#title Bakunin & Nechayev #author Paul Avrich #SORTauthors Paul Avrich; Mikhail Bakunin; Felipe Corrêa #lang pt #date 1974 #pubdate 2026-10-31 #topics anarquismo; Primeira Internacional (1864-1877); Rússia; história do movimento operário; ensaio #source Texto extraído do arquivo de diagramação da edição brasileira: Paul Avrich, *Bakunin & Nechayev*, Projeto editorial, preparação dos originais, revisão, capa e diagramação: Ian Caetano de Oliveira;tradução e notas de Lira Furtado (francês) e Ian Caetano de Oliveira (inglês); editor executivo: Victor Hugo Viegas; capa sobre desenho e ideia de Heitor Aquino Vilela., prefácio de Felipe Corrêa, Aparecida de Goiânia, Escultura, 2016. #notes #teaser Ensaio de Paul Avrich sobre a relação entre Mikhail Bakunin e Sergey Nechayev (1869-1872): o jacobinismo russo, o *Catecismo do Revolucionário*, o assassinato de Ivanov, a ruptura entre os dois e as questões de tática e moral revolucionária que o episódio deixou ao anarquismo. Acompanham as cartas de Bakunin a Nechayev de 1870. [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-1.jpg 40][Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (Михаил Александрович Бакунин), 1814-1876]] [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-5.jpg 40][Sergey Gennadiyevich Nechayev (Сергей Геннадиевич Нечаев), 1847-1882]] ** In memoriam: Ian Caetano de Oliveira Nota do Arquivo Lucy Parsons na republicação de 2026 Esta republicação chega à biblioteca do Arquivo Lucy Parsons poucos dias depois da morte de Ian Caetano de Oliveira, em Goiânia, na madrugada de 30 de outubro de 2026, aos 32 anos. Ian foi o responsável pelo projeto editorial, pela preparação dos originais e pela revisão desta edição brasileira de Bakunin & Nechayev. Traduziu o texto de Avrich do inglês, escreveu as notas, fez a diagramação e desenhou a capa sobre a ideia e o desenho de Heitor Vilela. É a ele, em grande parte, que devemos este livro em português. Ian começou cedo. Aos 17 anos integrava a coordenação da Frente de Luta do Transporte Público, que em maio de 2013 levou às ruas de Goiânia a luta contra o aumento da passagem, semanas antes de a revolta se espalhar pelo país. Pagou por isso: em maio de 2014 foi preso preventivamente na chamada Operação 2,80, junto com outros jovens do movimento, entre eles Heitor Vilela, e só foi solto cerca de uma semana depois, por habeas corpus. Com Heitor Vilela fundou a Escultura Produções Editoriais, editora independente que estreou com este livro. A nota que abre a edição apresenta o propósito da empreitada: publicar no Brasil pesquisadores do pensamento anarquista ainda inéditos e “trazer ao debate autores relevantes de nosso e de outros tempos, mas que, por razões várias, não estão inseridos nele”. Foi esse trabalho que pôs em circulação, em português, o ensaio de Paul Avrich e as cartas de Bakunin a Nechayev. Disponibilizar este livro em acesso aberto é a forma que encontramos de manter vivo o trabalho que Ian ajudou a construir. Aos seus familiares, amigos e companheiros de luta, a solidariedade do Arquivo Lucy Parsons. ** Nota à presente edição A presente edição inaugura a empreita editorial que a Escultura pretende levar a cabo: a publicação de pesquisadores e analistas teóricos do pensamento anarquista ainda inéditos no Brasil. Em especial, mas não só, de língua anglófona. O texto original Bakunin & Nechaev foi publicado sem notas de rodapé, portanto todas as notas de rodapé neste volume são da edição brasileira. Elas trazem, fundamentalmente, breves descrições de personagens históricos menos conhecidos. A tradução foi feita diretamente do original em inglês, com detido cuidado na significação semântica. Sempre que possível (o que soma a maioria dos casos) foi mantida a exata pontuação utilizada pelo autor. Todos os itálicos do texto são do próprio autor. Sempre que encontradas, as obras mencionadas pelo autor trazem suas correspondentes versões em português, seja em publicações impressas, seja em publicações online. Nos apêndices: a tradução da primeira carta, inédita em português, foi feita diretamente do francês por Lira Furtado. A segunda, mais famosa, foi coletada do Arquivo Bakunin (arquivobakunin.blogspot.com), traduzida a partir da versão espanhola de Franz Mint por “Antonio”. Esta obra de Avrich foi originalmente publicada pela Freedom Press. Apesar de diversos esforços, não conseguimos contatá-los na busca pelos direitos formais de tradução da obra, tampouco conseguimos contato com Ina Avrich (viúva do autor) ou com Jane e Karen Avrich (filhas do autor). Em um último esforço, tentamos contato também com a AK press, que publicou outras obras do autor, mas, igualmente, não obtivemos sucesso. A Escultura fica à disposição destas pessoas e editoras para esclarecimentos sobre a tradução. O motivo, todavia, ao menos da maneira como vemos, é nobre: o de trazer ao debate autores relevantes de nosso e de outros tempos, mas que, por razões várias, não estão inseridos nele. Agradecemos Heitor Aquino Vilela pela bela ilustração utilizada na capa deste livro. Agradecemos também Felipe Corrêa pelo prefácio. Março de 2016 ** Prefácio | Prefácio — Contexto e implicações da relação Bakunin-Netchaiev
**Contexto e implicações da relação Bakunin-Netchaiev**[1] *Felipe Corrêa*
A publicação Bakunin & Nechayev, do historiador Paul Avrich, chega num momento importante, em que, ao menos num setor restrito do Brasil, se aprofundam as discussões sobre Mikhail A. Bakunin. Apesar de sucinto, este escrito contribui com a compreensão da complexa relação entre ambos os russos que, mesmo tendo durado pouco tempo, teve consequências marcantes e duradouras, não apenas na história do movimento da classe trabalhadora, mas também nas produções historiográficas que se debruçaram sobre Bakunin e sua obra. Nos próximos parágrafos, pretendo contextualizar o ambiente em que se deu essa relação e apontar suas principais implicações, tanto no que tange às mencionadas consequências, quanto no que diz respeito ao debate político por elas suscitado. *** A Associação Internacional dos Trabalhadores e o contexto dos anos 1869-1872 Quando Netchaiev conheceu Bakunin pessoalmente, em março de 1869, a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) rumava para seu ápice em termos de tamanho e radicalização política. O número de trabalhadores filiados multiplicava-se e chegava, naquele ano, a 2 milhões. (Malon, 2014, p. 50) Essa associação, que havia sido fundada em 1864, principalmente pelos esforços do proletariado francês e inglês, vinha se radicalizando desde 1866, ano em que realizou seu primeiro congresso em Genebra. No Congresso de Lausanne, de 1867, a AIT posicionou-se em favor da “extinção do salariado e a repartição dos produtos”; no Congresso de Bruxelas, de 1868, aprovou a necessidade da coletivização da propriedade nas cidades e nos campos, posição ratificada no Congresso da Basileia, de 1869, que, além disso, posicionou-se em favor da “abolição do direito de herança”. (Samis, 2014, pp. 170, 174-175, 182) Na verdade, essa radicalização dos congressos evidenciava um traço do próprio movimento de trabalhadores que, naquele período, adotava posições mais combativas de luta, em particular por meio das greves. Num