são apaixonadas e obstinadamente devotas, que, tanto quanto
possível, tenham renunciado todos os interesses pessoais e que tenham
renunciado, definitivamente, à vida e à morte; a tudo que às pessoas é
atraente; a todos os confortos e deleites materiais; a toda a satisfação
de ambição, status e fama… Eles devem ser total e completamente
absorvidos por uma paixão, a libertação do povo”.
A organização, ademais, deve ter um comitê executivo e demanda rígida
disciplina de seus membros. Paradoxalmente, esta deve ser uma vanguarda
moralmente pura, embora em certos casos – aqui, novamente, temos a
linguagem do Catecismo – engaje-se em mentira e enganação, especialmente
contra grupos revolucionários rivais:
“Sociedades cujos objetivos são próximos aos nossos devem ser forçadas à
fusão com a nossa sociedade ou, ao menos, devem estar subordinada à
nossa sem conhecimento disso… Tudo isso não pode ser atingido apenas
propagando a verdade; artimanha, diplomacia, enganação, são métodos
jesuítas necessários; até mesmo enredamentos podem ser usados para este
propósito… Portanto, esta simples lei deve ser a base de nossa
atividade: verdade, honestidade e mutua confiança entre todos os Irmãos
e a qualquer homem que é possível de se tornar um Irmão – mentiras,
artimanhas, enredamento e, se necessário, violência aos inimigos”.
Os métodos de Bakunin, portanto, não estão tão longe dos de Nechayev. A
principal diferença é que Nechayev realmente aos colocou em prática –
incluindo chantagem e assassinato, dirigidas contra amigos e inimigos
indiscriminadamente – enquanto Bakunin limitou-se apenas a palavras ou a
certas mistificações relativamente inofensivas, como a aliança
revolucionária de proporções globais em nome da qual ele supostamente
falava.
[34] Título alemão original d’O Capital, a edição mais recente publicada
no Brasil é da editora Boitempo, Livro I publicado em 2013, Livro II
publicado em 2014. A editora espera publicar o Livro III da obra em
2016.
[35] Também no apêndice
[36] Colchete de Paul Avrich.
** V – Prisão
Após a ruptura em 1870, Bakunin e Nechayev nunca mais se viram. Nechayev
foi para Londres, onde publicou o jornal chamado Obshchina (A Comuna),
onde demandava de Bakunin e Ogarev o que sobrara do fundo Bakhmetiev.
Após visitar Paris, às vésperas da comuna, ele retorna a Londres, então
vai novamente à Suíça, onde leva uma existência precária no bojo do
antigo negócio de seu pai, pintura de letreiros, e onde fora abrigado,
por algum tempo, pelos discípulos italianos de Mazzini. O governo
tzarista, todavia, estava determinado a pegá-lo; gastou mais dinheiro e
esforço em sua caça que em qualquer outro revolucionário do século XIX.
Bakunin enviou a Nechayev um aviso de que as autoridades estavam no seu
encalço, mas Nechayev ignorou o aviso, convencido de que seu antigo
mentor estava apenas “tentando tirá-lo de Zurique”. Finalmente, em 14 de
agosto de 1872, foi delatado à polícia suíça por Adolf Stempkowski, um
antigo revolucionário polonês que havia se tornado espião russo. Pouco
depois disso ele foi extraditado à Rússia como um assassino comum,
apesar dos vigorosos protestos de seus companheiros expatriados
(inclusive Bakunin) de que ele era, na verdade, um refugiado político.
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-8.jpg 50][A Comuna, nº 1, setembro de 1870. Editado por Nechayev]]
Em 2 de novembro de 1872, Bakunin expressara sua simpatia por Nechayev
em uma memorável carta a Ogarev, que merece ser citada por extenso:
“Tenho profunda pena dele. Ninguem nunca fez a mim, e intencionalmente,
tanto mal quanto ele, mas tenho pena dele mesmo assim. Ele era um homem
de rara energia, e quando nos encontramos, queimava nele uma chama muito
ardente, muito pura, por nosso pobre e oprimido povo; nossa histórica e
corrente miséria nacional causava nele real sofrimento. Naquele tempo
seu comportamento externo era bastante desagradável, mas seu eu-interior
não era maculado. Foi seu autoritarismo e sua obstinação descontrolada
que, muito lamentavelmente e por meio da ignorância dele juntamente com
seu maquiavelianismo e métodos jesuítas, por fim, mergulharam-no
irremediavelmente na lama… todavia, uma voz interior diz-me que
Nechayev, agora perdido para sempre, e certamente consciente disso, irá
agora invocar das profundezas de seu ser, deformado e maculado, mas
longe de raso ou comum, toda sua energia e coragem antigas. Ele irá
perecer como um herói, e desta vez não trairá nada e ninguém. Tal é
minha crença. Veremos se estou certo”.
O restante da história de Nechayev pode ser contada brevemente. Quando
julgado, em Moscou, janeiro de 1873, ele portou-se com inflexíveis
provocações. “Recuso-me a ser escravo de seu governo tirânico”, ele
declarou. “Não reconheço o imperador e as leis deste país”. Ele não
respondeu a nenhuma das perguntas e foi finalmente levado gritando
“Abaixo o despotismo!”. Após ser sentenciado a vinte anos de trabalho
forçado, autodeclarou-se “um filho do povo” e invocou Razin e Pugachev:
“que penduraram os nobres, como na França os enviaram à guilhotina”. Na
cerimônia de “execução civil” seguinte a seu julgamento ele gritou:
“Abaixo o tzar! Vida longa à liberdade! Vida longa ao povo russo!”.
Os últimos dez anos da vida de Nechayev foram gastos em confinamento
solitário na fortaleza de Pedro e Paulo, da qual ele havia falsamente
alegado fuga em 1869. Seu comportamento na prisão, como Max Nomad
relata, foi “um dos maiores episódios da história revolucionária”.
Quando o General Potapov, da polícia secreta, visitou sua cela e
ofereceu-lhe indulgência se ele servisse como espião, Nechayev
golpeou-lhe a cara, derramando-lhe o sangue. Pelos próximos dois anos
suas mãos e pés foram mantidos algemados, até que a carne começou a
apodrecer.
Ainda assim, o espírito de Nechayev permanecia inteiro. De fato, mesmo
na prisão ele era capaz de exercer seu fascínio carismático sobre os
outros, conquistando até seus guardas, que começaram a chama-lo “águia”.
Ele os fez ler o jornal ilegal do grupo Vontade do Povo e até os ensinou
a como escrever letras em código. Com a ajuda deles, na verdade, ele foi
capaz de comunicar-se com seus colegas prisioneiros e, eventualmente,
com o mundo exterior, enviando cartas aos comitê central da Vontade do
Povo na véspera do assassinato de Alexander II. Vera Figner conta em
suas memórias a excitação que tiveram ao saber que Nechayev ainda estava
vivo, e próximo, na fortaleza de Pedro e Paulo, e não na Sibéria à qual
fora condenado. Os planos de libertá-lo, contudo, foram postergados, com
vistas a concentrar energias contra o tzar. Após o assassinato de
Alexander II, o grupo Vontade do Povo foi esmagado e a relação de
Nechayev com seus guardas foi descoberta, devido a uma traição de um
colega prisioneiro. Como resultado, mais de sessenta funcionários da
prisão foram presos e julgados, enquanto Nechayev foi sujeito a um
regime homicida que, pouco tempo depois, levou-o à morte. Ele morreu de
exaustão e escorbuto em 21 de novembro de 1882, contando 35 anos,
pereceu “como um herói”, tal qual previu Bakunin.
** Conclusão
O que, então, podemos concluir sobre Nechayev? Foi ele um absoluto
canalha sem quaisquer qualidades que o redimam, ou um devoto
revolucionário que foi injustamente caluniado por seus detratores? Até
certo ponto, é claro, ele permanece um enigma, e uma biografia de
fôlego, baseada em todas as fontes disponíveis, seria uma fascinante e
válida empreita. Enquanto isso, contudo, algumas avaliações podem ser
feitas. No lado positivo, sua coragem e dedicação não podem ser negadas.
Ele era dotado, segundo Sazhin, de “colossal energia, de devoção
fanática à revolução, de um caráter de aço, e de uma infatigável
capacidade para o trabalho”. Ele viveu uma vida de pobreza e extrema
autoprivação. Do dinheiro que obtivera do fundo de Bakhmetiev ele não
gastou um único tostão consigo mesmo. Nem pode a genuinidade de seu
fervor revolucionário ou de seu ódio ao privilégio e à exploração serem
colocados em dúvida. Ele pagou por isso sendo trancafiado em uma
masmorra por quase um terço de sua vida, um destino que ele encarou com
resistência e nobreza que são sem par nos anais do martírio
revolucionário.
Mas sua dedicação altruísta carregava uma marca áspera e cruel. Ela não
era temperada pelo calor e pela compaixão humana que Bakunin possuía em
tanta abundância. Nechayev ganhou sua influência, antes, por sua feroz
energia, seu imoralismo calculado e seu ódio sem limites ao estabelecido
e a todos aqueles que ele considerava seus inimigos. Suas maiores
faltas, escrevera Lev Deutsch, foram “uma confiança infinita em sua
própria infalibilidade, um total desprezo pelos seres humanos, e uma
sistemática aplicação do princípio de que os fins justificam os meios”.
Ele considerava todos os homens e mulheres como meras ferramentas na
luta revolucionária, desse modo despojando-os de suas dignidades
pessoais, até mesmos de suas identidades. Desde o começo de sua
carreira, escreveu Albert Camus em O Homem Revoltado[37], Nechayev
“nunca parou de subornar os estudantes em torno dele, o próprio Bakunin,
os refugiados revolucionários, e, até, os guardas de sua prisão”. Ele
não titubeava em trazer radicais menos intransigentes às suspeitas da
polícia para envolvê-los mais profundamente em suas próprias atividades
conspiratórias. Ele alçou a conveniência revolucionária ao gral de bem
absoluto, perante o qual toda a moralidade instituída deve se retirar.
Nos interesses da revolução, dos quais ele era para ser, sozinho, o
juiz, toda ação era justificada, todo crime legítimo, não importa o quão
repugnantes possam ser. Ele mesmo praticara o roubo, a chantagem e o
assassinato que pregava aos seus colegas conspiradores. Ele os praticou,
ainda, tanto em amigos quanto em inimigos. “ele enganava todos que
conhecia”, observa E. H. Carr, “e quando não era mais capaz de
enganá-los, seu poder se esvaia”. Sua originalidade, Camus salienta,
reside em “justificar a violência praticada aos próprios irmãos”.
Portanto, em última instância, ele prenuncia, todavia em escala menor,
os assassinatos em massa de Stalin em nome da necessidade
revolucionária.
Em resumo, enquanto Bakunin, quaisquer que sejam suas faltas, era
essencialmente um libertário, Nechayev, quaisquer que sejam suas
virtudes, era essencialmente um autoritário. Seus reais mentores não
eram Fourier, Proudhon e Bakunin, mas Robespierre, Babeuf e Tkachev,
cujos princípios jacobinistas ele levou às últimas dimensões. Longe de
ser um anarquista, ele era um apóstolo da conveniência política,
preocupado com os meios de conspiração e com organizações centralizadas,
mas que com o objetivo de uma sociedade sem estado. Seu jacobinismo e
maquiavelianismo entravam em atrito com o espírito libertário, rodeando
o anarquismo com uma aura de brutalidade e crueldade que eram alheios à
elementar humanidade. Nas mãos de Nechayev, anarquismo, o ideal de
liberdade e dignidade humana, era maculado, rebaixado e, por fim,
destorcido ao irreconhecível.
Apesar disso, Nechayev tinha uma profunda influência sobre o movimento
revolucionário, tanto entre anarquistas quanto entre não-anarquistas.
Embora revelado como assassino de um companheiro revolucionário, sem
contar um ladrão e chantagista, seus delitos eram sustentados por alguns
contrabalanceados com seu fervor e autossacrifício. Assim, a Vontade do
Povo enaltecera sua coragem e dedicação acima dos aspectos sombrios de
sua carreira; e Lenin, que admirava seus talentos organizacionais e sua
devoção abnegada à causa, glorificava-o como um “titã revolucionário”.
Durante as revoluções de 1905 e 1917 a imagem de Nechayev agarrava mais
que alguns jovens militantes da extrema esquerda, que, na paixão pela
conspiração revolucionária, pelos métodos terroristas, e em sua extrema
hostilidade a intelectuais, ergueram a peculiar estampa de seu mentor.
Complementando, grupos contemporâneos, como os Panteras Negras, o
Setembro Negro, os Wheathermen, a Fração do Exército Vermelho e o
Exército Simbionês de Libertação empregaram os métodos de Nechayev –
incluindo terror indiscriminado e a sujeição de meios a fins – em nome
da causa revolucionária. O líder dos Panteras Negras Eldridge Cleaver
conta-nos em Alma no Exílio[38] que apaixonara-se pelo Catecismo do
Revolucionário e tomara a obra como uma bíblia revolucionária,
incorporando seus princípios em sua vida cotidiana, empregando “táticas
de crueldade em meu trato com qualquer um com quem eu tivesse contato”
(o Catecismo foi publicado como um panfleto em 1969 pelos Panteras
Negras de Berkeley, com uma introdução de Cleaver). O Exército Simbionês
de Libertação foi acusado pelo assassinato (usando balas com ponta de
cianeto) de um superintendente de escolas em Oakland, Califórnia, e
alguns membros romperam com a organização por sua “devoção à violência e
sua egoística insistência, por parte da liderança, em tomar decisões
secretas”. Mesmo o assassinato de Ivanov, estranhamente, teve seus
homólogos, no assassinato de um alegado informante cometido pelo grupo
Panteras Negras em New Haven, 1969, e no massacre de 1972, cometido pelo
líder do Exército Vermelho Japonês, de não menos que quatorze membros de
seu grupo por violações da “disciplina revolucionária”.
Mas as táticas do “nechayevismo” também provocaram espalhada indignação
dentro do movimento revolucionário. Em seu próprio círculo, em São
Petersburgo, nos fins da década de 1860, Nechayev já encontrava
opositores em socialistas libertários como Mark Natanson, Feliks
Volkhovsky, German Lopatin e Michael Negreskul. O Círculo Chaikovsky, da
década de 1870 – que incluía Kropotkin e Kravchinsky, bem como Natanson,
Volkhovsky e Lopatin – também não endossavam os métodos jacobinos de
Nechayev, seu imoralismo cínico e sua organização partidária ditatorial.
Em contraste ao Justiça do Povo, eles buscaram criar uma atmosfera de
confiança e honestidade, e fundar uma organização baseada na ajuda e
respeito mútuos entre seus membros. Rejeitando o maquiavelianismo de
Nechayev, eles argumentavam que, no fim, não importa o quão nobre[39] a
pessoa fosse, qualquer um poderia ceder à corrupção de tais meios
monstruosos; e questionavam, como Bakunin, se o treinamento de grupos
revolucionários nas linhas propostas por Nechayev não criariam uma elite
arrogante de buscadores-do-poder que dariam ao povo o que eles deveriam
querer, quer eles quisessem de fato ou não. Portanto, eles alinhavam-se
no socialismo libertário de Herzen, Bakunin e Lavrov contra o
revolucionismo autoritário de Ishutin, Tkachev e Nechayev, que, eles
sentiam, não poderiam inspirar uma verdadeira revolução socialista, por
sua falta de uma verdadeira moralidade socialista.