artigo de abril de 1869 reproduzido nas obras de Bakunin[2], há um trecho que dá uma ideia da relevância das greves naquele momento: As notícias relativas ao movimento operário europeu podem resumir-se em uma palavra: greves. Na Bélgica, greve dos tipógrafos em várias cidades, greve dos fiandeiros em Gante, greve dos tapeceiros em Bruges; na Inglaterra, greve iminente dos distritos manufatureiros; na Prússia, greve dos mineiros do zinco; em Paris, greve dos gesseiros e pintores; na Suíça, greves na Basileia e em Genebra. (Bakunin, 1911, p. 50) Essas e outras greves e mobilizações do período foram fundamentais para subsidiar os debates do movimento operário e definir a mudança da correlação de forças dentro da Internacional que, em 1869, passou a ser hegemonicamente federalista coletivista. Elas foram também determinantes para que Bakunin, que havia ingressado na Internacional no ano anterior, formulasse os últimos aspectos das posições que caracterizarão sua concepção política da maturidade, o anarquismo. Uma das chaves para interpretar as disputas internas da AIT é o conflito, presente em toda sua trajetória, entre federalistas (especialmente mutualistas e coletivistas) e centralistas (particularmente blanquistas e comunistas). Apesar das posições contrárias dos membros do Conselho Geral, no qual se encontrava Karl Marx, os federalistas, segundo Alexandre Samis (2011, pp. 103-186), detiveram a hegemonia desta associação em praticamente toda sua história, fato que pode ser constatado em suas resoluções congressuais. Contudo, se até 1867 a principal força política do campo federalista era o mutualismo proudhoniano, entre 1868 e 1869 foi o coletivismo, do qual Bakunin era partidário, que se consolidou como tal. O federalismo coletivista foi não somente a principal força no Congresso da Basileia de 1869, mas conformou as bases da chamada Internacional Antiautoritária que, fundada em 1872, deu continuidade à obra da Internacional até 1877. Essa conjuntura na Europa ocidental, especialmente dos anos 1870 a 1872, foi também duramente marcada pelos efeitos da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) e da Comuna de Paris de 1871, e a AIT não escapou deles. Esse período, que contou com uma imensa ascensão da repressão, impediu a realização de um congresso e proporcionou as condições para que ocorresse, ainda em 1871, a Conferência de Londres, que antecipou em alguma medida as deliberações do Congresso de Haia, acontecido no ano seguinte. Conforme coloca René Berthier (2015, pp. 67-77), ambos os encontros, caracterizados pela absoluta falta de representação das seções, introduziram uma concepção política obrigatória a toda a Internacional e, com isso, terminaram excluindo dela a quase totalidade de suas seções.[3] *** As implicações relativas ao movimento operário e à interpretação de Bakunin O marco da chamada “cisão” da AIT foi a expulsão de Bakunin e James Guillaume, no Congresso de Haia, em 1872, para a qual a relação do primeiro com Netchaiev contribuiu significativamente. Inclusive, a própria interpretação posterior de Bakunin foi consideravelmente marcada por essa relação. Marc Leier aponta, nesse sentido, que Netchaiev roubou dinheiro e reputação do anarquista, inadvertidamente auxiliou Marx a expulsá-lo da Associação Internacional dos Trabalhadores e forneceu munições amplas, ainda que indiscriminadas e incorretas, aos inimigos do anarquismo que eles continuam a utilizar até hoje. (Leier, 2006, p. 201) São exatamente as mencionadas “munições” que revelam as implicações da relação Bakunin-Netchaiev concernentes ao movimento operário e à interpretação de Bakunin em particular e do anarquismo em geral. No que tange às primeiras, pode-se dizer que, basicamente, Bakunin foi responsabilizado por tudo aquilo que foi feito por Netchaiev. Não parece haver dúvida, conforme apontam Leier (2006, pp. 201-223) e Jean Barrué (1976), que Bakunin fascinou-se extremamente pelo jovem russo, principalmente por sua energia revolucionária, e trabalhou ativamente, entre 1869 e 1870, para introduzi-lo e legitimá-lo em seu círculo; além disso, incentivou-o a levar a proposta da Aliança para a Rússia e trabalhou conjuntamente com ele na produção de textos de propaganda. Independente da ingenuidade de Bakunin, que ele mesmo reconheceu mais tarde, o fato é que ele definitivamente não concordava com a totalidade das posições de Netchaiev e sequer tinha conhecimento de parte considerável dos fatos que o incriminariam frente à polícia e o movimento da classe trabalhadora. A carta de Bakunin (2008) a Netchaiev, de 2 de junho de 1870, que veio a público somente em 1966, esclarece sobremaneira suas posições e elucida vários desses aspectos que envolvem suas concordâncias e discordâncias em relação ao jovem russo. Trata-se de um documento central para aqueles que têm interesse no tema. Contudo, há que se ter em mente que, em 1872, não só essa carta e a versão de Bakunin não eram amplamente conhecidas, mas interessava politicamente ao setor centralista estabelecer esse vínculo quase indissociável entre os dois russos. Um documento intitulado “A Aliança da Democracia Socialista e a Associação Internacional dos Trabalhadores”, redigido por Paul Lafargue, Friedrich Engels e Karl Marx (1978), e que serviu para subsidiar a expulsão de Bakunin e Guillaume em Haia, permite que se entenda como esse vínculo foi realizado.[4] Sustentando a tese de que a Aliança existia, pretendia destruir a Internacional e que Bakunin era sua principal liderança, este documento dedica uma parte bastante ampla (aproximadamente um terço de suas quase 100 páginas) ao caso da Rússia. Ele estabelece o vínculo entre Bakunin e Netchaiev, afirmando ter sido encontrado com o segundo um cartão de membro da Aliança assinado pelo primeiro, e sustentando: “a ação da Aliança na Rússia nos foi revelada pelo processo político conhecido pelo nome de ‘Caso Netchaiev’, que se desenvolveu em julho de 1871”. (Lafargue, Engels e Marx, 1978, p. 341) O documento relata a quase totalidade da história de Netchaiev obtida na justiça e na imprensa na ocasião de sua prisão, e conta com o “Catecismo” de 1869 praticamente na íntegra. Este e outros textos, que hoje se sabe terem sido escritos por Netchaiev, são atribuídos à Bakunin, assim como todas as ações do jovem russo. Dessa maneira, a relação Bakunin-Netchaiev contribuiu diretamente com a história da Internacional, visto que subsidiou parte considerável do dossiê de expulsão dos dois federalistas em 1872, algo que, em termos mais amplos, anunciaria a mencionada “cisão” iniciada naquele ano e que se consolidaria nos anos seguintes. No que diz respeito às segundas, pode-se dizer que essa visão do campo centralista em geral e do marxismo em particular continuou a ser difundida e marcou profundamente as diversas interpretações de Bakunin. A atribuição do “Catecismo” de Netchaiev a Bakunin, por exemplo, subsidiou parte importante das teses que vêm sustentando haver uma contradição entre as posições públicas de Bakunin, em particular o federalismo proposto para a Internacional, e suas posições “secretas”, especialmente o “centralismo” defendido para a Aliança e outras organizações. (Cf., entre muitos casos, Brupbacher, 2015, p. 108) Essa equivocada atribuição influiu diretamente as interpretações marxistas e liberais de Bakunin, conforme aponta Brian Morris: Seus [de Bakunin] escritos e os documentos programáticos sobre as “sociedades secretas” [incluindo o “Catecismo” de Netchaiev], especialmente os mais antigos, deram a impressão para muitos acadêmicos que, embora Bakunin pregasse uma doutrina libertária, o anarquismo, na verdade, e mesmo em termos teóricos, ele defenderia também uma ditadura revolucionária e, assim, o “despotismo”. Por esse motivo, os marxistas repudiaram Bakunin, considerando-o irrelevante e um perigoso romântico, enquanto os liberais equipararam Bakunin a Robespierre e aos jacobinos, considerando-o um precursor do bolchevismo ou mesmo do stalinismo. (Morris, 1993, p. 143) Tais posições, que extrapolaram o campo acadêmico e estenderam-se ao campo político, não apenas continuam a ser defendidas como, não raro, são estendidas à distintas correntes do anarquismo. Dessa forma, a relação Bakunin-Netchaiev influenciou as interpretações de Bakunin, não apenas em função deste caso do “Catecismo” de 1869, mas também pelo fato de terem sido atribuídos a Bakunin outros textos de Netchaiev (como “Os Princípios da Revolução”, de 1869), assim como muitas de suas posições e atitudes, senão, em alguns casos, a totalidade delas. *** O texto de Avrich e as implicações políticas da relação Bakunin-Netchaiev Finalmente, parece-me importante destacar que essa relação entre ambos os russos, cujo texto de Avrich contribui significativamente para desvendar, possui – além da virtude de colaborar com o conhecimento acerca da vida e da obra de Bakunin, muitíssimo limitado dentro e fora das universidades – a qualidade de suscitar um debate político de primeira ordem acerca da relação entre ética e política. Essa problemática, muito bem enunciada por Maquiavel em O Príncipe[5], teve continuadores à esquerda e à direita, revolucionários, reformistas e conservadores. Ela esteve no cerne da política do chamado “mundo socialista” e está no centro da política contemporânea, incluindo as democracias ditas liberais com a crise de legitimidade que as afeta. A relação Bakunin-Netchaiev expõe desdobramentos concretos dessa problemática e permite pensar, desde perspectivas revolucionárias, socialistas, anarquistas, quais devem ser os limites éticos da prática política. Se Netchaiev aproxima-se, em certo sentido, do realismo maquiaveliano, as posições de Bakunin questionam esse pragmatismo amoral e definem certos pressupostos éticos para a ação política. Tal relação, observada à luz da obra bakuniniana, e mesmo da tradição histórica anarquista como um todo, permite que se avance em respostas a distintas questões. Qual é (e qual deve ser) a relação entre ética e política? Existem limites éticos para a prática política? Se sim, quais são? A ética deve nortear a política com aliados, adversários e inimigos? Se sim, como, em cada um destes casos? Para os revolucionários, os socialistas, os anarquistas, como essas relações são entendidas? Muitas outras perguntas poderiam ser feitas. Bakunin & Nechayev fornece importantes subsídios ao leitor para refletir sobre essas e outras questões. E mais: ao realizar uma análise histórica do passado, termina por oferecer elementos que contribuem com a constituição de um ferramental teórico e político visando enfrentar o presente e futuro. *** Bibliografia BAKUNIN, Mikhail. “Organisation et Grève Générale”. In: Oeuvres. Tome V. Paris: Stock, 1911. ________________. CD-ROM Bakounine: Ouvres Completes, IIHS de Amsterdã, 2000. ________________. Relations avec Serge Netchaiev (1870-1872). Antony: Tops / H. Trinquier, 2003. ________________. “Carta a Netchaiev de 2 de junho de 1870”. Archivo Miguel Bakunin, 2008. BARRUÉ, Jean. “Bakunin e Netchaiev”. In: O Anarquismo Hoje. Lisboa: Assirio & Alvim, 1976. BERTHIER, René. Social-Democracy & Anarchism in the International Workers’ Association (1864-1877). Londres: Anarres, 2015. BRUPBACHER, Fritz. Bakunin, o satã da revolta (com notas de Jean Barrué). São Paulo: Imaginário/Intermezzo, 2015. CORRÊA, Felipe. “Introdução”. In: BAKUNIN, Mikhail. Revolução e Liberdade: cartas de 1845 a 1875. São Paulo: Hedra, 2010 ______________. Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo. Curitiba: Prismas, 2014. LAFARGUE Paul; ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. “La Alianza de la Democracia Socialista y la Asociación Internacional de Trabajadores: informes y documientos publicados por orden del Congreso Internacional de La Haya”. In: RIBEILL Ribeill (org). Marx/Bakunin: socialismo autoritário, socialismo libertario. Barcelona: Madrágora, 1978. LEIER, Mark. Bakunin: the creative passion. Nova York: St. Martin’s Press, 2006. MALON, Benoit. A Internacional: sua história e seus princípios. São Paulo: Imaginário, 2014. MEHRING, Franz. Karl Marx: a história de sua vida. São Paulo: Sundermann, 2014. MORRIS, Brian. The Philosophy of Freedom. Montréal: Black Rose, 1993. NORTE, Sérgio. Bakunin: sangue, suor e barricadas. Campinas: Papirus, 1988. SAMIS, Alexandre. Negras Tormentas: o federalismo e o internacionalismo na Comuna de Paris. São Paulo: Hedra, 2011. ________________. “A Associação Internacional dos Trabalhadores e a Conformação da Tradição Libertária”. In: CORRÊA, Felipe; SILVA, Rafael V.; SILVA, Alessandro S. da (orgs.). Teoria e História do Anarquismo. Curitiba: Prismas, 2014. [1] O autor do prefácio optou pelo uso da grafia “Netchaiev”, ao invés da que o tradutor utilizou no texto principal “Nechayev”. Optamos por manter a preferência para demonstrar o pluralismo de interpretações na tradução do alfabeto russo. (Nota da Edição) [2] Apesar de constar nas obras de Bakunin, não se sabe ao certo se a autoria deste artigo é dele ou de Charles Perron, um outro membro da Aliança, cujas posições acerca das greves eram significativamente próximas às do revolucionário russo. (Cf. Bakunin, 1911, p. 48) [3] Endosso a tese de Berthier (2015) acerca da “cisão” da AIT ocorrida em 1872. Segundo argumenta este autor, tal ruptura não resultou das maquinações de Bakunin e dos aliancistas para tomar controle ou destruir a Internacional, como em geral se afirmou no campo marxista, e nem de uma simples divisão em função das posições políticas, colocando de um lado federalistas e de outro centralistas, como em geral se interpreta hoje em dia. Para ele, o que ocasionou a ruptura – em cujo processo localizam-se as expulsões de Bakunin e Guillaume – foi a imposição de um programa político à Internacional (a constituição da classe em partido e a busca da conquista do poder político), realizado provisoriamente em Londres e definitivamente em Haia, contrariando aquilo que era recomendado por Bakunin, a unidade em torno da luta econômica imediata. Foi isso que, segundo sustenta, motivou a insatisfação generalizada e o protesto das seções em relação ao Conselho Geral; com a subsequente resolução deste organismo, de que aqueles que discordassem das resoluções estariam automaticamente excluídos, o que aconteceu foi que foram “excluídas” da “AIT” praticamente a totalidade de suas seções e, assim, a imensa maioria de seus membros. A transferência do Conselho Geral