O mesmo criticismo foi, mais tarde, levantado contra os Bolcheviques por
Piotr Kropotkin, nos lábios de quem, relata Maria Goldsmith, “a palavra
‘nechayevismo’ era sempre uma forte repreensão”. Como um membro do
Círculo Chaikovsky, Kropotkin criticou publicamente todas as associações
ensimesmadas de “revolucionários profissionais”, com seus esquemas
clandestinos, comitês dirigentes, disciplina de ferro e sujeição de
meios a fins. Ele insistia que “uma individualidade moralmente
desenvolvida deve ser a base de qualquer organização”. Para Kropotkin os
fins e os meios são inseparáveis, e ele era inflexível em sua oposição a
todas as táticas que fossem conflituosas com seus princípios e
objetivos. Nem Bakunin, em seus momentos mais perspicazes, teria
descordado. Como ele escrevera a Sazhin menos de dois anos antes de sua
morte:
“Perceba, de maneira ampla, que nada vivo e forte pode ser construído
sobre trapaça jesuítica, que a atividade revolucionária que busca êxito
deve não buscar seu suporte em paixões rasas e pequenas, e que nenhuma
revolução pode suceder sem ideias elevadas e conspicuamente claras”.
[37] Publicado originalmente, em 1951, sob o título L’homme révolté. No
Brasil a obra foi publicada em 1999 pela editora Record.
[38] Publicado originalmente como Soul on Ice, em 1968. No Brasil, foi
publicado em 1971 pela Civilização Brasileira.
[39] Nobre aqui no sentido de “nobreza de espírito”, “espírito eleveda”.
(N.T.)
** Nota bibliográfica
A primeira edição deste panfleto, consistindo de artigos publicados na
Freedom entre 3 de novembro e 1 de dezembro de 1973, apareceu em 1974. A
presente edição reproduz o texto original, com a revisão desta Nota
Bibliográfica.
O mais exaustivo e competente livro sobre Bakunin é a obra em três
volumes de Max Nettlau Michael Bakunin: eine Biographie (Londres,
1896-1900), que é difícil de encontrar e de ler, mas que ainda não foi
superada – embora uma rival marxista é a obra em quatro volumes de Yuri
Steklov M. A. Bakunin: yego zhizn i deyatelnost (Moscou, 1926-1927).
Existem diversas bibliografias posteriores, incluindo as de E. H. Carr
Michael Bakunin (Londres, 1937), de H. E. Kaminski Bakounine: l avie
d’um révolutionnaire (Paris, 1938), de Natália Pirumova Bakunin (Moscou,
1970), de Jeanne-Marie (pseudônimo de Violette Gaffiot) Michel
Bakounine: une vie d’homme (Genebra, 1976) e a de Arthur P. Mendel
Michael Bakunin: Roots of Apocalypse (New York, 1981).
Houveram também diversos estudos, incluindo o de K. J. Kenafick Michael
Bakunin and Karl Marx (Melbourne, 1948), o de Eugene Pyziur The Doctrine
of Anarchism of Michael A. Bakunin (Milwaukee, 1955), o de Hem Day
Mikhail Bakunin: A Study in the Psychology and Politics of Utopianism
(Oxford, 1982), e o de Richard B. Saltman The Social and Political
Thought of Michael Bakunin (Westport, Conn., 1983).
Trabalhos tratando especificamente do caso Nechayev são os de René
Cannac Netchaiev: du nihilisme au terrorisme (Paris, 1961), de Jean
Barrué Bakounine et Netchaiev (Paris, 1971), e a de Stephen T. Cochrane
The Collaboration of Nechaev, Ogarev e Bakunin em 1869: Nechaev’s Early
Years (Giessen, 1977). A obra de Michal Prawdin The Unmentionable
Nechaev (New York, 1961) foi já superada pela de Philip Pomper Sergei
Nechaev (New Brunswick, N.J., 1979). Um longo artigo ilustrado
comemorando o centenário da morte de Nechayev apareceu na Freedom em 11
de dezembro de 1982.
Não existem coleções apropriadas dos escritos de Bakunin em Inglês, mas
existem várias antologias utilizáveis, incluindo Marxism, Freedom and
the State, editado por K. J. Kenafick (Londres, 1950); The Political
Philosophy of Bakunin, editada por G. P. Maximoff (New York, 1953),
Bakunin on Anarchy, edotada por Sam Dolgoff (New York, 1971), e Michael
Bakunin: Selected Writings, editada por Arthur Lehning (Londres, 1973).
Existem boas coleções em diversos outros idiomas. A mais importante
edição moderna são os Archives Bakounine, editados desde 1961 por Arthur
Lehning, do International Institute of Social History in Amsterdam e
notável pela preparação meticulosa e prodigiosa produção. O quarto
volume, Michel Bakounine et ses rélations avec Sergej Nečaev, 1870-1872
(Leiden, 1973), dá um detalhado registro documental da segunda fase da
relação deles, incluindo o subsequente destino de Nechayev. Infelizmente
o compêndio sobre a primeira fase da relação deles e da atividade
inicial de Nechayev na Rússia ainda não apareceu. Enquanto isso Michael
Confino, da Tel Aviv University produziu dois livros bastante valiosos –
Violence dans la violence: le débat Bakounine-Nečaev (Paris, 1973) e
Daughter of a Revolutionary: Natalie Herzen and the Bakunin/Nechaev
Circle (La Salle, Illinois, 1973; Londres, 1974) – que dão similares,
embora não iguais, registros documentais de todo o episódio (incluindo o
texto completo do Catechism of the Revolutionary). E Arthur Lehning
produziu Michel Bakounine et les autres (Paris, 1976), uma biografia
documental.
Outros livros úteis que dão informações relevantes sobre o movimento
anarquista ou sobre o movimento revolucionário russo incluem o segundo
volume de Max Nettlau Geschichte der Anarchie: Der Anarchismus von
Proudhon zu Kropotkin (Berlin, 1927), E. H. Carr The Romantic Exiles
(Boston, 1939), Max Nomad Apostles of Revolution (Boston, 1939), Albert
Camus L’homme révolté[40] (Paris, 1951), G. H. D. Cole A History of
Socialist Thought: Marxism and Anarchism (Londres, 1954), Eugene Lampert
Studies in Rebellion (Londres, 1957), Richard Hare Portraits of Russian
Personalities between Reform and Revolution (Londres, 1959), Franco
Venturi Roots of Revolution (New York e Londres, 1960), George Woodcock
Anarchism[41] (Cleveland, Ohio, 1962; novas edições, 1975 e 1987), James
Joll The Anarchists (Londres, 1964; nova edição, 1979), Eugene Lampert
(Paris, 1965), Paul Avrich The Russian Anarchists (Princeton, N.J.,
1967), Robert Payne The Fortress (New York, 1967) e David Miller
Anarchism (Londres, 1984).
[40] Para a edição brasileira da obra, conferir nota 1 da conclusão.
[41] Esta obra foi publicada no Brasil em 2002 pela L&PM Pocket em dois
volumes, sob o título História das Idéias e Movimentos Anarquistas.
** Nota bibliográfica à edição brasileira | Nota bibliográfica à edição brasileira[42]
A publicação, no Brasil, de obras teóricas e de analises biográficas de
fôlego sobre o pensamento anarquista é bastante escassa. Boa parte das
obras mencionadas pelo autor inexiste em português, e também há pouco
fomento à produção de interpretações anarquistas próprias em nosso país,
principalmente a nível acadêmico. Apesar disso, alguns estudos e
publicações existem. Mencionarei alguns, sem pretensão de apresentar a
totalidade dos estudos anarquistas em língua portuguesa:
É interessante começar mencionando a obra, publicada em 2001 pela
editora Imaginário, A Bibliografia Libertária – o anarquismo em língua
portuguesa, que, após introdução debatendo a publicação de obras
libertárias em português, apresenta um extenso sumário de “todas” as
obras libertárias publicadas em língua portuguesa de 1974 até o ano
2000. É organizada por Adelaide Gonçalves e Jorge E. Silva.
Há também a obra De Baixo para Cima e da Periferia para o Centro,
organizada por Andrey Ferreira e Tadeu Toniatti, publicada em 2014 pela
editora Alternativa. Esta obra, além de apresentar textos inéditos de
Bakunin em língua portuguesa, traz extensa introdução fazendo balanço
dos estudos, das publicações e do lugar da teoria anarquista em
organizações de movimento social e epistemologia no Brasil.
Em termos biográficos, no Brasil temos a obra de Sérgio Queiroz chamada
Bakunin – Sangue, Suor e Barricadas, publicada em 1988 pela editora
Papirus. Recentemente também, em 2015, foi traduzida a obra de Fritz
Brupbacher Bakunin – o Satã da Revolta, publicada em coedição pelas
editoras Intermezzo e Imaginário.
Do ponto de vista mais teorético-analítico temos algumas obras como Os
Arquitetos da Ordem Anárquica – de Rousseau a Proudhon e Bakunin, de
Patrizia Piozzi, publicada pela editora da UNESP em 2006; o livro de
2014 Teoria Bakuniniana do Estado, de Felipe Corrêa, publicado pela
Imaginário.
Há também textos de Maurício Tragtenberg produzidos como introdução das
obras Deus e o Estado e Federalismo, Socialismo e Antiteologismo. Tais
textos serviram de introdução e breve análise a estas duas obras quando
de suas publicações pela editora Cortez, ambas em 1988. Os dois textos
podem ser encontrados na compilação Maurício Tragtenberg – Teoria e ação
libertárias, publicado em UNESP em 2011[43].
Como espero que tenha ficado claro nestas sugestões bibliográficas,
foquei nas publicações que tratam mais especificamente de Bakunin.
Todavia, é importante salientar que existem diversas outras que tratam
não só dele, mas do anarquismo em sentido amplo.
Sobre Nechayev não encontrei nada publicado em formato de livro, mas
certamente existem textos online.
[42] Essa nota foi produzida pelo editor brasileiro.
[43] Há também, nesta obra, uma interessante análise da polêmica entre
Marx e Bakunin, intitulada Marx/Bakunin.
** Sobre o autor
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-6.jpg 35][Paul Avrich, 1931-2006]]
Paul Avrich foi um professor e pesquisador norte-americano. Teve um
papel fundamental na preservação da história do movimento anarquista
russo e estadunidense.
Morreu em 2006, aos 74 anos, na cidade de New York. Quando do
acontecimento, doou cerca de 20 mil manuscritos e publicações
anarquistas, de sua coleção, à Biblioteca do Congresso (EUA).
Dentre seus títulos, destacamos aqui os mais relevantes:
- The Russian Anarchists (1967)
- Kronstadt, 1921 (1970)
- Russian Rebels, 1600-1800 (1972)
- The Anarchists in the Russian Revolution (1973)
- An American Anarchist: The Life of Voltairine de Cleyre (1978)
- The Modern School Movement: Anarchism and Education in the United
States (1980)
- The Haymarket Tragedy (1984)
- Anarchist Portraits (1988)
- Sacco and Vanzetti, The Anarchist Background (1991)
- Anarchist Voices: An Oral History of Anarchism in America (1995)
- Sasha and Emma: The Anarchist Odyssey of Alexander Berkman and Emma
Goldman (2012) [em coautoria com Karen Avrich]
** Sobre os colaboradores
*** Prefaciador
Felipe Corrêa é editor pós-graduado pela Escola de Sociologia e Política
de São Paulo, mestre pela Universidade de São Paulo (EACH), no programa
de Mudança Social e Participação Política, e doutorando do Programa de
Pós-Graduação em Educação, área de concentração “Ciências Sociais na
Educação”, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Membro da
Comissão Editorial da Faísca Publicações e do Instituto de Teoria e
História Anarquista (ITHA).
E-mail: felipecorreapedro@gmail.com
*** Ilustrador
Heitor Vilela é Jornalista e Ilustrador. Formou-se pela Faculdade de
Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás e é
coordenador da página de arte Rabiscos e Escarros.
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-10.jpg 70][Desenho original de Heitor Vilela utilizado como base à capa desta edição. Feito em nanquim e aquarela (tintas de tons vermelhos e pretos)]]
E-mail: heitorairplane@gmail.com
** Apêndices: cartas de Bakunin a Nechayev | Apêndices — Cartas de Bakunin a Nechayev
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-8.png 50][Rubrica de Mikhail Bakunin. Fonte: Wikipedia]]
*** Carta de 11 de maio de 1870
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-11.png 70][Digitalização da carta de Bakunin a Nechayev de 11 de maio de 1870. Fonte: Oeuvres Complètes. International Institute of Social History, Netherlands Institute for Scientific Information Services, Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences, 2000 (CD-ROM)]]
11 de Maio de 1870, Locarno[44]
Casa Pedrazzini
Meu querido amigo.
O que significa seu silêncio? Você recebeu minhas cartas ( de 2, 4, 6 e
9 de maio), e minhas mensagens (5 e 7)? Enviei para o endereço que você
me indicou. Se você já recebeu, por que não me responde? Disse-me bem,
não sei e não compreendo nada.
Por favor, responda-me imediatamente. Onde você está? O que está
acontecendo? O que aconteceu com você? Como vai o comitê? Cadê a
resposta que me prometeu? E acima de tudo, por que esta assembleia?
Aguardo sua resposta.
M. B.
[44] Agradecemos a professora Maria Luiza (UFG) pelas dicas no francês.
*** Carta de 2 de junho de 1870
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-12.png 70][Digitalização da 1ª folha da carta de Bakunin a Nechayev de 2 de junho de 1870. Fonte: Oeuvres Complètes. International Institute of Social History, Netherlands Institute for Scientific Information Services, Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences, 2000 (CD-ROM)]]
02 de Junho de 1870, Locarno
Estimado companheiro: dirijo-me agora a você e, através de você, ao seu
e ao nosso Comitê. Espero que se você está agora em um lugar seguro,
livre das pequenas moléstias e inquietações, possa reconsiderar
tranquilamente a sua situação e a nossa em geral, nossa causa comum.
Comecemos reconhecendo que nossa primeira campanha, iniciada em 1869, se
perdeu, estamos derrotados. Esmagados por duas razões principais: a
primeira, o povo não se levantou em cuja revolta confiávamos com todo o
direito. Vemos que não se esgotou o limite de seus sofrimentos e o
limite de sua paciência. Vemos que sua confiança em si mesmo, em seu
direito e em sua força, ainda não estava avançada e não se encontrou um
número suficiente de pessoas capazes por toda a Rússia para atuar junto
e despertar essa confiança. A segunda razão, nossa organização, pela
qualidade e pela quantidade de seus membros e do mesmo modo de sua
formação, resultou insuficiente. Por isso fomos derrotados, perdemos
muitas forças e pessoas valiosas.
Este é um fato inquestionável e devemos reconhecer-lo totalmente, sem
retroceder em nenhum momento, para que seja um ponto de partida de
nossas próximas reflexões, empresas e ações.
Você estava consciente disso, assim como seus amigos, sem nenhuma dúvida
antes, muito antes de me contar. Pode-se dizer que nunca me falaram
disso. Tive que adivinhar pelas contradições, numerosas e evidentes, de
suas declarações e por fim convencer-me, pela estado geral da situação,
pois estava muito claro que não havia modo [...] de ocultar-lo nem
sequer aos companheiros mais desinformados. Você estava convencido
disso más que a medias quando veio a minha casa em Locarno. Mas você me
falou com completa certeza e do modo mais afirmativo da iminência da
necessária sublevação. Você me enganou, e eu, suspeitando ou
pressentindo instintivamente a mentira, me negava consciente e
sistematicamente a acreditar. Você continuou falando e atuando como se
me dissesse a pura verdade. Se me houvesse mostrado, durante sua estadia
em Locarno, a situação tal como era em relação ao povo e a organização,
sem dúvida haveria redigido minha convocação aos oficiais no mesmo
sentido e com o mesmo espírito, porém, com outras palavras. E haveria
sido melhor para mim, para você e sobre tudo para a situação. Eu não
lhes haveria falado de um movimento eminente.