para Nova York em 1872 antecipou o atestado de óbito da Internacional Centralista, formalizado quatro anos depois. Quando Berthier (2015, p. 1) considera que “Haia foi a vitória da corrente federalista”, ele entende que, naquela ocasião, venceu a imensa maioria de seções e membros, que recusou a imposição do programa político e a conduta do Conselho Geral e rearticulou-se, criando, ainda em 1872, a chamada Internacional Antiautoritária, legítima continuadora da AIT. Essa associação deu prosseguimento à obra de massas internacionalista e realizou outros quatro congressos no eixo Suíça-Bélgica até 1877, quando também encontrou seu fim. Curiosamente, entre outros fatores, Berthier argumenta que esse fim deveu-se, novamente, à imposição de um programa político à Internacional; só que dessa vez os responsáveis foram os anarquistas. [4] Sobre este texto, mesmo Franz Mehring (2014, p. 530), principal biógrafo de Marx e marxista, afirma que ele encontra-se “num nível abaixo de qualquer outra coisa jamais publicada por Marx e Engels” e que “não é um documento histórico, mas uma acusação cujo caráter tendencioso é aparente em cada página”. [5] Digo que a problemática foi bem “enunciada” por Maquiavel, pois considero que ele colocou a questão de maneira bastante pertinente. No entanto, não estou de acordo com a resposta dada por ele neste mesmo livro e nem com aquelas dadas por autores que continuaram a discussão, como Max Weber, em “A Política como Vocação”. Para uma discussão mais aprofundada acerca desta problemática, ver um artigo que escrevi intitulado “Ética e Política em O Príncipe de Maquiavel”, o qual está em avaliação e será, em breve, publicado. ** Nota do autor O período Nechayev da carreira de Mikhail Bakunin (1869-1872) foi relativamente breve. Ainda assim, excluído o fato de este ser um drama psicológico fascinante, tal drama constitui um importante capítulo na história do movimento revolucionário russo, colocando questões fundamentais sobre táticas revolucionárias e moralidade revolucionária, com as quais militantes radicais continuam a se debater até hoje. A relação de Bakunin com Nechayev foi também um fator contributivo no famoso conflito do primeiro com Marx, e em sua expulsão da Primeira Internacional. E isso o levou a uma reavaliação de suas doutrinas revolucionárias e a uma reafirmação de seus princípios libertários em oposição ao que ele chamava de “jesuitismo” e “maquiavelianismo” de seu jovem discípulo. Estamos, portanto, em grande dívida com Arthur Lehning e Michael Confino (ver nota bibliográfica) por disponibilizarem os materiais necessários à revisão do caso Nechayev, que é o objeto do presente ensaio. 1974
Paul Avrich
[[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-2.jpg 35][Capa da 2ª edição britânica, 1987]] ** I – Nechayev e o Jacobinismo Russo Sergey Gennadiyevich Nechayev nasceu em 20 de Setembro de 1847, em Ivanovo, uma cidade têxtil emergente a nordeste de Moscou, que começava a ganhar a reputação de “Manchester Russa”. Seu pai era um pintor de letreiros, sua mãe uma costureira, e ambos eram de origem servil, de tal modo que Nechayev foi um dos primeiros radicais russos proeminentes com um completo histórico plebeu. Ele “não era um produto do nosso mundo”, escrevera Vera Zasulich[6] em suas memórias, mas “um estranho entre nós”. Como um filho do povo, todavia, ele era, todo, o mais impressionante aos olhos de seus colegas revolucionários, arrependidos da nobreza, ansiosos por pagar suas dívidas com as classes baixas. Um conhecido chamou Nechayev “um verdadeiro revolucionário, um camponês que preservou todo o ódio servil contra seus mestres”, um ódio que acabaria por virar-se até mesmo contra seus próprios camaradas, com seus berços e educação aristocráticos. Em abril de 1866, contando 18 anos, Nechayev troca Ivanovo por São Petersburgo, onde leciona, por um tempo, em uma escola paroquial. No outono de 1868 ele ingressa na universidade como aluno ouvinte, e ingressou em um grupo de jovens revolucionários que incluía alguns futuros anarquistas, como Z. K. Ralli[7], V. N. Cherkezov[8] e F. V. Volkhovsky[9], bem como alguns quase anarquistas, ou socialistas libertários, como Mark Natanson[10], German Lopatin[11] e L. B. Goldenberg. Embora Nechayev ainda não soubesse francês, ele observava as discussões acerca da historiografia de Buonarroti[12] sobre a Conspiração dos Iguais de Babeuf[13], um livro que ajudou a moldar toda uma geração de rebeldes russos, e seus sonhos foram logo dominados por sociedades secretas e pela vida conspirativa. Ele se viu irresistivelmente atraído pelo jacobinismo e pelo blanquismo, e quando, mais tarde, visitara Ralli na Suíça, carregava livros de Rousseau e Robespierre, e suas tendências autoritárias, sua pretensão de conhecedor da “vontade geral” e de “forçar o povo a ser livre”, já estavam bem desenvolvidas. Nechaev foi também atraído pela tradição jacobina interna ao próprio movimento revolucionário russo, uma tradição que volta até o líder dezembrista Pestel[14], na década de 1820, e a Nikolay Pleshcheyev[15] na década de 1840, que enfatizava a necessidade de táticas conspiratórias e uma ditadura revolucionária baseada, em seus termos, no modelo “jesuíta”. Uma sugestão que levou o fourierista Mikhail Petrashevsky[16] a declarar: “Eu seria o primeiro a erguer minha mão contra o ditador”. Em 1862, quatro anos antes da chegada de Nechayev a São Petersburgo, um folheto clandestino chamado “Jovem Rússia” foi publicado por Peter Zaichnevsky, uma liderança jacobinista russa que foi influenciada por Robbespierre e Babeuf, e por Mazzini e pela Carbonari italiana (o título de seu panfleto foi derivado do Jovem Itália) com seus métodos de conspiração revolucionária. Seu objetivo final, contudo, era inspirado no socialismo descentralizado de Proudhon, e quando a polícia o prendeu, encontraram uma tradução russa inacabada do O Que é a Propriedade?[17] entre seus papeis. [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-4.jpg 30][Pavel Ivanovich Pestel (Павел Иванович Пестель), 1793-1826]] [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-3.jpg 30][Aleksey Nikolayevich Pleshcheyev (Алексе́й Никола́евич Плеще́ев), 1825-1893]] No Jovem Rússia Zaichnevsky clamava por uma “sangrenta e implacável” revolução, nos modelos de Razin[18] e Pugachev[19], e pela aniquilação inclemente da família tzarista e de seus apoiadores: “Clamaremos ‘ante seus machados’ e então iremos atacar o partido imperial sem poupar nossos golpes, assim como eles não poupam os seus contra nós. Destrui-los-emos nas praças, se a porcada covarde ousar lá ir. Destrui-los-emos em vossas casas, nas estreitas ruas das cidades, nas grandes avenidas da capital e nos vilarejos. Lembrem-se disso, quando isso acontecer, qualquer um que não estiver conosco está contra nós, um inimigo, e de que qualquer método é utilizado à destruição de um inimigo”. Herzen[20] repeliu o folheto por seu imoralismo cruel e cru, e até mesmo Bakunin condenara seu autor por seu “louco e verdadeiramente doutrinário escárnio pelo povo”, ainda assim Jovem Rússia exerceu uma poderosa influência entre a jovem geração de Nechayev, os “homens da década de 60”, que eram inspirados por esta retórica desafiadora e descompromissada. Outra fonte de inspiração foi o personagem Rakhmetov do romance de Chernyshevsky Que fazer?[21], que foi publicado em 1864. Rakhmetov era um prótipo literário do novo revolucionário, um homem possesso e vivendo uma vida puramente ascética, sujeitando a si mesmo a intensas privações físicas em preparação ao seu papel revolucionário. Para empedernir-se, come carne crua e dorme em uma cama de pregos. Ele não tem vida pessoal, não tem esposa, não tem amigos, nenhum laço familiar que possa desviá-lo de seu propósito. Ele adota uma maneira de conversar e comportamento deliberadamente bruscos, ambos para excluí-lo da sociedade convencional e para evitar perdas de tempo em palavras vazias e formalidades. Ele usa seu dinheiro não para necessidades pessoais, mas para ajudar estudantes pobres e a causa revolucionária. A figura de Rakhmetov agarrou a imaginação de jovens revolucionários por décadas (em 1892 Alexander Berkman[22] usou “Rakhmetov” como codinome quando atirou em Henry Clay Frick[23]). Durante meados de 1860 Rakhmetov serviu como um modelo para o Círculo Ishutin, cujos membros (incluindo o futuro camarada de Kropotkin, Varlaam Cherkezov, e Dmitri Karakozov, cujo atentado ao Tzar em 1866 foi saudado por Nechayev como “o princípio de nossa sagrada causa”) renunciaram todos os prazeres pessoais e seguiram vidas rigorosamente ascéticas, dormindo no chão, dando todo seu dinheiro à causa, e devotando todas as energias à libertação do povo. Eles também demonstravam um forte viés anti-intelectualsita, desprezavam a universidade por treinar “generais da cultura” ao invés de ajudantes dos trabalhadores e dos camponeses. Alguns até abandonaram seus estudos e organizaram cooperativas. Como um membro lembra, “as massas não eram escoladas; portanto nós não temos direito a uma educação. Você não precisa de muito aprendizado para explicar às pessoas que elas estão sendo trapaceadas e roubadas”. Como Zaichnevsky, eles rejeitavam reformas ou paliativos, e desprezavam a velha geração de radicais, os “homens da década de quarenta”, exemplificados por Herzen e seu círculo, como homens impotentes que, por toda sua erudição e frases revolucionárias, eram incapazes de romper com a velha ordem ou com suas próprias raízes aristocráticas. Eles clamavam, novamente como Zaichnevsky, pelo extermínio da família tzarista, com vistas a desencadear uma sublevação social, uma revolta à la Pugachev que transformaria a ordem existente em pó. Para levar a cabo esta tarefa, um pequeno grupo chamado Inferno foi organizado dentro do Círculo de Ishutin, uma estrutura ascética de terroristas envolta em sigilo e levando uma existência anônima e subterrânea. Todo membro do Inferno considerava-se um homem amaldiçoado, excluído da sociedade normal e integralmente dedicado à revolução. Ele deve desistir de seus amigos, de sua família, de sua vida pessoal, até mesmo de seu nome, em total autonegação em prol da causa. Nas palavras de Ishutin (mais tarde ecoadas por Nechayev), ele deve “viver com um único e exclusivo objetivo”, a emancipação das classes baixas. Para alcançar este fim todos os meios são permitidos, incluindo roubar, chantagear, até mesmo assassinar, sem mencionar fraude, enganar, denunciar pessoas inocentes, ou infiltrar-se em organizações secretas rivais para ganhar controle sobre elas – tudo sob estrita disciplina revolucionária, que, se violada, tinha como penalidade a morte. Um membro até cogitou envenenar o próprio pai para dar a herança à causa; e planos eram feitos para furtos – mais tarde chamados de “expropriações” – em estabelecimentos comerciais e governamentais. O principal objetivo, todavia, era o assassinato do Tzar e de seus oficiais. Uma vez executada a ação, o terrorista deve levar a cabo o maior gesto de autoaniquilação, comprimindo uma pastilha de fulminato de mercúrio entre os dentes - Berkman tentou fazê-lo após seu atentado a Frick – para que a polícia nunca descubra sua verdadeira identidade. Ishutin[24], que era inspirado pelo atentado de Orsini[25] a Napoleão III, espalhara que o Inferno era apenas a sessão russa de uma organização revolucionária espalhada por toda a Europa, cujo propósito era o de eliminar monarcas em todos os cantos. Sendo o pioneiro de uma técnica de mistificação que Nechayev desenvolveria em fina arte. Ainda resta um elo na corrente do jacobinismo russo, corrente que estendeu-se de Pestel a Lênin, este elo era Pyotr Tkachev[26], que sustentava que uma revolução bem-sucedida poderia ser trazida à tona apenas por uma bem alinhavada elite que “deve ter poder moral e intelectual sobre a maioria” e cuja organização demandava “centralização, severa disciplina, velocidade, poder de decisão, e controle das atividades”. Zaichnevsky, é válido notar, tornou-se um dos mais firmes apoiadores de Tkachev, permanecendo fiel a seus princípios jacobinos até o fim de sua vida; e em 1869 Nechayev colaborou com Tkachev na redação de Um Programa da Ação Revolucionária que clamava por uma organização de “protótipos revolucionários” que operariam, como o Círculo de Ishutin, de acordo com o princípio de que o fim revolucionário justifica todos e quaisquer meios. “Aqueles que ingressam na organização”, escreveram, “devem desistir de toda posse, ocupação ou laço familiar, pois famílias e ocupações podem distrair os membros de suas atividades”. Novamente como Ishutin, eles visionavam uma união de todas as organizações revolucionárias, com centro no oeste, e é, talvez, com isso em mente que Nechayev vai à Suíça em 1896, quando encontra, pela primeira vez, Mikhail Bakunin. [6] 1849-1919. Revolucionária com origem em uma família nobre falida. Mais tarde aproximou-se do marxismo. [7] 1848-1933. Participou da AIT, simpático a conspirações niilistas e narodnik. [8] 1846-1925. Nascido em família nobre e um dos terrotórios do Império Russo, envolveu-se com o movimento anarquista e, mais tarde, com o movimento de libertação nacional. [9] 1846-1914. Envolveu-se no movimento radical estudantil de São Petersburgo, teve importante papel no contato entre os movimentos russos e os da Europa ocidental. [10] 1850-1919. Russo de origem judia, foi um dos fundadores do Círculo de Tchaikovsky [11] 1845-1918. Filho da aristocracia, estudava física em São Petersburgo. [12] 1761-1837. Socialista italiano radicado na França. [13] Conspiration pour l’Egalité dite de Babeuf, suivie du procès auquel elle donna lieu. Publicada originalmente em 1828 [14] 1793-1826. [15] 1825-1893. Poeta radical russo. [16] 1821-1866. Pensador russo, fundador do círculo Petrashevsky. [17] Publicado no Brasil pela editora L&PM em 2015 [18] 1630-1671. Liderança cossaca, liderou uma grande sublevação contra a nobreza e a burocracia tzarista [19] 1742-1775. De origem nobre, também articulou uma insurreição cossaca durante o reinado de Yekaterina II. [20] 1812-1870. Considerado pai do socialismo russo. [21] No original Что делать?. No brasil, publicado em 2015 pela editora Prismas. [22] 1870-1936. Cumpriu quatorze anos de pena pela tentativa de assassinato. [23] 1849-1919. Empresário Americano. [24] 1840-1879. Um dos primeiros socialistas utópicos russos, endossava práticas terroristas. [25] 1819-1858 Um dos líderes do