Não me aborreço com você e não lhe faço reprovação por saber que quando
você está mentindo, ocultando ou silenciando a verdade, você o faz fora
de interesses pessoais, faz simplesmente por que acredita ser útil a
causa. Todos nós e eu lhe queremos com afeto e lhe respeitamos
profundamente precisamente por que nunca encontramos um homem tão
desapegado de si mesmo como você e tão entregue a causa.
Mas nem esse afeto, nem esse respeito, poderiam impedir-me de lhe dizer
francamente que seu sistema de mentiras, que tende cada vez mais a ser
sua principal, seu único sistema, sua arma e meio principal, é mortal
para a mesma causa.
Não obstante, antes de tentar demonstrar-lhe, e espero conseguir,
falarei sobre a minha atitude para com você e seu Comitê. Buscarei
explicar por que, a pesar dos pressentimentos e as dúvidas racionais e
instintivas, que me avisavam cada vez mais contra a verdade das suas
palavras, ainda não acreditava neles. Até minha última viajem a Genebra,
eu falava e atuava como se confiasse totalmente em você.
Se pode dizer que estou 30 anos distante da Rússia, entre meus 40 e 51
anos estava no estrangeiro, a princípio com um passaporte, logo como
emigrante. Aos 51 anos, depois de dois anos prisioneiro nas fortalezas
de Saxônia e Áustria, fui entregue ao governo russo, que durante ainda 6
anos me manteve, a princípio na fortaleza Pedro e Paulo, no Revelim
Alexis, logo em Shliselburgo. Aos 57 anos, fui mandado a Sibéria, passei
dois anos no oeste e dois no leste. Aos 61 anos eu fugi da Sibéria.
Desde então, por suposto, não voltei a Rússia. Assim, durante 30 anos,
vivi 4 anos (há 9), dos 57 aos 61, livre na Rússia, ou seja, na Sibéria.
Isso, naturalmente, me deu a possibilidade de conhecer de perto o povo
russo, seus camponeses, seus burgueses, seus comerciantes, especialmente
na Sibéria, porém, não a sua juventude revolucionária. Na minha época
não havia outros exilados políticos na Sibéria senão alguns poucos
dekabristas e polacos. Conheci, no entanto, é verdade, um grupo de
quatro Petrashevistas, Petrashvski, Lvov e Tol, mas essas pessoas
representavam um tipo de transição entre os dekabristas e a juventude
atual. Eram socialistas doutrinários, livrescos, fourieristas e
pedagogos. Os jovens reais, nos quais eu acredito, desclasados,
desapegados, [...] este grupo da revolução popular, de que falei várias
vezes em meus escritos, não os conheço e só agora começo pouco a pouco a
relacionar-me com eles.
A maior parte dos russos que vinham saudar Herzen em Londres eram
pessoas bem situadas e homens acadêmicos ou oficiais liberalizantes ou
democratizantes. O primeiro revolucionário russo sério foi Potebnia, o
segundo, você. Não vou falar de Utin nem dos outros emigrados de
Genebra. Assim, até nosso encontro, a verdadeira juventude
revolucionária russa era para mim “terra incógnita” [assim está no
original em russo].
Bastou-me pouco tempo para compreender sua seriedade, para confiar em
você. Me convenci e até agora sigo convencido que ainda que vocês não
sejam muito numerosos, representam uma ação séria, a única ação
revolucionária séria na Rússia. E feita minha convicção, disse a mim
mesmo que minha obrigação era ajudar-lhes com toda minha energia e meus
meios, associando-me como pudesse ao movimento russo. Esta decisão foi
mais fácil de tomar já que o seu programa, pelo menos no ano passado,
não só parecia, mas era inclusive idêntico ao meu, elaborado
constantemente [...] sobre a base da experiência de uma já larga vida
política. Definamos em alguns traços este programa sobre a base na qual
eu e você nos aliamos profundamente o ano passado e do qual você se
afasta, ao que parece, sensivelmente, mas que, por minha parte, continuo
fiel [...] ao ponto que se seus sentimentos atuais e seu afastamento –
ou o de seus amigos – deste programa forem definitivos, me veria
obrigado a romper todas as relações políticas e íntimas com você.
Este programa pode se formular claramente em algumas palavras:
liquidação total do mundo estatal e jurídico e da chamada civilização
burguesa por uma revolução popular espontânea, invisivelmente dirigida,
de nenhuma maneira por uma ditadura oficial, senão pela ditadura anônima
e coletiva dos amigos da emancipação completa do povo de qualquer jugo,
solidamente aliados em uma associação secreta e atuando sempre e por
todas as partes com um único objetivo e um programa único.
Tal é a idéia e tal é o plano sobre a base do qual me aliei a vocês.
Para realizar-lo, lhes estendi a mão. Vocês sabem como me mantive fiel a
minha promessa de aliança. Vocês sabem como confiei em vocês desde que
me convenci de sua seriedade e da identidade de nossos programas
revolucionários. Não lhe perguntei quem são seus amigos, nem quantos
são, nem verifiquei suas forças. Acreditei sob palavra.
O fiz por debilidade, por cegueira, ou por burrice? Vocês mesmos sabem
que não. Vocês sabem muito bem que nunca houve em mim confiança cega e
que já no ano passado durante conversas sozinho com você, e outra vez na
casa de Ogarev e em sua presença, lhe falei claramente que não éramos
forçados a acreditar em você, porque para você não há problema em mentir
quando lhe parece que a mentira pode ser útil a causa. Portanto, não
temos outra garantia de veracidade de suas palavras senão sua
induvidável seriedade e total entrega a causa. Que seja importante esta
garantia, não o salva, no entanto, dos erros e resvalos se nos
entregássemos a você com os olhos fechados.
Mas apesar dessa convicção, que lhe expressei várias vezes, permaneci,
contudo, com você e em todas as partes lhe ajudei o quanto podia. Deseja
saber por que o fiz? Primeiro, porque até sua saída de Genebra para
Rússia nossos programas era no fundo os mesmos. Disso eu pude me
convencer não apenas com nossas conversas diárias, senão pelo fato que
todos os meus escritos concebidos e publicados em sua presença,
suscitavam em você uma grande simpatia pelos pontos que melhor e mais
claramente traduziam nosso programa comum, e também porque seus escritos
editados o ano passado levavam um caráter idêntico.
Segundo, porque reconhecia em você a energia real e incansável, a
dedicação, a paixão [...] e a reflexão, acreditei e acredito capaz de
reunir ao redor de você, não para você senão para a causa, verdadeiras
forças. E eu dizia a mim mesmo e dizia a Ogarev, que se não estavam
ainda reunidas, seguramente o seriam rapidamente.
Terceiro, porque de todos os russos que conheço, você me pareceu o mais
apto para levar a cabo esta empresa. Disse a mim mesmo e a Ogarev que
não devíamos esperar a chegada de outra pessoa, que ambos éramos
maiores, que era pouco provável encontrar alguém como você, mais
dedicado, mais capaz. Se, portanto, desejávamos estabelecer vínculos com
a causa russa, tínhamos que associar-nos com você e não com outros. Não
conhecemos seu Comitê nem sua associação e unicamente podemos julgar por
você. Se você é sério, por que não seriam seus amigos, presentes e
futuros? Sua induvidável seriedade, era para mim uma garantia que, por
uma parte, você não iria admitir pessoas inúteis e, por outra, que vocês
não ficariam sozinhos e que se esforçariam para constituir uma força
coletiva.
Existe, é verdade, em você um ponto débil que me assombrou desde os
primeiros dias de nosso encontro, mas ao que, o confesso, não lhe dei a
devida atenção: é sua inexperiência, sua falta de conhecimento das
pessoas e da vida, ao qual está ligado a um fanatismo, não distante ao
misticismo. A ignorância das condições sociais, dos costumes,
características, idéias e sentimentos ordinários do chamado mundo culto,
o faz ainda hoje incapaz de trabalhar com êxito nesse meio, inclusive
para destruir-lo. Você até hoje desconhece as métodos que permitem
adquirir influência e força, o que o condena a erros fatais cada vez que
para as necessidades da causa entra em contato com pessoas ilustradas.
Viu-se claramente com sua infeliz tentativa de publicar Kolokol em
condições impossíveis. Mas falaremos mais diante de Kolokol. O
desconhecimento das pessoas lhe acarreta necessariamente erros. Você
exige muito delas e ao mesmo tempo espera muito delas, encarregando-lhes
tarefas acima de suas forças, na medida em que todas as pessoas devem
estar animadas da mesma paixão que você. Além disso, você absolutamente
não confia nas pessoas e por isso não leva em conta a paixão que se vai
despertando nelas, a orientação que se vai criando, assim como a
honradez de suas aspirações para os mesmos fins que você. E você tenta
sujeitar-la, aterrorizar-la, atar-la com um controle exterior e amiúde
insuficiente, para que uma vez caída em suas mãos não possa escapar
jamais. E não obstante as pessoas fogem e fugirão constantemente
enquanto você não mude seu sistema de comportamento com elas, enquanto
não se esforce para que elas encontrem principalmente a razão da aliança
com você. Lembre-se de quando se aborreceu quando o chamei de “abrek”
[1], e seu catecismo, um catecismo de “abrek”. Você
disse que em todos os indivíduos deveria estar a renuncia total a si
mesmo e a todos os desejos pessoais, satisfações, sentimentos, afetos e
relações, como estado normal, natural e constante de todos os indivíduos
sem exceção. Sua dureza para consigo mesmo, seu autêntico e grande
fanatismo, você quer que seja, desde agora uma regra de vida para toda a
comunidade. Você aponta a fatos absurdos, impossíveis, a negação
completa da natureza dos homem e da sociedade. Esta busca é nefasta,
porque lhe empurra a gastar suas forças de modo banal, e os tiros saem
pela culatra. Ninguém, por maior força que tenha, e nenhuma associação,
por mais perfeita que seja a sua disciplina e poderosa sua organização,
não conseguirá nunca vencer a natureza. Somente os fanáticos religiosos
e os ascetas podem tentar vencer-la. Por isso estranhei muitíssimo de
encontrar em você uma espécie de idealismo místico e panteísta. Dadas
suas inclinações, isso me pareceu perfeitamente claro, ainda que
perfeitamente absurdo. Se, querido amigo, você não é um materialista
como nós os pecadores, senão um idealista, um profeta, um monge da
Revolução, seu herói não pode ser nem Babeuf nem sequer Marat, senão
Savonarola. Por sua forma de espírito você se aproxima mais a
[ilegível...], aos jesuítas que a nós. Você é um fanático. Daí sua
enorme força de caráter e junto a ela, sua cegueira, e a cegueira é uma
debilidade grande e mortal. A energia cega divaga e tropeça; e quanto
mais terrível é esta energia, mais irreparáveis e significativos os
erros. Falta muito em você o espírito crítico, e com essa carência [...]
é impossível uma apreciação correta dos indivíduos, das situações, dos
meios adequados às metas.
Tudo isso compreendi e já dizia a mim o ano passado. Porém, duas
considerações equilibravam a totalidade a seu favor. Primeiro,
reconhecia e reconheço em você uma força considerável e, se pode dizer,
sumamente pura, sem nenhuma mescla de vaidade, uma força como não
encontrei nenhuma igual em outros russos. Segundo, dizia e ainda o digo,
que você ainda é jovem, com tanta renuncia preciosa ao personalismo, aos
caprichos vaidosos e ilusões, que não poderia por muito tempo seguir uma
via mentirosa e enganosa, funesta para a própria causa. Esta é ainda
hoje minha convicção.
Por fim, via e sentia que você estava longe de me dar completa confiança
e que em muitos aspectos me tratava como um instrumento para fins
imediatos e desconhecidos por mim. Mas não me inquietava totalmente.
Primeiro, eu gostava do seu mutismo sobre quem participava em sua
organização, dada minha convicção de que nesse tipo de assunto,
inclusive as pessoas mais próximas só devem saber o que é na prática
imprescindível para o êxito de sua tarefa. E você vai reconhecer esta
verdade, de que eu nunca lhe fiz perguntas indiscretas. Inclusive se
você tivesse citado nomes, em oposição ao seu dever, isso não me
ajudaria em nada, por não conhecer as pessoas que você lidera. Tive que
julgar-lhe por sua palavra, e acreditei e acredito em você. Um comitê
composto de pessoas como você e merecendo toda sua confiança, merece por
nossa parte não menos que uma confiança integral.
Coloca-se uma questão: existiu realmente sua organização, ou você tentou
unicamente lançar-la? E se existiu, era numerosa e representava ao menos
um embrião de uma força, ou só era uma mera esperança? Existiu inclusive
o próprio Comitê, seu santo dos santos, com a forma indicada e com esta
profunda coesão que você vincula à vida e à morte, ou você somente se
dispôs a formar-lo? Em uma palavra, representava você uma força isolada,
muito honrável por certo, porém individual, ou uma força coletiva real e
existente? E [...] se a associação e o Comitê dirigente existiram de
verdade – supondo que, especialmente o Comitê, estivesse compostos
exclusivamente de homens dedicados, firmes, tão fanaticamente entregues
e desapegados de si mesmos como você, me ocorre uma outra pergunta:
Possuíam e possuem bastante espírito prático e conhecimentos, bastante
preparação teórica e aptidão para conhecer as condições e relações
dentro da vida do povo e as classes na Rússia, para que o Comitê
revolucionário não seja de maneira nenhuma insignificante, senão
autêntico, e para que abarque toda a vida russa e penetre em todas as
camadas sociais da Rússia, como realmente uma organização poderosa? Da
ardente energia dos participantes depende a franqueza da ação; do
espírito prático e dos conhecimentos deles, seu êxito.
Para eu ter uma idéia tanta da realidade como das possibilidades e do
espírito da empresa de vocês, eu não parava de lhe fazer perguntas, e
confesso que suas respostas não me pareceram absolutamente
satisfatórias. Como não se esquivava nem me enrolava, você, contra a sua
vontade, expressou o seguinte: sua associação, dada sua filiação, era
muito insignificante, e por seus meios materiais, era ainda mais.
Falta-lha ainda espírito prático, conhecimentos e destreza. Mas o
Comitê, integrado por você, é sem nenhuma dúvida composto de homens como
você, e entre eles você é um dos melhores, um dos mais firmes. Você é o
fundador e até agora o dirigente da associação. Tudo isso, estimado
amigo, eu entendi e soube já no ano passado. Isso não me impediu de
nenhum modo a aliar-me com você, porque reconheci em você [...] um
militante inteligente e dedicado com paixão, como há poucos, e porque eu
estava convencido que você havia conseguido descobrir pelo menos alguns
homens do seu temperamento e agrupar-los. Eu estive convencido e sigo
sendo até o momento, que pela via da experiência e com esforços
incansáveis e ardentes, você iria adquirir rapidamente os conhecimentos,
a razão a destreza, sem os quais o êxito é impossível. E como fora do
seu círculo eu não supunha e não suponho que possa existir na Rússia
outro tão sério como você, apesar de tudo, decidi ficar unido com você.
Não me incomodava de nenhuma maneira ver-lhe sem cessar exagerar frente
a mim suas forças: é uma postura objetiva e muitas vezes positiva, e
outro valor de todos os conspiradores. Mas é verdade que notei na sua
tentativa de me enganar a prova de sua compreensão ainda insuficiente do
povo. Me pareceu que com todas nossas conversas, você deveria ter
compreendido que para me entusiasmar não necessitava dar-me provas de
uma força já existente e organizada, senão apenas a prova de sua
inquebrantável e inteligente vontade de criar tal força. Entendi também
que possuía frente a mim alguém como um representante e de alguma
maneira um embaixador de uma organização já existente e bastante forte.
Ao portar-se dessa maneira, você se colocou na posição de me apresentar
suas condições da parte de uma poderosa organização, e não apenas como
um indivíduo que juntava forças. Você deveria ter falado comigo de igual
para igual, de pessoa para pessoa, e expor-me [...] seu programa [...] e
sua ação.
Isso não entrava em seus cálculos. Você ficava demasiado fanaticamente
apegado ao seu programa e seu plano para submeter-los a qualquer
crítica. E segundo, você não confiava bastante em minha dedicação pela
causa e em minha compreensão para mostrar-me sua empresa sob sua
verdadeira luz. Você teve uma atitude ascética para com toda a emigração
e teve razão. Você o foi talvez um pouco menos comigo, porque te dei
diversas provas de minha vontade de servir a causa sem nenhuma pretensão
pessoal nem cálculos. Você me tomava, no entanto, por um incapacitado
cujos conselhos e conhecimentos podem as vezes ser útil, porém [...]
cuja participação em sua ardente empresa seria inútil e até prejudicial.
Eu vi isso muito bem, porém não me ofendi absolutamente. Você mesmo
sabia [...] isso e não podia induzir-me a separar-me de você. Eu não
tinha que demonstrar-lhe que não sou absolutamente uma pessoa acabada e
incapaz de tomar parte em uma ação ardente e séria como lhe parecia.
Deixava e deixo ao tempo e a sua própria experiência que lhe convençam
do contrário.
Existia e há até hoje uma circunstancia particular que me obrigava e me
obriga ainda a mostrar-me muito cauteloso frente a todos os assuntos e
as pessoas da Rússia. É a minha total falta de dinheiro. Toda minha vida
lutei com a pobreza e cada vez que pude empreender e fazer algo útil, o
fiz não com meus recursos senão com recursos alheios. Isso me custou
desde a muito tempo, sobre tudo da parte da canalha russa, uma montão de
calúnias e ataques.
Esses senhores contaminaram profundamente minha fama e com isso
paralisaram sensivelmente minha atividade. Acudi a toda a verdadeira
paixão e a sincera vontade que me animam (digo sem vaidade, senão por
experiência) para não quebrar-me e seguir atuando. Você também [...]
sabe que o quão mentirosos e odiosos são os rumores que correm sobre meu
luxo pessoal e minha inclinação a fazer dinheiro as custos dos demais, a
enganar-los. Particularmente as canalhas da emigração russa, os Utin e
Cia., se atrevem a tratar-me de trapaceiro e explorador interesseiro, eu
que, desde que tenho memória, nunca vivi por minha satisfação pessoal e
que sempre me esforcei para emancipar aos demais. Não tome isso por
vanglória, digo isso a você e a seus amigos, já que, sinto o direito e a
necessidade de dizer-lhe de uma vez por todas.
É evidente que para dedicar-me por inteiro a serviço da causa, devo ter
os meios de existência necessários. Estou envelhecendo; oito anos [...]
de detenção provocaram uma enfermidade crônica [...] daí determinados
cuidados, certas condições para servir utilmente a causa. Além disso,
tenho uma mulher e filhos que não posso condenar a morrer de fome.
Esforcei-me para reduzir meus gastos ao mínimo, mas apesar disso não
podia viver sem receber cada mês uma certa quantia. Aonde tomar-la, se
dou todo meu labor a causa comum?
Há ainda outras razões; por haver fundado a alguns anos a Aliança
Internacional Revolucionária Secreta, não posso nem quero abandonar-la
para dedicar-me unicamente a causa russa. Pelo menos, em meu pensamento,
a causa russa e a causa internacional são apenas uma. Até agora esta não
me deu meios de subsistência, só me custou dinheiro. Tal é em poucas
palavras a chave da minha situação. Você compreende que esta pobreza,
por uma parte, e as calúnias rasteiras propagadas por emigrantes russos
da outra, me paralisam em relação as pessoas novas e a todas as causas.
Você vê quantos motivos tinha para não querer me impor, não pedir-lhe
mais confiança além daquela que lhe parecia oportuno outorgar-me.
[ilegível] esperar a você e seus amigos se convencerem de que era
possível, útil e necessário confiar em mim.
Além disso, eu via e entendia muito bem que, ao não tratar-me de igual
para igual, como uma pessoa de confiança, de acordo com o seu sistema e
acatando, como se viu, sua necessidade lógica, você me considerava como
um objeto de experimentação, ao 80% cego, para a causa, usando como
ferramenta minha pessoa, minha militância e meu nome. De modo que, não
dispondo na realidade da força que me falava, estava usando meu nome
para organizar-la na Rússia, até o ponto que muito acreditam que estou
na cabeça de uma associação secreta de que, como você sabe, desconheço
absolutamente tudo.
Teria eu que permitir que se sirvam de meu nome como meio de propaganda
e recrutamento para uma organização com um plano de ação e objetivos
imediatos da qual ¾ das partes me desconhecidas? Sem vacilar respondo
categoricamente: sim, podia e devia fazer-lhe. Aqui estão minhas razões:
Primeiro, sempre estive convencido de que o Comitê Revolucionário Russo
deve e somente ele pode ter sua atividade na Rússia, e querer dirigir a
revolução russa desde o exterior é um absurdo.
Se você e seus amigos tivessem que ficar muito tempo no exterior, lhe
explicaria que você já não é membro do Comitê. Se vocês fossem
emigrantes, deveriam, como eu mesmo fiz, submeter-se, quanto ao que
concerne as atividades russas, a direção absoluta de um novo Comitê na
mesma Rússia, reconhecido por vocês sobre a base de um programa e um
plano discutido juntos. Vocês formariam um Comitê russo no estrangeiro
com plena autonomia para administrar todas as atividades, a gente e os
círculos russos fora da Rússia, em plena conformidade de pontos de
vistas com o Comitê [de lá], e com autonomia e independência que
corresponde para a eleição dos modos e meios de ação, e sobre tudo de
acordo com a Aliança Internacional. Nesse caso, eu teria o dever e o
direito de exigir que eu integrasse em plano de igualdade este Comitê
russo no estrangeiro. É o que por outra parte havia pedido em minha
última carta que dirigi ao Comitê e a você, reconhecendo que este deve
estar na Rússia. Por suposto, eu não tive nem a possibilidade nem a
intenção de regressar a Rússia, e tampouco tenho a pretensão de entrar
no Comitê que ai está. Através de você tive conhecimento do programa e
dos objetivos da atividade desse Comitê. Como eu estava inteiramente de
acordo com vocês, lhe comuniquei estar disposto e com a firme resolução
de ajudar ao Comitê e servir-lo por todos os meios a minha disposição.
Posto que meu nome lhe parecia útil para atrair novos aderentes a sua
organização, lhe autorizei para usar-lo. Eu sabia que isso ia pela causa
(nosso programa comum e o seu caráter eram minha garantia) e não temi
ver-me exposto, em caso de erros ou fracassos, às críticas públicas,
porque estou acostumado as injúrias.
Porém, lembre-se de que já no verão passado convencionamos entre nós
dois que você me comunicaria todas as empresas, atividades e [contatos
com] russos no estrangeiro e que tudo o que se faça ou tente fazer ai,
não se faria sem que eu soubesse e sem minha aprovação. Era uma condição
necessária. Primeiro, porque conheço o estrangeiro muito melhor que
qualquer um de vocês; e segundo, porque uma solidariedade cega e
independente de você para as suas ações e publicações no estrangeiro
poderiam colocar-me em uma situação contrária aos meus deveres e aos
meus direitos como membro da Aliança Internacional. Esta condição, como
vamos ver, não foi cumprida pela sua parte e, por não aplicar-se
integralmente, eu estaria na obrigação de romper todas as relações
políticas e pessoais com você.
Antes de tudo, meu sistema difere do seu aonde não admite nem o
interesse, nem sequer a possibilidade, de uma outra revolução a não ser
a revolução espontânea, ou seja, popular e social. Qualquer outra
revolução, esta é minha profunda convicção, seria desonesta, nociva e
mortal para a liberdade e o povo, porque lhe asseguraria uma miséria
nova e uma nova servidão. E o essencial é que qualquer toda revolução
resulta desde agora impossível, fora do alcance e irrealizável. A
centralização e a civilização, as ferrovias, o telégrafo, os novos
armamentos e a nova organização do exército, em fim, a ciência
administrativa, quer dizer, a ciência da submissão e da exploração
sistemática das massas, a ciência da domesticação de todo tipo de
sublevações populares, está tão cuidadosamente elaborada, verificada
pela experiência e aperfeiçoada no decurso dos últimos setenta e cinco
anos de história contemporânea, acrescentando o fato de que o Estado e
seu armamento representa atualmente uma força tão enorme, que todas as
tentativas artificiais, os complôs secretos fora do povo, os ataques e
os assaltos de surpresa viriam a despedaçar-se frente a esta força, que
somente poderá ser vencida e destruída pela revolução espontânea,
popular e social.
Assim, o único objetivo da associação secreta deve ser não o de
constituir uma força artificial fora do povo, senão despertar, agrupar e
organizar as forças populares espontâneas. Nestas condições, o exército
da revolução, o único capaz e real, não está fora do povo, é o próprio
povo. Não se lhe despertará através de meios artificiais. As revoluções
populares são engendradas pela própria força das coisas ou por essa
corrente histórica que, invisível e subterrânea, incessante e a maior
parte do tempo lenta, corre por entre as camadas populares, abarcando-as
cada vez mais, penetrando gota a gota, até que se escape desde abaixo
para fora sua selvagem corrente, até que rompa todos os obstáculos que
encontrar no seu caminho.
Tal revolução é impossível artificialmente. Nem sequer se pode adiantar
significativamente, ainda que eu não duvide que uma organização dirigida
devidamente e inteligentemente possa facilitar sua explosão. Há períodos
na história em que as revoluções são totalmente impossíveis; existem
outros em que elas são inevitáveis. Em qual desses tipos de períodos
estamos na atualidade? A meu ver, e é minha profunda convicção, em um
período de revolução popular generalizada e inevitável. Não tratarei
aqui de provar a justeza desta opinião, me levaria muito longe. Tampouco
é necessário, dado que me dirijo a alguém e a pessoas que, estou seguro
disso, a compartilham por inteiro. Digo então que por qualquer lugar em
toda a Europa, a revolução social e popular é inevitável. Explodirá em
breve, mas onde se acenderá primeiro: na Rússia, na França ou em outro
país do Ocidente? Ninguém pode prever. Talvez estoure dentro de um ano,
talvez mais cedo, ou nem sequer antes de dez ou vinte anos. Esta não é a
questão, e aqueles que quiserem servir lealmente a revolução não o farão
por mero prazer. Todas as associações secretas que querem de verdade
trabalhar por ela devem primeiro abandonar todo nervosismo, toda
impaciência. Não devem adormecer, pelo contrário, devem manter-se
dispostas dentro do possível em qualquer momento, estar, portanto, em
alerta e sempre capazes de agarrar toda ocasião favorável. Mas ao mesmo
tempo temos a necessidade de formar-las e organizar-las não para um
levantamento próximo, senão para o trabalho clandestino paciente e de
larga duração, como seus amigos, os padres jesuítas.
Limitarei minhas reflexões a Rússia. Quando então vai estourar a
revolução russa? Ignoramos. Muitos, e o pecador de mim dentre outros,
esperavam a sublevação do povo em 1870; mas o povo não se despertou.
Deve-se deduzir disso que o povo russo poderia prescindir da revolução,
evitar-la? Não, tal dedução não é possível, seria absurda. Quem conhece
a situação sem saída e de fato crítica de nosso povo, por uma parte, no
plano econômico e político e, por outra, a incapacidade decidida de
nosso Governo e do Estado, não apenas de modificar, senão de suavizar um
pouco a situação (incapacidade que procede não de tal ou qual
característica específica de nossos governantes, senão da própria índole
de nosso sistema estatal em particular e de cada estado em geral), deve
inevitavelmente chegar a conclusão que a revolução popular russa é
inevitável. O é em negativo e em positivo, porque em nosso povo, apesar
de sua ignorância, forjou-se com a história um ideal que ele se esforça,
conscientemente ou não, por cumprir. Aquele ideal é a posse comunitária
da terra com uma emancipação completa de qualquer opressão estatal e
serviçal. A isso apontava o povo na época dos falsos Dmitri, de Stenka
Razin e Pugachev; a isso tende ainda hoje as revoltas incessantes, mas
dispersas e sempre reprimidas.
Só assinalei dois traços principais do ideal popular russo, sem
pretender definir-lo por inteiro com algumas palavras. Contudo, por
acaso é pouco o que está vivendo o povo russo em suas aspirações
intelectuais e o que virá com a primeira revolução? Isso me basta agora
para demonstrar que nosso povo não é uma folha em branco em que qualquer
associação secreta pode escrever o que ela bem entender, o programa
comunista de você por exemplo. O povo elaborou, em parte consciente e
quase tudo inconscientemente, seu próprio programa, que cada associação
secreta deve conhecer, adivinhar, e ao qual terá que conformar-se se
quiser vencer.
É um fato sem nenhuma dúvida e conhecido por todos nós que na época de
Stanka Razin e de Pugachev, cada vez que um levantamento popular se
produzia, ao menos durante certo tempo, nosso povo fazia uma única
coisa: tomava posse de toda a terra para colocar-la em comum, mandando
para os diabos os nobres, os grandes latifundiários, os funcionários do
Tsar e algumas vezes até mesmo os sacerdotes, e organizava sua comuna
livre. Isso significa que nosso povo guarda em sua memória e em seu
ideal um valioso elemento para a organização futura, elemento que não
existe ainda entre os povos ocidentais: a comuna econômica livre. Na
vida e no pensamento popular existem dois fatores, dois fatos em que
podemos nos apoiar: as freqüentes rebeliões e a comuna econômica livre.
Mas existe um terceiro fator, um terceiro fato: é o povo cossaco ou o
mundo dos bandoleiros e ladrões, que reúne em si mesmo um protesto
contra a opressão do Estado e a do patriarcado comunitário, que se
conecta com os dois primeiros.
As freqüentes revoltas, ainda que sempre provocadas por circunstancias
fortuitas, provêem não obstante de causas gerais e traduzem o profundo
descontentamento geral do povo inteiro. São de certo modo um fenômeno
corrente e natural da vida popular russa. Não existe no campo russo um
povo que não esteja profundamente descontente com sua situação, que não
padeça de escassez, de asfixia, de deseja de mudança e não oculte no
fundo de sua alma coletiva o desejo de apoderar-se de toda a terra
senhorial, logo a dos kulaks, com o sentimento de que está sem nenhuma
dúvida em seu direito. Não há aldeia que, tendo possibilidade, não vá ao
levantamento. Se o campo não levanta tão rápido, é unicamente pelo medo,
por imaginar-se indefeso. Este sentimento provém da desunião das
comunas, a ausência de solidariedade real entre elas. Se em cada aldeia
se soubesse que no momento que se levantar todos os outros povos farão o
mesmo, pode-se dizer certamente que não haveria um só povo na Rússia que
não se subleve. Daí se retira o primeiro dever, a orientação e o
objetivo da organização secreta: despertar em todas as comunas rurais o
sentimento de sua segura e inevitável solidariedade, e assim despertar
no povo russo o sentimento de seu poder; em uma palavra, unir as
diversas revoltas camponesas em um levantamento popular.