movimento Carbonari. Em 14 de Janeiro de 1858 tentou o assassinato de Napoleão III. [26] 1844-1886. Escritor russo, formulador de muitos dos princípios revolucionários populares nos movimentos russos. ** II – O Catecismo do Revolucionário Antes de deixar a Rússia, Nechayev começou sua carreira de mistificação e mentira. Em março de 1869 Vera Zasulich recebeu uma carta anônima com as seguintes palavras: “Andando hoje na Ilha de Vasilevsky, Vi uma carruagem carregando prisioneiros. Uma mão saiu pela janela e jogou um bilhete. Ao mesmo tempo ouvi as seguintes palavras: ‘se você é um estudante, entregue este ao endereço indicado’. Eu sou um estudante e considero meu dever atender ao pedido. Destrua minha carta”. O bilhete que acompanhava a carta, com a caligrafia de Nechayev, informava seus amigos que ele havia sido preso e estava sendo levado à fortaleza de Pedro e Paulo. Logo após isso, um rumor circulara de que ele havia escapado da fortaleza – um feito sem precedentes – e estava a caminho do oeste. Na verdade não houve fuga, nem mesmo encarceramento. Tudo isso foi uma fabricação, a primeira de toda uma série de fugas inventadas por Nechayev para construir a si mesmo como herói, para cercar-se de uma aura de mistério e para autonomear-se ao papel de “protótipo revolucionário” do seu Programa da Ação Revolucionária, escrito em conjunto com Tkachev. Nechayev cruzou a fronteira russa em 4 de março de 1869. Chegando a Genebra, ele imediatamente comunicou-se com Bakunin, alegando-se representante de uma poderosa organização revolucionária dentro do império tzarista. Bakunin apaixonara-se de imediato por este “jovem selvagem”, este “filhote de tigre”, como ele chamava Nechayev. “Tenho aqui comigo”, escreveu ele a James Guillame em 13 de abril de 1869, “um daqueles jovens fanáticos que não têm dúvidas, que nada temem… crentes sem Deus, heróis sem retórica”. Ele viu em Nechayev o conspirador revolucionário ideal, o arauto de uma nova geração cuja energia, determinação e intransigência iriam derrubar a ordem imperial. A chegada de Nechayev na Suíça, como observa E. H. Carr, deu ao envelhecido Bakunin um novo sopro de vida, um renascimento da esperança revolucionária e um ar de sua terra natal, que ele nunca mais veria. Para Bakunin, como coloca o professor Confino, “Nechayev era a juventude russa, a Rússia revolucionária, a Rússia enquanto tal”. Durante a primavera e o verão de 1869, Bakunin e Nechayev produziram uma série de panfletos e manifestos, clamando por uma sublevação social na Rússia. Em Algumas Palavras aos Nossos Jovens Irmãos na Rússia[27], Bakunin exorta a juventude revolucionária a “ir ao povo” com uma mensagem de rebelião, para animá-los a uma luta de vida-ou-morte contra o estado e as classes privilegiadas, seguindo o modelo estabelecido por Stenka Razin, dois séculos antes. “Jovens com instrução não devem tornar-se os benfeitores do povo, nem seus ditadores, nem seus guias, mas apenas a alavanca para que o povo liberte a si mesmo, os unificadores das energias e forças do próprio povo”, Bakunin declarou. “Tomem ciência do conhecimento, em nome de quem os homens tentam algemar-vos e despossuí-vos de vosso poder. Conhecimento deste tipo deve morrer juntamente com este mundo do qual ele é uma expressão”. Uma proclamação similar Aos Estudantes da Universidade, da Academia e do Instituto Técnico foi rascunhada por Nechayev, e uma outra chamada Estudantes Russos por N. Ogarev, pessoa próxima de Herzen e Bakunin. O restante – Como a Questão Revolucionária Apresenta-se; Princípios da Revolução; e Publicações da Sociedade da “Justiça do Povo”, No 1 (consistindo de dois artigos datados do verão de 1869) – eram todos anônimos e sua autoria não foi conclusivamente determinada. Enaltecendo destruição indiscriminada em nome da revolução, pregavam a justificativa de todos os meios à finalidade revolucionária. Como a Revolução se Apresenta é notável por seu elogio ao banditismo em termos distintivamente bakuninistas: “o assaltante na Rússia é o único verdadeiro revolucionário – o revolucionário sem fraseologia, sem retórica livresca, o irreconciliável, infatigável, indomável revolucionário da ação… aproximam-se os aniversários de Stenka Razin e Pugachev; preparemo-nos para a festa”. A autoria dos Princípios da Revolução (que parece ser obra de Nechayev) é especialmente importante, por sua forte semelhança estilística com o Catecismo do Revolucionário: “Não reconhecemos nenhuma outra atividade que não a obra da exterminação, mas admitimos que as formas que esta atividade assumirá serão extremamente variadas – veneno, faca, corda, etc. Nessa luta, a revolução santifica todas igualmente”. A Justiça do Povo No 1, com seu apelo à rebelião campesina à la Razin e Pugachev e o criticismo aos “professores não-requisitados” do povo, cujos ensinamentos destituíram as massas de sua “essência popular”, aproxima-se das marcas tanto de Bakunin quanto de Nechayev, embora seu apelo ao exemplo de Ishutin soe mais como o “jovem selvagem”: “Ishutin tomou a iniciativa; agora é nossa vez de começar, antes que suas pegadas se apaguem”. O professor Confino, infelizmente, nada diz sobre a autoria destas proclamações anônimas, espera-se que Arthur Lehning lance luz sobre a questão em sua próxima obra sobre 1869[28]. Foi durante este período entre abril e agosto de 1869 que o notório Catecismo do Revolucionário foi escrito, objeto de acaloradas controvérsias e discussões desde então. Prenunciado por documentos anteriores do movimento revolucionário europeu, esta obra expressa ideias e sentimentos que já haviam sido propostos por Zaichnevsky e Ishutin na Rússia e pelas Carbonari e Jovem Itália no oeste. Ainda assim, levando ao definitivo extremo a crueldade e a imoralidade de seus predecessores, esta se constituiu na declaração máxima de um credo revolucionário, que tem ocupado um lugar proeminente na história revolucionária por mais de um século. No Catecismo o revolucionário é retratado como um completo imoralista, comprometido a cometer qualquer crime, qualquer perfídia, qualquer baixeza ou fraude para realizar a destruição da ordem existente. Por causa disso, Nicolas Walter denunciou a obra como “um revoltante, antes de revolucionário, documento”, a expressão do “revolucionismo puro, total, fanático, destrutivo, niilista e autoderrotado”. O Catecismo é dividido em duas partes: I) Regras Gerais da Organização, consistindo de 22 parágrafos enumerados, e II) Regras de Conduta dos Revolucionários, com 26 parágrafos sob três subtítulos: A atitude do revolucionário acerca de si mesmo; A atitude do revolucionário acerca de seus camaradas revolucionários; e A atitude do revolucionário acerca da sociedade. A parte II, que é a mais famosa, foi amplamente publicada em vários idiomas e edições, enquanto a parte I, até onde sei, nunca foi traduzida para o Inglês, mas é incluída uma versão francesa integral no livro de Confino listado na nota bibliográfica[29]. A versão original do Catecismo, escrita criptografada com caracteres latinos, retornou com Nechayev à Russia em agosto de 1869. O original foi encontrado pela polícia durante uma batida policial entre os seguidores de Nechayev e foi usado contra eles em julgamento. O manuscrito