Um dos meios importantes de alcançar esse objetivo, de acordo a minha
profunda convicção, é e deve ser valer-se de nossos cossacos livres, a
multidão de nossos vagabundos (os santos e os outros), os peregrinos e
os benguny [2], os ladrões e os bandoleiros, todo
esse amplo e clandestino mundo, que desde sempre está protestando contra
o Estado e o estatismo e contra a civilização knutogermânica. Isso já
foi exposta em um volante anônimo: “A questão revolucionária e o modo de
aplicar-la” provocando um grito de indignação em todas as pessoas de bem
e charlatães vaidosos que tomam sua verborragia doutrinária e bizantina
por ação. Mas tudo isso é absolutamente verdadeiro e está confirmado por
toda nossa história. O mundo dos cossacos, ladrões, bandoleiros e
vagabundos, desempenhou precisamente o papel de vínculo para unir as
freqüentes revoltas das comunas isoladas; e no tempo de Stenka Razin e
Pugachev, os vagabundos foram os melhores e os mais fiéis intermediários
da revolução popular, preparadores da agitação popular, precursores do
levante do povo inteiro; Quem ignora que os vagabundos, ao apresentar-se
a ocasião, se convertem facilmente em ladrões e bandoleiros? E quem,
entre nós, não é bandoleiro ou ladrão? Por acaso o Governo não é? Nossos
especuladores e negociantes estatais e privados? Nossos latifundiários e
comerciantes? Por minha parte, não suporto, não admito nem o
bandoleirismo, nem o roubo, nem qualquer violência contra as pessoas.
Mas reconheço que se tenho que escolher entre o bandoleirismo e o roubo
desde o trono, o que utiliza de todos os privilégios, e entre o roubo e
o bandoleirismo do povo, sem a menor vacilação tomo o partido deste
último, o vejo natural, necessário e até em certo sentido legítimo. O
bandoleirismo popular, eu reconheço, desde o ponto de vista da verdade
humana, deixa muitíssimo de ser belo. Mas o que é belo na Rússia? Pode
haver algo mais sujo que o mundo das pessoas de bem, funcionários,
pequenos burgueses cultos e elegantes, ocultando sob seus brilhos
ocidentais a mais terrível perversão de pensamento, sentimentos, ações!
Ou, no melhor dos casos, um vazio triste e sem saída. Na perversão do
povo, ao contrário, existe a natureza, a força, a vida, existe no final
o direito, dados os sacrifícios durante muitos séculos de história.
Existe um poderoso protesto contra a base principal de toda perversão,
contra o Estado, por isso é uma possibilidade de porvir. Por isso tomo
partido dos bandoleiros populares e vejo neles uma das principais
alavancas da futura revolução popular na Rússia.
Entendo que isto pode indignar os nossos puros ou não puros idealistas,
idealistas de qualquer coloração, de Utin a Lopatin, que imaginam
poderem através da violência, por uma organização secreta artificial,
impor ao povo seu próprio pensamento, sua vontade e seu modo de atuar.
Não acredito nessa possibilidade, estou convencido, pelo contrário, que
com a primeira grande derrota do Estado de toda a Rússia, sejam quais
forem as causas, o povo se levantará não pelo ideal de Utin e Lopatin,
nem sequer o de vocês, senão pelo seu próprio, e nenhuma força estará em
condição de parar e modificar seu movimento natural, porque não existe
dique capaz de conter o oceano furioso. Vocês todos, meus queridos
amigos, estarão varridos como gravetos se não souberem nadar no sentido
do povo. Creio que com o primeiro grande impulso do levantamento do
povo, o mundo dos vagabundos, bandidos e ladrões, profundamente
arraigado em nossa vida popular e um de seus principais fenômenos, se
colocará em marcha poderosa e massivamente.
Bom ou mal, é um fato indiscutível e inevitável, e quem deseja realmente
a revolução popular russa, que quer servir-la, sustentar-la,
organizar-la, não apenas no papel, senão nos atos, deve conhecer este
fato. Deve ter isso em conta, sem tratar de se esquivar, ter uma atitude
consciente e prática, usando-lo como um meio poderoso para o triunfo da
revolução. Aí não se pode ser puro. Quem quiser preservar sua pureza
ideal e virginal, que fique em seu gabinete, que sonhe, pense, escreva
suas reflexões e versos. Mas quem quer ser um autêntico militante
revolucionário na Rússia, que tire seus luvas, porque não existem luvas
que possam proteger-lhe da incalculável sociedade russa generalizada. O
mundo russo, estatal e privilegiado ou popular, é um mundo horrível. A
revolução russa será sem lugar a dúvidas uma revolução horrível. Quem
teme os horrores ou a lama que se distancie deste mundo e dessa
revolução; mas quem deseja servir-la, sabendo o que irá acontecer, que
fortaleça seus nervos e esteja disposto a tudo.
Valer-se do mundo dos bandidos como instrumento da revolução popular,
como meio de vínculo entre as sublevações de massas isoladas, é uma
tarefa difícil. Admito que é necessária, mas ao mesmo tempo sei que sou
totalmente incapaz de dedicar-me a ela. Para empreender-la e levar-la a
cabo, é preciso ter nervos sólidos, uma força colossal, convicções
apaixonadas e uma vontade de ferro. Tais homens podem fazer picadinho de
vocês. Mas as pessoas de nossa geração e com nossa educação é incapaz de
fazer isso. Ir entre os bandoleiros não significa tornar-se a si mesmo
um bandoleiro e apenas um bandoleiro. Isto não significa compartir suas
paixões, suas misérias, suas motivações por sinal detestáveis, seus
sentimentos e seus atos. Isto significa dar-lhes uma alma nova e
despertar neles a necessidade de um objetivo diferente, de um objetivo
popular. Estas pessoas selvagens e brutas até a crueldade possuem uma
natureza fresca, forte, intacta e em plena vitalidade, e
conseqüentemente aberta a uma propaganda vivaz, naturalmente sempre que
uma propaganda vivaz e não doutrinária se atreva e possa aproximar-se
deles. Estou disposto a falar-lhe mais sobre esse tema caso prossiga
esta correspondência com você.
Outro elemento valioso da vida popular futura na Rússia, como lhe dizia,
é a comuna econômica livre. Efetivamente é um elemento muito valioso e
que não existe no Ocidente. A revolução social no Ocidente deverá criar
esse embrião indispensável e fundamental da organização futura, e esta
tarefa custará ao Ocidente muitos esforços. Entre nós já está feita,
quando estourar a revolução na Rússia, e quando o Estado – com todos
seus empregados – se desmoronar, o campo russo se organizará sem
qualquer problema, por si só, no ato. Na Rússia, por outro lado, existe
uma dificuldade que não existe no Ocidente. Nossas comunas são
terrivelmente desunidas; quase não se conhecem e se opõe freqüentemente
como inimigas segundo o velho habito russo. Ultimamente, por causa das
medidas financeiras do Governo, as comunas começam a acostumar-se a
união no plano comarcal, de modo que a comarca está adquirindo um
significado e uma consagração popular, mas não vai mais longe. Cada
comarca não sabe e não quer saber nada da comarca vizinha. Mas para
preparar a vitória da revolução, para organizar a futura liberdade do
povo, é necessário que as comarcas, por seu próprio movimento popular,
se unam em distritos, os distritos em regiões, e que as regiões formem
entre elas uma Federação Russa Livre.
Despertar em nossas comunidades rurais a consciência desta necessidade
por sua própria liberdade e por seu bem, é igualmente a tarefa da
organização secreta, porque ninguém além dela irá querer empreender este
dever, à que se opõem diretamente os interesses do Governo e de todas as
classes privilegiadas. De que modo atuar, o que fazer e como proceder
para despertar nas comunas essa consciência, a única de que se pode
dizer que é de verdade saudável? Não é o lugar para aprofundar o tema.
Tal é, estimado amigo, em suas grandes linhas todo o programa da
revolução popular russa, profundamente enraizada no instinto histórico e
na condição de nosso povo. Quem deseja colocar-se na cabeça do movimento
popular deve aceitar este programa por inteiro e ser deu realizador.
Aqueles que querem impor ao povo seu próprio programa se colocam do lado
dos tontos.
O mesmo povo, nós já vimos, por sua ignorância e desunião, não está em
condição de formular este programa, sistematizar-lo e unir-se em seu
nome. O povo necessita então de ajudantes. Aonde recrutar-lhes? Em todas
as revoluções este problema é o mais difícil. Até agora, em todo o
Ocidente, os auxiliares da revolução procediam das classes privilegiadas
e quase sempre se convertiam em seus beneficiários.neste âmbito também a
Rússia tem mais sorte que o Ocidente. Existe dentro do país uma massa
enorme de pessoas instruída e capaz de pensar, a que ao mesmo tempo lhe
falta totalmente uma situação, carreira e saída: as três quartas partes
ao menos de nossa juventude universitária se encontra precisamente nessa
situação. Os seminaristas, os filhos de camponeses e burgueses, os
filhos de pequenos funcionários e nobres arruinados, mas para que
falar-lhe disso: você conhece esse mundo melhor do que eu. Tomando o
povo como exército revolucionário e a estes últimos como nosso
estado-maior, constitui-se o valioso material da organização secreta.
Mas, esse mundo, é preciso organizar-lo e moralizar-lo. Você, por causa
do seu sistema, o está pervertendo e preparando por dentro a traidores e
exploradores do povo. Recorde que em todo esse mundo há muito pouco
sentido moral, exceto um escasso número de naturezas férreas e de grande
moral, formadas segundo a teoria darwinista em meio de uma opressão
imunda e uma miséria inaudita. Os virtuosos, ou seja, aqueles que amam o
povo, tomam partido pela justiça contra a injustiça e por todos os
oprimidos contra todos os opressores, o são unicamente por causa de sua
própria situação e não por consciência nem vontade. Eleja nesse mundo
cem pessoas aleatoriamente e coloque-as em uma situação que lhes permita
explorar e oprimir o povo: pode-se afirmar sem lugar a dúvidas que lhe
exploraram e oprimiram com plena tranqüilidade. Há, portanto, nas
pessoas, pouca virtude espontânea. Aproveitando a miserável situação que
a faz virtuosa inconscientemente, é preciso despertar, educar e
fortalecer nas pessoas essa virtude involuntária, para que se torne
apaixonada e consciente por meio de uma propaganda constante e pela
organização. Mas você faz exatamente o contrário: ao copiar o sistema
jesuítico, você apaga sistematicamente nas pessoas todo sentimento
humano e todo sentido pessoal da justiça (como se o sentimento humano e
o sentido da justiça pudessem ser impessoais!), você cultiva nelas a
mentira, a desconfiança, a espionagem e a delação, e você conta muito
mais com as pressões exteriores, mediante as quais você enreda, que com
a valentia interior das pessoas. De modo que bastará que modifiquem as
circunstancias para que as pessoas percebam que os temores do Governo
são mais terríveis que o que você lhes infunde, e para que se convertam,
graças a suas lições, em excelentes servidores e espiões das
Autoridades. Em decorrência disso, estimado amigo, agora, seguramente a
maior parte de seus companheiros caídos nas mãos da polícia, sem grande
esforço por parte do Governo e sem tortura, delataram tudo e todos. Esse
fato penoso, se você souber se corrigir, deveria abrir-lhe os olhos e
obrigar-lhe a mudar sua atuação.
Como moralizar esse mundo? Despertando nele franca e conscientemente,
excitando em seu espírito e em seu coração a única e absorvente paixão
da emancipação do povo inteiro e da humanidade. Esta é a religião nova e
única, cuja força move a alma e cria um impulso coletivo salvador. Tal
deverá ser mais a frente o único conteúdo de nossa propaganda. Seu
objetivo imediato: articular a organização secreta, uma organização que
deverá por sua vez constituir uma força popular auxiliar e ser uma
escola prática para a educação moral de todos os seus membros.
Definamos frente a tudo o objetivo, o sentido, a finalidade desta
organização. Em meu sistema, como já o apontei várias vezes, esta não
deve ser o exército revolucionário. Para nós, só existe um exército
revolucionário: o povo. A organização não deve ser nada mais que o
estado- maior desse exército, não a organizadora de sua própria força
senão a do povo, como intermediário entre o instinto popular e o
pensamento revolucionário. E este pensamento só é revolucionário, vivaz,
real e autêntico, quando expressa, enquanto da forma aos instintos
populares moldados pela história. Tentar impor às massas o pensamento da
organização, banal ou alheio a seus instintos, significa querer
subordiná-las a um novo Estado. Por isso uma organização que deseje
sincera e unicamente libertar a vida do povo deve adotar um programa que
seja a expressão integral das aspirações populares. Me parece que o
programa exposto no primeiro número de Narodnoe Dielo [Ação popular]
corresponde totalmente a este objetivo. Não impõe ao povo novas
regulamentações, ordens ou modos de vida, pelo contrário, liberta sua
vontade abrindo amplos horizontes a sua autodeterminação e a sua
organização econômica e social, que deve criar por si mesmo, de baixo
para cima e não de cima para baixo. A organização deve francamente
penetrar-se da idéia que é a servidora, a auxiliar do povo e não sua
dona, em nenhum caso, nem sob nenhum pretexto, nem sequer o do bem
popular.
Uma tarefa enorme corresponde a organização: não só preparar o triunfo
da revolução popular pela propaganda e a união das forças populares; não
só destruir na totalidade, com o poder desta revolução, toda ordem
econômica, social e política existente; senão que, além disso, depois de
viver o triunfo da revolução, no dia seguinte da vitória popular, deve
impossibilitar o estabelecimento de todo poder estatal sobre o povo, até
mesmo um poder que seria em aparência o mais revolucionário, incluindo o
seu. Todo poder, independente do nome que se coloque, inevitavelmente
imporá ao povo sua antiga servidão sob uma nova forma. Nossa organização
deverá, portanto, ser bastante forte e viável para superar a primeira
vitória do povo, o que não é nada fácil, e deverá estar profundamente
penetrada de seus princípios para que não possa esperar que inclusive em
plena revolução não modifique nem seu pensamento, nem seu caráter, nem
sua orientação. O que a de ser esta orientação? Quais serão o objetivo
principal e a tarefa da organização? Ajudar o povo a decidir ele mesmo
sobre a base da igualdade absoluta, uma liberdade humana completa e
universal, sem a menor intromissão de qualquer poder, até mesmo o
provincial ou de transição, quer dizer, sem intermediários de qualquer
sistema estatal.
Somos os inimigos declarados de todo poder oficial, inclusive se é um
poder ultra-revolucionário, de toda ditadura reconhecida publicamente.
Somos anarquistas, socialistas revolucionários. Mas se somos
anarquistas, perguntará você, com que direito queremos atuar sobre o
povo e com que meios o faremos? Rechaçando todo poder. Com que
autoridade, com que força vamos administrar a revolução popular?
Mediante uma força invisível que não terá nenhum caráter público e que
não se imporá a ninguém; mediante a ditadura coletiva de nossa
organização que será tanto mais poderosa quanto ficar invisível, não
declarada e privada de todo direito e sentido.
Imagine-se em pleno triunfo de uma revolução espontânea na Rússia. O
Estado e com ele toda ordem social e política foram aniquiladas. O povo
inteiro se levantou, tornando-se dono de tudo o que necessita e
expulsando a todos seus inimigos. Não há lei nem poder. O oceano da
rebelião rompeu todos os diques. Toda esta massa, que longe de ser
homogênea é, pelo contrário, sumamente diversificada, está cobrindo a
imensa extensão do império russo, começou a viver e atuar por si mesma,
a partir da realidade, e não de algo que se lhe impunha por fora, e o
faz por todos os lugares e a sua maneira: é a anarquia geral. A sujeira
removida, amontoada em grande quantidade no seio do povo, retorna à
superfície. Em determinadas partes surge uma multidão de homens novos,
audazes, inteligentes, sem escrúpulos e ambiciosos que buscam, por
suposto, cada um a da sua maneira, ganhar a confiança do povo para si e
usar-la em proveito próprio. Essas pessoas lutam e se destroem uns aos
outros. É como uma anarquia espantosa e sem saída.
Mas imagine, em meio desta anarquia popular, uma organização secreta que
dispersa seus membros em grupos pequenos por toda a superfície do
império, mas estão firmemente unidos, animados por uma mesma idéia e um
mesmo objetivo, aplicados por todas as partes, de acordo obviamente com
as circunstancias, e segundo um mesmo plano. Estes grupos, que ninguém
conhece como tais, não possuem nenhum poder reconhecido oficialmente.
Mas com a força de seu pensamento, que expressa a própria natureza dos
instintos, desejos e necessidades populares; com a clara consciência de
seu objetivo em meio a uma multidão que luta sem objetivo nem plano; com
a força da inteligência e da energia dos membros que constituem esses
grupos e conseguem unir em torno de si homens mais ou menos apegados a
mesma idéia e naturalmente submetidos a sua influencia, tais grupos, que
não buscam nada para eles próprios, nem proveitos, nem honras, nem
autoridade, estarão capacitados para dirigir o movimento popular contra
todos os ambiciosos, desunidos e opostos uns aos outros, e
encaminhar-los para a realização tão integral como seja possível do
ideal social e econômico, e para a organização da liberdade popular mais
completa. É o que chamo a ditadura coletiva da organização secreta.
Esta ditadura não conhece nem ganância, nem vaidade, nem ambição, porque
é impessoal, invisível e porque não fornece a ninguém daqueles que
compõem os grupos, tampouco aos próprios grupos, nem proveitos, nem
honras, nem reconhecimento oficial de um poder qualquer. Não ameaça a
liberdade do povo dado que, por carecer de qualquer caráter oficial, não
se apresenta como um poder estatal sobre o povo, senão que sua única
meta, definida por seu programa, é conseguir a realização mais completa
das liberdades populares.
Tal ditadura não é absolutamente contrária ao livre desenvolvimento e a
autodeterminação do povo, nem a sua organização desde baixo até acima de
acordo a seus usos e instintos, tendo em vista que trabalha
exclusivamente pela única influencia natural e pessoal de seus membros,
que estão desprovidos de todo poder e dispersos por meio de sua rede
invisível, em todas as regiões, distritos e municípios. Eles se
esforçam, de comum acordo e cada um em seu povoado, para orientar o
movimento revolucionário espontâneo do povo segundo um plano determinado
de antemão e bem definido. Este plano que organiza a liberdade popular
deve ser, primeiro, preparado com bastante solidez e claridade em seus
princípios e objetivos essenciais com o fim de descartar qualquer
possibilidade de desacordo e choques por parte dos membros da
organização que o apliquem. E segundo, deve ser amplo e natural o
bastante para abarcar e aplicar as inevitáveis mudanças procedentes de
circunstancias diversas e movimentos heterogêneos da diversidade da vida
popular.
Assim, toda a questão é como organizar, com os elementos disponíveis e
conhecidos, tal ditadura coletiva secreta e tal força que poderia desde
agora fazer uma ampla propaganda popular, uma propaganda que penetre
realmente dentro das massas; pela força desta propaganda, e também pela
organização do próprio povo, reunir as energias dispersas do povo em um
todo poderoso capaz de destruir o Estado. E segundo, a questão é como se
poderia manter a organização durante o processo revolucionário, sem
perder seu ardor e sem mudar sua orientação no dia seguinte da liberdade
popular.
Tal organização, e em particular seu núcleo central, deve ser integrada
pelas pessoas mais firmes, mais inteligentes e dentro do possível com
instrução (ou seja, uma inteligência com base na experiência), mais
apaixonada, com uma dedicação sem titubeios nem modificações, havendo
renunciado na medida do possível a todo interesse pessoal e rechaçado de
uma vez por todas, em sua vida e até a morte, como sendo uma prisão aos
indivíduos: as comodidades e os gozos sociais, as satisfações da
vaidade, da ascensão social e a fama. Esta gente estaria concentrada
unicamente e inteiramente na única paixão de emancipação do povo, sem
buscar um papel histórico em sua vida ou até de um rastro pessoal na
história depois de sua morte.
Esta abnegação total só é possível com a paixão. Você não estimula a
consciência do dever absoluto, e menos ainda com o sistema de controle
exterior, manipulação e obrigação. Apenas uma paixão pode motivar em um
indivíduo este milagre este poder, sem esforço. De onde procede e como
nasce tal paixão nos indivíduos? Encontra-se na vida e nasce da ação
conjunta do pensamento e da vida; de modo negativo, como ódio e protesto
contra aquilo que existe e oprime; de modo positivo, pela convivência
com aqueles que pensam e sentem de forma similar, como criação coletiva
de um novo ideal. Portanto, tens que entender que esta paixão só é
eficiente, salvadora, quando nela se encontram na mesma medida,
estreitamente vinculada os dois componentes, o negativo e o positivo.
Uma paixão negativa, o ódio, não cria nada, nem sequer a força
necessária para a destruição e, portanto, não destrói nada; a paixão
positiva não quebra nada, dado que a criação do novo é impossível sem
destruir o velho, ela tampouco cria algo, ficando sempre como um sonho
doutrinário ou uma doutrina baseada no sonho.
A paixão profunda, a paixão arraigada e sem vacilações é a base de tudo.
Aquele que não a possui, inclusive se tem uma inteligência muito
elevada, inclusive se é muito honesto, não será capaz de agüentar até o
final a luta contra o terrível poder social e político que nos oprime a
todos. Não será capaz de resistir todas as dificuldades, as
impossibilidades e, sobretudo, as decepções que lhe esperam e com as
quais chocará sem dúvida nenhuma durante esta luta desigual e diária. O
homem sem paixão não terá nem força, nem fé, nem iniciativa, nem
valentia, e sem valentia tal obra não se cumpre. Mas a paixão sozinha
não basta; a paixão engendra energia, porém, a energia sem uma direção
clara resulta estéril e absurda. Por isso, da mesma forma que a paixão,
faz falta a razão fria, calculadora, realista, prática frente a tudo, e
também teórica, conformada amplamente pela conhecimento e a experiência;
sem perder de vista nenhum detalhe; capaz de compreender as pessoas e
diferenciar-las, captar a realidade, as relações, as condições da vida
social em todas suas camadas e manifestações, seu verdadeiro aspecto e
sentido, não com o sonho e de modo arbitrário, como se faz amiúde, meu
amigo, e você em especial. É necessário, por fim, conhecer bem a Rússia
e a Europa, sua verdadeira situação política e social, assim como o
estado de espírito em uma e outra parte. Quer dizer que a paixão
própria, sendo sempre o elemento principal, deve guiar-se com a razão e
o conhecimento, deve deixar de agitar-se, e sem perder sua chama
interior e sua inquebrantável firmeza, converter-se em uma paixão fria
e, por isso, mais forte.
Tal é o ideal do conspirador convocado a formar parte do núcleo da
organização secreta.
Você me perguntará aonde encontrar semelhante pessoa, se existem muitas
na Rússia e inclusive em toda a Europa. Nesse assunto, em meu sistema,
não é necessário que tenhamos muitos membros. Lembre-se que você não
deve organizar o exército, apenas o estado-maior da revolução. Pessoas
assim, estão quase totalmente preparadas. Talvez você encontre dez. Das
capazes de ser-lo e que já estão preparadas para isso, no máximo
cinqüenta ou sessenta, e ao olho de bom cubero é bastante. Você mesmo,
estou profundamente convencido disso, apesar de todas suas torpezas,
seus erros lamentáveis e funestos, apesar de todas as suas superstições
vulgares e burras, dentro de um sistema tão mentiroso, você não tem de
forma nenhum ambição pessoal, vaidade ou ambição (como muitos, muitos
mesmo, tendem a acreditar). Você mesmo, de quem terei que separar-me e
com quem decidi romper, se você não renunciar a esse sistema, você
mesmo, forma parte destas pessoas tão pouco numerosas. Esta é a única
razão de meu afeto por você, de minha confiança com você apesar de tudo,
de minha larga paciência, que, contudo está por acabar-se. Pese os seus
terríveis defeitos e reflexões insuficientes, vejo e reconheço em você
uma pessoa inteligente, firme, enérgica, capaz de trabalhar com sangue
frio, apesar da inexperiência e da ignorância, pese muitas vezes o uso
de embustes, com uma total abnegação e apaixonadamente, profundamente
apegado e entregue a causa da emancipação do povo. Retire de você seu
sistema e tornar-se-á um ser valioso. Se você não o quer tirar, se
converterá seguramente em um ser perigoso e sumamente destruidor, não
para o Estado, senão para a causa da liberdade. Porém, tenho a grande
esperança de que os últimos eventos ocorridos na Rússia e no estrangeiro
tenham-lhe aberto os olhos, e de que deseja e acredita ser
imprescindível estendermo-nos a mão sobre bases sinceras. Então, eu
repito, veremos em você uma pessoa valiosa e reconheceremos com alegria
como nosso chefe para todas as atividades na Rússia. E se você é
realmente um homem dessa natureza, então sem nenhuma dúvida encontrará
na Rússia pelo menos dez homens como você. Se não os possui, busque e os
encontrará e forme com nós uma nova associação sobre as bases e as
seguintes condições recíprocas:
1) Reconhecimento completo, inteiro e apaixonado do programa ,
mencionado mais acima, de Narodnoe Delo (Ação Popular), com os
complementos e esclarecimentos que lhe pareçam necessários;
2) Igualdade de direitos de todos os membros e solidariedade
incondicional e absoluta – um por todos e todos por um -, com a
obrigação de todos e de cada um em ajudarem, sustentarem e salvar cada
membro até a última possibilidade, dentro do que é factível, sem por em
perigo a própria existência da associação;
3) Sinceridade absoluta entre os membros. Exclusão de todo jesuitismo
nas relações, a desconfiança ruim, o controle pérfido, a espionagem e as
delações recíprocas, ausência e proibição terminante de rumores e
indiretas. Quando um filiado tem algo a reprovar a outro, deve fazer-lo
na assembléia geral e em sua presença. Controle fraterno coletivo de
cada um por todos, controle em nenhum caso incômodo, mesquinho e,
sobretudo malévolo, do qual deve substituir seu sistema de controle
jesuítico, e deve fazer-se com a educação moral, com o pilar da força de
cada membro, com base na confiança fraterna mútua, na qual se fundará
toda a força interior e, portanto exterior da associação;
4) Ficam excluídos da associação todos os nervosos, medrosos, vaidosos e
ambiciosos. Podem servir, sem eles saberem, como instrumento da
associação, mas não devem absolutamente formar parte do núcleo da
organização;
5) Ao aderir à associação cada membro se condena para sempre a não ser
conhecido nem se destacar. Toda sua energia e sua inteligência pertencem
a associação e devem tender, não a criar sua força social pessoal, senão
a força coletiva da organização. Cada um deve convencer-se que o
prestígio individual é impotente e estéril e que apenas a força coletiva
poderá derrubar o inimigo comum e alcançar o objetivo positivo comum.
Por isso, as paixões individuais de cada filiado deverão ir-se apagando
frente a paixão coletiva;
6) A inteligência individual de cada um se perde, como a um rio no mar,
na razão coletiva, e todos os membros obedecem absolutamente as decisões
desta;
7) Todos os membros são iguais em direitos, conhecem todos seus
companheiros e com eles discutem e decidem todas as questões essenciais
com relação ao programa da associação, assim como sua atividade geral e
seu andamento. A decisão da assembléia geral é uma lei absoluta;
8) Cada filiado possui de fato o direito de informar-se de tudo. Porém,
se descarta toda curiosidade trivial na associação, assim como os
comentários ocos sobre a atividade e os objetivos da associação secreta.
Informado do programa comum e da orientação geral da ação, nenhum membro
pedirá nem tratará de conseguir detalhes desnecessários para a boa
execução daquilo que ele está encarregado; e sem necessidade prática não
falará a nenhum companheiro seu da tarefa que lhe foi encomendada;
9)A associação elege entre seus filiados um Comitê executivo de três ou
cinco membros que, sobre a base do programa e do plano geral de
atividade adotado pela mesma, deve organizar sua ramificação e dirigir
seu trabalho por todas as regiões do império;
10) Este Comitê é eleito por um período ilimitado. Se a associação, que
penso chamar de Fraternidade Popular, se a Fraternidade Popular está
satisfeita com a atividade do Comitê, o mantenha em suas funções, e
enquanto as exerça, cada membro da Fraternidade Popular e cada grupo
regional devem obedecer-lhe de forma absoluta, exceto nos casos em que
as ordens do Comitê contradigam o programa geral, os princípios
fundamentais, ou o plano conjunto de ação revolucionária, conhecidos por
cada um tendo em vista que todos os irmãos participam em igual medida na
avaliação e nas decisões;
11) Neste caso, os membros e os grupos devem deixar de executar a ordens
do Comitê e processar-lo frente a assembléia geral da Fraternidade
Popular. Se a assembléia não está satisfeita com o Comitê, sempre poderá
substituir-lo por outro;
12) Cada membro, assim como cada grupo, ser julgado pela assembléia
geral da Fraternidade Popular;
13) Posto que cada irmão está informado de tudo, inclusive da composição
do Comitê, a admissão de todo membro novo deve ir de mãos dadas com a
maior cautela, reflexão e restrição, uma só má eleição pode arruinar
tudo. Nem um novo aderente será admitido de outro modo que com o acordo
de todos os irmãos ou em última instancia e de nenhuma maneira com menos
que as três quartas parte dos membros do conjunto da Fraternidade
Popular;
14) O Comitê divide os membros por região e forma grupos ou comandos
regionais. No caso de haver um número insuficiente de membros, tal
comando ficará reduzido a um único irmão;
15) O comando regional está encarregado de constituir uma associação de
segundo grau – a Fraternidade Regional – sobre a base do mesmo programa,
das mesmas regras e do mesmo plano revolucionário;
16) Todos os membros da Fraternidade Regional se conhecem uns aos
outros, porém, desconhecem a existência da Fraternidade Popular. Apenas
sabem que existe um Comitê Central que lhes transmite suas ordens para
serem executadas através do Comitê Regional, designado pelo Comitê
Central;
17) O Comitê Regional está constituído, dentro do possível, apenas de
irmãos populares designados e substituídos pelo Comitê Central, ou em
última instancia de um único irmão popular. Neste caso, este designa,
com o acordo do Comitê Central, os dois melhores membros da Fraternidade
Regional e forma com eles o Comitê Regional. Porém, não existe igualdade
entre todos os membros dado que só o irmão popular está em contato com o
Comitê Central, do qual lhe transmite as ordens de seus companheiros do
Comitês Regional;
18) O ou os irmãos populares que se encontrem nas regiões, buscam na
Fraternidade Regional as pessoas capazes e dignas de serem admitidas na
Fraternidade Popular apresentando-as à assembléia geral da mesma e
através do Comitê Central;
19) Cada comitê regional organiza Comitês de Distrito compostos de
membros da Fraternidade Regional, nomeados e substituídos pelo Comitê
Regional;
20) Os comitês de Distrito podem fundar, em caso de necessidade, mas não
sem a aprovação do Comitê Regional, uma organização de terceiro grau, a
Fraternidade de Distrito, cujo programa e estatutos deverão se aproximar
o máximo possível ao programa geral e aos estatutos da Fraternidade
Popular. O programa e os estatutos da Fraternidade de Distrito só serão
vigentes depois de ser discutidos e aprovados pela assembléia geral da
Fraternidade Regional e confirmados pelo Comitê Regional;
21) O controle jesuítico, o sistema de manipulação policial e de
mentiras estão excluídos decididamente dos três graus da organização
secreta, assim como as Fraternidades Regionais, de Distrito e da
Fraternidade Popular. A força do conjunto da associação, da mesma forma
que a moral, a lealdade, a energia e a dedicação de cada membro se
fundam exclusiva e inteiramente na verdade, na franqueza e na confiança
recíprocas e no controle fraterno aberto de todos por cada um.