original, que foi primeiramente publicado in Pravitel’ stvennyi Vestnik (arauto do governo) em julho 1871, perdeu-se em um incêndio no ministério da justiça em 1917; mas o texto foi reimpresso em 1924 no jornal Bor’ ba Klassov (luta de classes) a partir de uma cópia encontrada nos arquivos da polícia secreta tzarista. A parte II do Catecismo foi publicada em francês por marxistas em 1873, durante sua campanha contra Bakunin na Primeira Internacional. A primeira tradução em inglês foi publicada em 1939 no Apóstolos da Revolução de Max Nomad, e uma outra apareceu em 1957 no Os Terroristas de Robert Payne (reimpresso em 1967 numa versão expandida do livro chamado A Fortaleza). Há extensivos excertos na obra Raízes da Revolução de Franco Venturi; e entre 1969 e 1971 ao menos três edições apareceram em formato de panfleto, a primeira produzida pelo partido dos Panteras Negras em Berkeley, California, com uma introdução de Eldridge Cleaver, a segunda pela Kropotkin Lighthouse Publicações em Londres, com um prefácio de Nicolas Walter (ambas reproduzindo a tradução de Nomad), e uma nova tradução como Red Pamphlet No 1 com um prefácio anônimo e sem local de publicação indicado. “O revolucionário é um homem amaldiçoado”, começa a parte II do Catecismo em linguagem que faz lembrar Ishutin. “Ele não tem interesses pessoais, não tem relações, não tem sentimentos, não tem laços, não tem propriedade, nem mesmo um nome próprio. Tudo nele é absorvido por um interesse exclusivo, um pensamento, uma paixão – a revolução” (Paragrafo I). Ele estuda química e outras ciências naturais com o propósito de destruir seus inimigos (Parágrafo III). Ele rompeu todas as conexões com a ordem social, com o mundo da educação e da moralidade convencional. “A ele qualquer coisa que ajude no triunfo da revolução é ético; tudo que dificulte este triunfo é antiético e criminoso” (Parágrafo IV). “Toda ternura, sentimentos brandos como parentesco, amizade, amor, gratidão e até mesmo honra devem ser ceifadas dele pela paixão fria e única da causa revolucionária. A ele há apenas uma satisfação, consolação e deleite – o sucesso da revolução. Dia e noite ele deve ter apenas um pensamento, um objetivo – destruição inexorável. Esforçando-se fria e resolutamente rumo a este objetivo, ele deve estar preparado para destruir-se e destruir com as próprias mão tudo que dificulte esta realização” (Parágrafo VI). A organização revolucionária deve organizar uma lista de pessoas a serem exterminadas (Parágrafo XV), e “devem ser destruídos aqueles homens particularmente nocivos à organização revolucionária” (Parágrafo XVI). O revolucionário deve armar-lhes cilada com dinheiro ou influência e “transformá-los em escravos” (Parágrafo XVIII). Quanto aos liberais, “o revolucionário deve apossar-se deles, apossar-se de todos os seus segredos, comprometê-los ao máximo, até que nenhuma escapatória lhes reste” (Parágrafo XIX). Os parágrafos finais repetem a mensagem incendiária de Algumas Palavras aos Nossos Jovens Irmãos na Rússia, Como a Questão Revolucionária Apresenta-se e Princípios da Revolução: “nosso negócio é destruição, terrível, completa, universal e ímpia” (Parágrafo XXIV). “Deixe-nos juntar mão com o ousado mundo dos bandidos – os unicamente genuínos revolucionários da Rússia” (Parágrafo XXV). A autoria do Catecismo tem sido objeto de prolongada e amarga disputa. Na ausência de evidência conclusiva, pesquisadores hostis ao anarquismo têm usualmente atribuído esta autoria a Bakunin, enquanto outros a têm atribuído a Nechayev, e ainda outros a ambos como um produto de colaboração durante 1869. Embora a edição da Kropotkin Lighthouse dê Nechayev como o autor, enquanto tanto as edições dos Panteras Negras quanto as do Red Pamphlet apresentem Bakunin, o editor anônimo da última insiste que “o mito de que Nechayev tenha escrito este texto foi inventado por pequeno-burgueses pseudo‘anarquistas’ revisionistas de Bakunin”. Proeminentes pesquisadores como Max Nettlau, E. H. Carr e Franco Venturi, no ocidente, e B. P. Kozmin na União Soviética, têm atribuído o Catecismo a Bakunin, assim como os colegas do próprio Bakunin Z. K. Ralli e Michael Sazhin (“Armand Ross”), que afirmam ter visto uma cópia do manuscrito com a caligrafia de Bakunin. Alguns, incluindo Carr, têm argumentado que o Catecismo carrega ecos do estilo de Bakunin e que catecismo era uma das formas favoritas de composição para Bakunin (ele havia publicado o Catecismo Revolucionário[30] em 1866). Por outro lado, o catecismo, enquanto formato literário, era amplamente usado por revolucionários, tanto na Rússia quanto no ocidente através do século XIX. Além disso, o professor Confino sustenta que uma comparação entre O Catecismo do Revolucionário com o anterior Catecismo Revolucionário mostra que eles são “radicalmente díspares” em estilo e terminologia. Tanto em estilo quanto em conteúdo, ainda, o anterior aparenta ter emergido do meio social do revolucionismo estudantil da Rússia durante a década de 1860 – um meio social no qual Bakunin, diferente de Nechayev, teve um papel – mais que de uma geração antiga de exilados na Suíça. Uma importante nova evidência sobre a questão está contida em uma carta de Bakunin a Nechayev de 2 a 9 de junho de 1870[31], localizada nos arquivos de Natalie Herzen da Bibliothèque Nationale de Paris, e publicada primeiramente por Confino em 1966 no Cahers du Monde Russe et Soviétique. Esta é a mais extensa e mais interessante carta que Bakunin já escrevera, demandando oito dias para redigi-la e preenchendo mais de trinta páginas de texto pouco espaçado. Ela constitui a peça central tanto da obra de Lehning, quanto da Obra de Confino, e teremos mais a dizer sobre ela mais tarde. Nela, Bakunin especificamente repudia o que ele chama de “vosso catecismo”, juntamente com todo o “sistema jesuíta” de Nechayev. Com base nessa declaração, o Catecismo deve ser atribuído a Nechayev, embora não seja, de forma alguma, certo que Bakunin não teve participação em sua composição ou revisão. Como este foi escrito em um período de íntima colaboração entre os dois, e mesmo que o fardo da autoria seja de fato de Nechayev, Bakunin, ainda assim, pode ter ajudado com a escrita ou a edição. Isso, de fato, explicaria a ocasional fraseologia bakuninista bem como a alegada existência de uma cópia na caligrafia de Bakunin. A carta de Bakunin a Nechayev de 2 de Junho de 1870 admite que ele estava familiarizado com o texto durante seu período de composição – um tempo em que ele esteve extremamente suscetível à influência de Nechayev – e, significativamente, ele não levantou nenhum protesto, que se saiba, contra o texto até sua ruptura com Nechayev, um ano depois. [27] Disponível em: arquivobakunin.blogspot.com.br/2010/11/algumas-palavras-aos-meus-jovens-irmaos.html [28] Publicado em francês pela editora E. J . Brill em 1972: Michel Bakounine et ses rélations avec Serjej Necaev. [29] O editor não encontrou a parte I em português, a parte II está disponível em: http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/04/253458.shtml [30] Esta obra foi publicada no Brasil pela Editora Imaginário (2009). [31] Reproduzida como apêndice na presente edição. [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-9.jpg 