Assim são os grandes traços do plano da associação como a entendo. Desde
logo, este plano deve ser desenvolvido, completado, algumas vezes
modificado de acordo às circunstâncias e a índole do meio, e até
definido de modo muito mais claro. Porém, estou convencido de que o
essencial deve manter-se se você deseja criar de verdade uma força
coletiva capaz de servir a causa da emancipação do povo, e não uma nova
exploração deste.
Os sistemas de manipulação e de mentira jesuíticos excluem-se totalmente
desse plano, por ser meios e princípios nocivos, dissolventes e
degradantes. Porém, fica também excluídos o palavrório parlamentar, a
agitação por vaidade. Se observa uma estrita disciplina de todos os
membros para com os Comitês e todos os Comitês locais em relação ao
Comitê Central. O juízo e o controle dos membros pertencem as
Fraternidades e não aos Comitês. O novo poder executivo está nas mãos
destes últimos. O direito de julgar os Comitês, incluindo o Comitê
Central, pertence unicamente a Fraternidade Popular.
A Fraternidade Popular, em meu plano, nunca terá mais de cinqüenta a
setenta membros. No início é possível que não haja mais que dez filiados
e inclusive menos, logo se irá estendendo, de um a um, e submetendo a
cada um a um exame prévio sumamente minucioso, dentro do possível, com a
admissão por decisão unânime de todos os membros da Fraternidade Popular
ou no mínimo das três quartas partes destes. Não é possível que em dois
ou três anos não se encontre trinta ou quarenta homens capazes de serem
irmãos populares.
Represente você a Fraternidade Popular em toda a Rússia, com quarenta ou
a lo sumo setenta membros. Logo algumas centenas de membros da
organização de segundo grau – os irmãos regionais -, e cobrirá toda a
Rússia com uma rede realmente poderosa. Sua plana maior está formada, e
como já se disse, nela se assentam, ao mesmo tempo que uma extrema
prudência e a expulsão de qualquer palavrório e charlatanismo
parlamentar, a verdade, a franqueza e a confiança recíprocas e, por fim,
a solidariedade real, como elementos de moralização e de união.
A associação inteira forma um corpo, um todo sólido unido, dirigido pelo
Comitê Central e leva uma guerra subterrânea permanente contra o Governo
e contra as organizações que a combatem ou que simplesmente trabalham
fora dela. E aonde existe guerra, existe política, aí se impõe a
violência, a astúcia e a manipulação.
As associações com objetivos próximos aos nossos devem ser pressionadas
para que se unam a nós ou, pelo menos, a ficarem-nos subordinadas, sem
que o saibam e afastando todos os elementos nocivos. As associações
contrárias e propriamente nefastas devem ser anuladas. Por fim, o
Governo deve ser aniquilado. Tudo isso não se fará pela mera propaganda
da verdade; a astúcia, a diplomacia, a mentira serão necessárias. Ali o
jesuitismo e até a manipulação tem o seu lugar; a manipulação é um bom e
excelente meio para caracterizar e aniquilar o inimigo, porém, ela não é
absolutamente um modo útil para ganhar e atrair novos filiados.
Assim, na base de nossa atividade, deve haver esta simples lei: verdade,
honestidade, confiança entre todos os irmãos e com toda pessoa capaz e
que queira filiar-se. A mentira, a manipulação e, se lhe faz falta, a
violência, são contra os inimigos. Trabalhando desse modo você
moralizará, potencializará e unirá mais estreitamente os seus, e você
destruirá e anulará as relações e as forças alheias.
Quanto a você, meu estimado amigo, - e é seu principal, seu imenso erro
-, você se deixou seduzir pelo sistema de Loyola e de Maquiavel, o
primeiro se propunha escravizar a humanidade inteira, o segundo criar um
poderoso Estado (monárquico ou republicano, pouco importa), ou seja, a
escravidão do povo. Com seu gosto pelos princípios e os procedimentos
jesuíticos e policiais, você pensou fundar neles sua própria
organização, sua força coletiva secreta, a alma – para dizer assim – de
toda sua associação. Em conseqüência, você trabalha com seus amigos como
se fossem inimigos: trampea com eles, mente, se esforça para
separar-los, inclusive que criem inimizades entre eles, de modo que não
possam unir-se contra sua tutela. Você busca a força, não para a união
deles, senão a desunião, e não confiando absolutamente neles, tenta
conseguir contrariamente a eles fatos, cartas, que por sinal você lê sem
estar autorizado e até rouba. Sempre os enreda por todos os meios
possíveis para que dependam de você como escravos. Para piorar, você faz
isso de modo tão torpe, tão desajeitado, indiscutível, imprudente e
irreflexivo, que todas suas manipulações, suas artimanhas e esquemas
aparecem rapidamente em plena luz. Impregnou-se tanto de jesuitismo que
se esqueceu de todos os demais, se esqueceu até mesmo do objetivo e do
desejo apaixonado que lhe atraiu a emancipação do povo. Tanto se
impregnou de jesuitismo que está disposto a predicar-lo como
imprescindível a todos, até a Sukovski. Você quis inclusive dedicar
artigos e encher com seus ensinamentos o Kolokol, recordando o refrão
Suvorov: “Graças a Deus, não é certo o que todos pensavam ser”. Em uma
palavra, você se pôs a jogar com o jesuitismo, como uma criança com
futilidades ou Utin com a revolução.
Vejamos o que você alcançou e conseguiu fazer em Genebra com a ajuda de
seu sistema jesuítico. O fundo Bajmetev lhe foi entregue. Esse é o único
resultado real e importante que conseguiu. Porém, Ogarev lhe transmitiu
este fundo e eu lhe aconselhei com vigor para que o fizesse, não porque
você se comportara de modo jesuítico, senão porque, apesar do seu
jesuitismo demasiado simplista, ambos sentimos e reconhecemos em você a
um homem profundo, ardente e seriamente dedicado a causa russa. Porém,
saiba – e é de minha parte uma amarga constatação – que quase começo a
me arrepender de haver aconselhado a Ogarev a lhe entregar este fundo,
não porque penso que você poderá empregar-lo de modo desonesto e com
finalidades pessoais – me preservem todos os santos de tão vil idéia e
realmente absurda, e eu quero morrer se penso que você possa usar sequer
um centavo para você mesmo –, não, começo a arrepender-me porque,
observando todos seus atos, eu deixei de acreditar em sua maturidade
política, em sua seriedade e na existência de seu Comitê e de toda sua
associação. A quantia não é enorme, mas é o que tínhamos e vai ser
desperdiçada em vão, de modo inútil, descarado, em tentativas
disparatadas e impossíveis.
Mas com essa quantia reduzida e a ajuda de poucas pessoas,
expressando-lhes com muita sinceridade sua intenção de servir a causa
russa comum, sem exigências nem pretensões, sem vaidade nem presunção,
teria podido fazer não poucas coisas úteis em Genebra. Você poderia ter
criado um órgão serio, com um programa francamente social revolucionário
e associado ao periódico, um Birô no estrangeiro para a condução de
nossa ação fora da Rússia, com certa autonomia ainda que não
absolutamente completa, mas não obstante real. Foi com esse fim que fui
chamado a primeira vez a Genebra por seu comitê, quer dizer, por você. E
o que encontrei em Genebra? Primeiro o programa deformado do Kolokol, do
qual o Comitê e você pediam diretamente absurdos e feitos impossíveis.
Você sabe que posso admitir a debilidade que me induziu a ceder a você
nesta questão. Vou ter que responder por este infeliz Kolokol e em geral
por minha solidariedade com você frente a todos meus amigos
internacionais, por uma parte, por causa de Utin, e por outra, de
Sukovski, que, o primeiro com seu ódio, o segundo com sua boa vontade,
nos vão caluniando.
A propósito de Sukovski: você lhe demonstrou seu grande desconhecimento
e incompreensão das pessoas e sua incapacidade de as atrair para sua
causa com uma atitude direta, honesta quer dizer, forte. Conhecendo
muito bem Sukovski lhe havia descrito em detalhes o seu caráter, suas
capacidades e incapacidades, de modo que lhe seria fácil incitar-lhe a
estabelecer relações sérias com você. Apresentei-lhe ele como um homem
muito bom, capaz, longe de ser idiota, ainda que sem espírito de
iniciativa, mas assimilando bem as idéias alheias e podendo propagá-las
e difundir-las com bastante eloqüência, mais pela palavra que pelo
papel. É um homem impressionante como um artista, devotado com bastante
força a uma tendência, mas falta-lhe caráter na medida em que não gosta
do perigo, frente a uma oposição categórica cede facilmente as
influências mais diversas. Em uma palavra, é um homem muito capaz de
levar a propaganda, mas de nenhuma maneira para formar parte de uma
associação secreta. Você deveria ter acreditado em mim e não acreditou,
e ao invés de ganhar Sukovski para nossa causa, você o afastou de você e
de mim. Você tentou enrolar-lhe, enganar-lhe, para que se convertesse em
seu escravo. Com este fim você se colocou a criticar-me, rir de mim, mas
houve em Sukovski um espírito de honestidade que se rebelou. Me contou
tudo o que você lhe disse de mim, com indignação e repugnância, e se eu
fosse mais orgulhoso e mais fraco, haveria bastado isso para que eu
rompesse minha relações com você. Se lembrará que me contentei em
repetir-lhe, sem comentários, as palavras de Sukovski. E você nada
respondeu e não me pareceu útil prosseguir a conversa. Logo que você
expôs a Sukovski sua teoria preferida de comunismo estatal e de
jesuitismo policial, e o afastou definitivamente de você. Por fim, houve
as miseráveis fofocas de Henry que fizeram de Sukovski seu inimigo
mortal, e não só seu, pode-se dizer que meu também. E, no entanto,
apesar de todos seus pontos débeis, Sukovski poderia ter sido útil.
Reconheço também, estimado amigo, que seu sistema de chantagem, de
armadilha e intimidação com Tatá, me revoltaram extremamente, já expus
isso diversas vezes. O resultado é que você lhe infundiu uma profunda
desconfiança para todos nós e o sentimento que você e eu tínhamos a
intenção de explorar seus recursos, extrair-los, desde logo, não para a
causa, mas para nós mesmos. Tatá é, em toda a acepção do termo, uma
pessoa honesta e sincera, mas incapaz, ao meu ver, de dedicar-se por
inteira a seja o que for. É, portanto, uma diletante, não por natureza,
senão por mentalidade, diletante tanto do ponto de vista moral como
intelectual, mas se pode confiar em sua palavra e era possível que se
convertesse, senão em nossa amiga, pelo menos em uma companheira fiel.
Você tinha que portar-se com ela franca e lealmente, sem buscar
estratagemas em que você acreditar retirar sua força. Mas que revelam
sua debilidade. Enquanto acreditei possível e útil falar com ela direta
e francamente para atuar sobre seu livre pensamento, o fiz. Não quis ir
mais longe com você, estava com asco. E só quando por você me informei
que Natalia Alekseevna propagava calúnias sobre mim, afirmando que eu
pegava o dinheiro de Tatá e quando vi que esta estava perplexa, me
afastei dela decididamente.
A propósito, você me afirmou muitas vezes que havia sabido por Tatá que
Natalia Alekseevna e Tchórzewski gritavam por todas as partes, contavam
a todos, escreviam que eu buscava aproveitar os recursos de Tatá. Mas
Natalia Alekseevna e Tchórzewski afirmam pelo contrário que não disseram
nunca a ninguém ou escreveram semelhante coisa e Tatá me confirmou isso.
Durante minha última estadia em Genebra, você disse saber por
Serebrennikov (Sêmen) que Sukovski havia declarado a este último que eu
explorava Tatá. Fiz a pergunta a Serebrennikov e soube que Sukovski lhe
falou de você e não de mim. Você me contou também que a mulher de
Sukovski lhe havia pedido que você se unisse a Utin, afirmando-lhe que
toda aliança comigo era inútil, impossível e doentia. Porém ela disse o
contrário: não lhe falou de mim, não lhe propôs que fosse com Utin, com
quem me disse que havia rompido mais ou menos, e não foi ela senão você
quem lhe propôs buscar fundos para unir-se, e é você que esperava ditos
fundos.
Você já consegue ver quanto a mentira insensata é inútil e como sai
facilmente a luz. Confesso que desde minha primeira viagem a Genebra foi
uma forte decepção e quebrou minha confiança em sólidos vínculos e em
uma ação com você. Sobre o assunto pelo qual havia sido chamado a
Genebra e que era a única razão da minha viagem, não intercambiamos nem
uma só palavra concreta. Varias vezes comecei a orientar a conversa
sobre o birô no estrangeiro e você a evitou. Você esperava não sei que
resposta definitiva do Comitê que nunca chegou. Acabei por ir embora
depois de remeter através de você cartas ao Comitê (na qual pedia que se
expusesse e precisasse claramente o assunto pelo qual me haviam chamado)
e declarei estar firmemente decido a não voltar a Genebra enquanto não
recebesse uma resposta satisfatória.
Em maio você voltou a me chamar a Genebra. Me neguei várias vezes a
fazer a viagem, no fim eu fui. Este último passo confirmou todas minhas
dúvidas e arruinou minha confiança na lealdade e na veracidade de sua
palavra. A conversa na minha presença entre você e Lopatin, na mesma
tarde da minha chegada, as acusações precisas, duras deste contra você,
com uma confiança que não deixava lugar a nenhuma dúvida sobre a
veracidade de suas palavras, que convertiam as suas em outras tantas
mentiras. Sua recusa completa de todos os detalhes que figuram no relato
de sua evasão tal como você a publicou, suas acusações diretas contra os
companheiros mais próximos de você, acusações escritas, que Lopatin,
segundo as palavras de você, que me confirmou mais tarde, teve a
oportunidade de ler, particularmente seu desprezo pelas atuações,
manobras e denuncias totalmente inúteis de Pryzov, que sempre me pintou
como um de seus melhores e mais firmes companheiros. Por fim, a negativa
direta e decidida de Lopatin da existência de seu Comitê nesses termos:
“Nechayev pode lhe contar isso, porque você está longe da Rússia. Porém,
não tentará repetir-lo frente a mim, por saber muito bem que estou
interado de tudo e que conheço todos os grupos, as pessoas, as relações
entre uns e outros e o que passou lá. Você vê que com seu silencio
confirma a exatidão de tudo o que lhe disse sobre sua evasão, cujos
melhores detalhes e circunstancias ele sabe que os conheço muito bem,
assim como seus companheiros e seu Comitê fictício”. De fato, a tudo
isso você respondeu com o silêncio e nem sequer tratou de defender nem a
si mesmo, nem a nenhum de seus companheiros, nem sequer a realidade de
seu Comitê.
Lopatin triunfava e você frente a ele afundava. Não podia dizer-lhe,
estimado amigo, quanto me era penoso por você e por mim. Eu já não podia
colocar em dúvida a verdade das palavras de Lopatin. Significava que
você havia mentido sistematicamente para nós. Significava que toda sua
ação estava encharcada, apodrecida pela mentira e baseada em areia.
Significava que seu Comitê era unipessoal, pelo menos para as três
quartas partes, com dois, três ou quatro companheiros em suma que lhe
ficam submetidos ou sobre quem você exerce uma influência predominante.
Toda a ação pela qual você deu sua vida se desmoronou, se esfumaçou por
causa de uma orientação mentirosa e burra de seu sistema jesuítico, que
rebaixou você e mais ainda seus companheiros. Eu o quero profundamente e
sigo querendo, tinha por você uma grande, muito grande confiança e ao
ver-lhe em tal situação, na humilhação frente a este charlatão do
Lopatin, senti uma indescritível amargura.
Me era doloroso, e por mi mesmo. Incitado pela confiança em você, lhe
entreguei meu nome e me solidarizei publicamente com sua ação. Tentei
com toda minha energia atrair a simpatia de Ogarev e a confiança dele
para sua empresa. Lhe aconselhei sempre que lhe entregasse o Fundo em
sua totalidade. Ganhei-lhe a Ozerov e fiz de tudo para convencer Tata
para que se somasse a nós, ou seja, a você, e que se entregasse por
inteira a ação. Por fim, contra minha convicção, convenci a Ogarev que
publicasse Kolokol com base em seu programa fantasioso, absurdo,
impossível. Em uma palavra, confiando em você sem reserva, quando você
me enganava sistematicamente, me portei como um tonto rematado (o que é
tão amargo quanto vergonhoso para um homem como eu, dada minha
experiência e minha idade) e, o que é pior, comprometi minha posição
frente a causa russa e a causa internacional.
Quando Lapatin saiu eu lhe perguntei: “Ele disse a verdade? Será
possível que tudo o que você me disse tinha sido só mentira?” Você
desviou a resposta. Era tarde. Fui embora. E todas as conversações e
discussões do dia seguinte com Lopatin me convenceram que ele dizia a
verdade. Você ficou em silêncio. Eu esperava o resultado de seu último
encontro com ele, você não me comunicou. Porém acabo de tomar
conhecimento por cartas de Lopatin que Ozerov lhe lerá.
O aprendizado me basta para tomar medidas contra novas tentativas suas
de explorar a mim e a meus companheiros. Em conseqüência, escrevi um
ultimato que lhe li rapidamente na casa dos turcos e me pareceu que você
o aceitava. Desde este encontro, não nos voltamos a ver.
Ao fim, recebi anteontem uma carta que Lopatin que me ensinou dois
tristes fatos: primeiro, você mentiu... (não vou empregar superlativo)
contando-me sua conversa com ele. Tudo o que você me disse era pura
mentira. Não lhe disse que lhe devolvi as cartas de Liubavin, e
tampouco; “O velho não resistiu a prova, agora é nosso prisioneiro, já
não pode fazer nada contra vocês...”; a isto você lhe havia respondido:
“Se Bakunin teve a debilidade de devolver as cartas de Liubavin, temos
outras delas, etc.” Você mentiu, caluniou Lopatin, você me enganou
deliberadamente. Lopatin se assombra que eu tenha podido acreditar em
você e com palavras corteses tira conclusões pouco lisonjeiras sobre
minhas capacidades mentais. Não esta equivocado, nesse caso eu fui
completamente burro. Porém não teria me julgado com tanta severidade se
ele soubesse como eu lhe quis e acreditei com paixão e ternuras
profundas! Você decidiu arruinar tal confiança, pior para você. Eu
poderia supor que um homem inteligente e dedicado a causa, como você
parecia aos meus olhos, apesar de tudo o que ocorreu, podia eu imaginar
que você poderia mentir de modo tão descarado e estúpido frente a mim,
quando minha dedicação não lhe deixava lugar a dúvidas? Como não passou
pela sua cabeça que sua insolente mentira viria a tona e que eu pediria,
deveria pedir explicações a Lopatin, quanto mais que em meu ultimato se
dedicava a necessidade de tratar com plena caridade o assunto Liubavin?
O segundo fato: Liubavin não recebeu minha resposta a sua carta
descarada; por tanto, tampouco tive o recibo adjunto. Quando mostrei a
você minha resposta e o recibo, você me pediu que esperasse e que não o
enviasse. Eu lhe rechacei e então você se encarregou de entregar minha
carta e você não o fez. Basta com tudo isso Nechayev, acabaram nossas
antigas relações e nossos compromissos recíprocos. Você mesmo os
destruiu. Se você acreditou e acredita ainda me obrigar e me enrolar
moral e materialmente, está muito equivocado. Nada no mundo pode me
prender contra minha consciência, minha honra, minha vontade, minha
concepção e meu dever revolucionários.
É verdade que no plano financeiro, me encontro hoje, dependo de você, em
uma situação muito difícil. Não tenho meios de existência e minha única
fonte de renda – a tradução de Marx e a esperança de poder receber
outras obras literárias – agora se esgotou. Não tenho um centavo e não
sei como sairei desse apuro, mas esta é a última das minhas
preocupações.
A verdade é que me equivoquei frente a meus companheiros e fico meio
paralisado agora. Estão chovendo calúnias sobre mim pelo Fundo, a
história com Liubavin, com Tatá, em fim, por tudo o que ocorreu
ultimamente na Rússia.
Mas tudo isso não me vai fazer parar. Estou disposto, se for necessário,
a confessar minha insensatez e arrependimento publicamente. Seguramente,
será para mim uma vergonha grande, mas que me recomporá. Não serei mais
seu aliado forçado.
Declaro-lhe decididamente, portanto, que todas minhas relações até agora
insalubres com você e todos meus laços com sua ação se romperam. Porém,
rompendo-os, lhe proponho estabelecer entre nós novos vínculos sobre
outras bases.
Lopatin, que não lhe conhece tão bem como eu, se estranharia com tal
proposta de minha parte depois de tudo o que passou entre nós. Não será
uma surpresa para você nem para meus companheiros mais próximos.
Sem dúvida alguma, você fez muitas burrices e sujeiras realmente
prejudiciais e desastrosas para a própria causa. Porém, é claro para
mim, que todos seus atos estúpidos e suas tremendas burradas não tinham
como meta nem o interesse pessoal, nem a ganância, nem a vaidade ou o
amor próprio, senão unicamente sua falsa concepção da ação. Você tem uma
dedicação apaixonada e poucos existem como você, daí sua força, sua
valentia, seu direito. Você e seu Comitê (se ele existe de verdade)
estão cheios de energia e dispostos a cumprir sem frases ocas quando
acreditam ser válido para a causa, e isto é valioso. Porém, ao seu
Comitê e a você mesmo lhes falta equilíbrio, isso é evidente agora. Como
crianças, vocês se agarraram ao sistema jesuítico vendo nisto toda sua
força, seu êxito e sua salvação. Vocês esqueceram-se do essencial e do
objetivo da associação: emancipar o povo não apenas dos dirigentes,
senão de vocês mesmos. Por adotar esse sistema, vocês levaram-no a
extremos monstruosos e estúpidos, pervertendo e desonrando a associação
no mundo inteiro; com esquemas muito torpes e absurdos incríveis, tal
como suas cartas de ameaças a Liubavin, a Natalia Alekseevna, e sua
longa e amável paciência com Utin (quando este nos estava difamando
fortemente a todos com insolência), assim como seu nefasto programa
comunista e um montão de manipulações sem-vergonhas. Tudo isso
testemunha uma ausência completa de inteligência, saber e conhecimento
dos indivíduos, das relações e das coisas. Portanto, é impossível, ao
menos neste momento, contar com sua razão, apesar de você ser sumamente
inteligente e capaz de adquirir mais juízo ulteriormente, mas isso é uma
esperança para o futuro. Para o presente, você se mostrou torpe e
ridículo como uma criança.
Firmada definitivamente minha convicção, estou na seguinte situação:
Suas palavras, suas afirmações e suas promessas ocas, sem conformação
com os fatos, agora não vou acreditar nelas por saber que para você não
importa mentir se lhe parece útil a causa. Tampouco acredito no você vê
como justo e racional, porque você e seu Comitê me deram muitas provas
de insensatez. Porém, se nego sua visão da realidade e das
possibilidades, não rechaço sua energia e sua dedicação absoluta à
causa, vejo que neste âmbito, poucos homens existem na Rússia como você.
Era isso, repito mais uma vez, é a principal e inclusive a única razão
de meu afeto por você e de minha confiança. Até hoje tenho a convicção
de que você é – mais que todos os outros russos que conheço – capaz e
chamado a servir a causa revolucionária russa, unicamente, logicamente,
se quiser e puder modificar todo seu sistema de atividade na Rússia e no
estrangeiro. Se você não o quiser modificar, se converterá
inevitavelmente, em razão das qualidade de fazem a força, em um homem
eminentemente perigoso à causa.
Com essas considerações, e apesar de tudo o que passou entre nós,
desejaria não apenas estar unido a você, senão que estar ainda de modo
mais estreito e firme, supondo, naturalmente, que você modifique por
completo de sistema e coloque como base de nossas futuras relações a
confiança mútua, a franqueza e a verdade. Caso contrário, nossa ruptura
é inevitável.
Agora vêm minhas condições de ordem pessoal e geral. Começo pelo
pessoal:
1) Você me colocará fora de cena e reconhecerá que não tenho nada a ver
com a história com Liubavin; e escreverá uma carta coletiva a Ogarev,
Tata, Ozerov e a S. Serebrennikov, na qual você declarará, de acordo com
a verdade, que eu ignorava tudo na carta do Comitê e que foi escrita sem
meu conhecimento e contra minha vontade;
2) Que você leu minha resposta a Liubavin a qual estava anexada o recibo
de 300 rublos, e que, encarregado de deixar a carta no Correio, deixou-a
ou não na caixa de correio;
3) Que nunca tive direta e indiretamente uma intervenção na gestão do
Fundo Bajmetev. Que você recebeu a totalidade do Fundo em datas
distintas, primeiro das mãos de Herzen e Ogarev, depois, a maior que
sobrou, de Ogarev que, depois da morte de Herzen era o único com o
direito a administrar-lo, e que você o aceitou em nome do Comitê do qual
você era o representante;
4) Se você ainda não deu recibo a Ogarev pela entrega do Fundo, você
deverá lhe dar;
5) Você deverá devolver o quanto antes a mensagem de Danielson, pelo
nosso intermediário e o de Lopatin. Se não está em suas mãos (mas tenho
certeza que está com você), você se comprometerá nesta mesma carta a
enviarnos o mais rapidamente possível;
6) Você abandonará as tentativas, que não levam a nada e que são
indignas para a causa, de aproximação e reconciliação com Utin, que a
ambos nos calunia assim como a todos os seus em Rússia de um modo
sumamente repugnante. Ao contrário, você se comprometerá, escolhendo a
hora e a ocasião para não prejudicar a causa, para combater-lo
abertamente.
Estas são as minhas condições: a recusa de um desses pontos, e em
particular dos inço primeiros e da primeira metade do sexto, ou seja, o
fim de todas as relações com Utin, será para mim um motivo suficiente
para romper qualquer vínculo com você. E tudo isso você deve cumprir de
modo amplo, direto, honesto, sem mal-entendidos mesquinhos, reticências,
alusões e equívocos. Já é hora que tenhamos um jogo limpo.
Agora vêm as condições globais:
1) Sem dar os nomes, que não necessitamos, nos mostrará a situação real
de sua organização e sua ação na Rússia, suas esperanças, sua
propaganda, seu movimento, sem exageros e enganos;
2) Extinguirá de sua organização qualquer uso de sistema policial e
jesuítico, conformando-se em aplicar-lo somente em casos de necessidade
prática extrema, principalmente com sensatez, apenas contra o governo e
os partidos inimigos;
3) Você deixará o pensamento absurdo que se pode fazer a revolução fora
do povo e sem a participação popular, e tomará como base de toda sua
organização a revolução popular espontânea, em que o povo será o
exército, e a organização unicamente a estado-maior;
4) Adotará como base da organização o programa social revolucionário
exposto no primeiro número de Narodnoe Delo [Ação Popular], o plano de
organização e de propaganda revolucionária apresentado por mim em minha
carta, com os acréscimos e as modificações que juntos em assembléia
geral consideremos necessárias;
5) Tudo o que adotemos em discussão comum e decisões unânimes, será
submetido a você e a todos seus companheiros em Rússia e no estrangeiro.
Se rechaçarem nossas decisões, você terá que determinar se quer ir com
eles ou com nós, romper as relações com eles ou com nós;
6) Se aceitarem o nosso programa, plano de organização, o regulamento da
associação e o plano de propaganda e ação revolucionária, você por eles
e em seu nome nos dará a mão e sua palavra de honra que daqui pra frente
este programa, plano de organização, propaganda e ação serão a lei
absoluta e a base imprescindível de sua associação na Rússia;
7) Confiaremos em você e sobre novas bases estabeleceremos com você
novos e fortes vínculos, nós Ogarev, Ozerov, S. Serebrennikov, eu e
talvez Tatá, se você quiser, e se você e todos os outros estão de
acordo, seremos de verdade irmãos populares, vivendo e militando no
estrangeiro. Por isso, sem manifestar nunca uma curiosidade supérflua,
teremos o direito de saber e saberemos de modo positivo, com todos os
detalhes desejados, a situação clandestina e os objetivos imediatos em
Rússia;
8) Logo, todos os já mencionados formaremos um Birô no estrangeiro para
a condução sem nenhuma exceção de todos os assuntos russos no
estrangeiro no estrangeiro conformando-nos às indicações políticas
gerais da Rússia, mas elegendo livremente os métodos, as pessoas e os
meios;
9) Além disso, se publicará Kolokol com um programa revolucionário
socialista claro, por ser necessário e por haver os fundos suficientes;
Tais são, Nechayev, minhas condições para com você. Se você abandonou a
reflexão cega, se em você voltou um ânimo de compreensão sensata da ação
e se o amor pela ação é efetivamente mais forte em você que em todos os
demais, então você as aceitará.
Se não as aceitar, minha decisão é inquebrantável, terei que romper toda
relação com você e, sem ajustar-me a nada mais que a minha própria
consciência, meu enfoque e meu dever, trabalharei com independência.
Mikhail Bakunin, 2 de Junho de 1870.