50][Capa da edição espanhola d’O Catecismo do Revolucionário. Editora La Felguera, 2014]] ** III – O Caso Ivanov Antes de Nechayev retornar à Rússia com o manuscrito do Catecismo, ele já tinha começado a aplicar suas premissas. Tendo já enganado seus camaradas revolucionários com a falsa história de sua prisão e fuga, ele agora enviava cartas incriminatórias e literatura revolucionária a seus conhecidos mais moderados na Rússia, com vistas a comprometê-los ante as autoridades e, em acordo com os parágrafos XVIII e XIX do Catecismo, para envolvê-los mais profundamente na atividade radical. Entre março e agosto de 1869, não menos que 560 itens, envolvendo 387 pessoas, foram interceptados só em São Petersburgo. Seguindo o mesmo princípio, Nechayev iria, mais tarde, roubar cartas privadas e documentos de Bakunin e de seu círculo, com vistas a exercer pressão sobre eles, e iria até mesmo assassinar, na finalidade de unir seus cúmplices em torno de sua vontade. Tudo isso era parte de um sistema de total desprezo pela decência e pela honestidade, que ficou legado na história revolucionária sob o nome de “nechayevismo”. Nesse interim, Bakunin enveredou-se em um pouco de mistificação à sua maneira. Em maio de 1869, endereçara a Nechayev um certificado designando-o como “um dos representantes autorizados da sessão russa da Aliança Mundial Revolucionária, No. 2771”. Assinada por Bakunin, trazia o selo da “Aliança Europeia Revolucionária, Comitê Central”, uma simples invenção – similar àquelas já utilizadas por Ishutin e Nechayev – destinada a criar a impressão de uma rede de revolucionários em escala global. “Assim, Nechayev, um suposto representante de um provavelmente inexistente comitê revolucionário russo, recebera de Bakunin autoridade para agir na Rússia como representante de uma inexistente Aliança Europeia Revolucionária”, E. H. Carr comenta ironicamente. “Esta foi uma deleitosa situação que tem poucos paralelos, seja na história, ou na comédia”. Para ampliar o prestígio de Nechayev, Bakunin persuade Ogarev a dedicar um poema, escrito a um estudante que morrera como mártir na Sibéria, a este “jovem amigo Nechayev”. O poema foi impresso em folheto, e, no outuno de 1869, circulara pela Rússia, onde ajudara a construir a lenda de Nechayev. Nos fins de agosto de 1869 Nechayev retorna à Rússia, munido do poema, do Catecismo e das bênçãos de Bakunin e Ogarev. Chegando em Moscou ele empenha-se na organização de uma sociedade revolucionária chamada Justiça do Povo – o mesmo nome da brochura publicada em Genebra – nas linhas prescritas pelo Catecismo. Esta era uma associação secreta, disciplinadamente organizada, em grupos de “quinas revolucionárias”[32] (como na Inferno de Ishution e na primeira organização por Terra e Liberdade da década de 1860, também semelhante às organizações secretas espalhadas pela Europa ocidental), com cada membro devendo absoluta obediência ao líder, que, por sua vez, recebia as ordens do comitê central. Seu principal objetivo era engatilhar uma sublevação social em 19 de fevereiro de 1870, o nono aniversário da emancipação dos servos, e seu selo oficial era um machado com as palavras “Comitê da Justiça do Povo, de 19 de Fevereiro de 1870”. A organização era dominada pela pessoa de Nechayev, que, como todas as fontes concordam, demandava completa e inquestionável obediência de seus camaradas, a quem ele endereçava ordens em nome de um comitê central inexistente. Nechayev colocava membros para espionar uns aos outros e encorajava-os a extorquir e chantagear como meio de obtenção de dinheiro em prol da causa. Tais métodos, aparentemente, provaram-se demasiado repugnantes a um dos aptos membros da organização, um estudante da Academia de Agricultura de Petrovsk, com o improvável nome de Ivan Ivanovisch Ivanov. Ivanov parece ter sido um honrado e inteligente membro no círculo de sua Academia, atuando ativamente em cooperativas estudantis, investindo tempo ensinando crianças camponesas; e exercera considerável influência entre seus camaradas revolucionários. Em certo momento, ele evidentemente objetou algumas das ordens de Nechayev, questionou a existência do comitê central em nome do qual Nechayev alegava falar, e é possível que tenha até ameaçado formar um novo grupo revolucionário em linhas mais democráticas, algo que dificilmente Nechayev toleraria. Com tudo isso, Nechayev investira-se em convencer alguns de seus seguidores de que Ivanov estava planejando delatá-los, e que, de acordo com o parágrafo XVI do Catecismo (“devem ser destruídos aqueles homens particularmente nocivos à organização revolucionária”), era necessário fazê-lo desaparecer. Na noite de 21 de Novembro de 1869, Ivanov foi atraído até uma gruta do parque da Academia de Agricultura sob o pretexto de desenterrar uma obra impressa clandestinamente. Lá ele foi atacado e espancado por Nechayev e quatro cúmplices. Nechayev tentou estrangulá-lo, mas foi severamente mordido na mão, quando então sacou uma pistola e atirou na cabeça de Ivanov. Aumentaram o peso do corpo com pedras e jogaram-no em um buraco no gelo de um lago próximo. Dessa forma Nechayev removera um potencial adversário, enquanto, a um só tempo, incriminava seus camaradas, de modo a assegurar a obediência deles à sua autoridade. Este foi um exemplo extremo de sua técnica para ganhar submissão por meio do envolvimento de camaradas em crimes. Sua vítima, contudo, não era um agente da autocracia, mas um deles próprios, que despertara o antagonismo do líder. O assassinato de Ivanov criou uma grande comoção. Dostoiévski usou o incidente como enredo para seu romance Os Demônios[33], com Verkhovensky representando Nechayev e Shatov sendo Ivanov. A descoberta do corpo de Ivanov, quatro dias depois, levou à prisão de uma soma de 300 revolucionários e, por fim, ao julgamento de 84 nechayevistas no verão de 1871. Um dos condenados foi o genro de Peter Lavrov, Mikhail Negreskul, que havia, previamente, se oposto às táticas de Nechayev em São Petersburgo, e que estava entre aqueles que Nechayev buscara comprometer com o envio de proclamações revolucionárias, remetidas da Suíça. Negreskul foi encarcerado na fortaleza de Pedro e Paulo, adoecera pela extenuação e, por fim, morreu sob prisão domiciliar em fevereiro de 1870. Nechayev, enquanto isso, havia ido de Moscou para São Peterburgo, onde obteve um passaporte falso e, com êxito, cruza a fronteira em dezembro de 1869, deixando seus camaradas para trás para pagar a conta. [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-7.jpg 35][Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Фёдор Миха́йлович Достое́вский), 1821-1881]] [32] Grupos de cinco. [33] Publicado no Brasil em 2004 (5ª edição de 2013) pela Editora 34. Em algumas outras versões o título é traduzido como O Possuído. ** IV – A Ruptura Em 12 de janeiro de 1870, Bakunin, que estava vivendo em Locarno, recebe uma carta de Ogarev, anunciando que Nechayev chegara a Genebra. Bakunin pulou de alegria tão entusiasmadamente que “quase quebra o teto de sua velha cabeça”. Um breve período depois, Nechayev foi a Locarno e os dois homens retomaram suas colaborações, publicando dois manifestos à nobreza russa, o primeiro provavelmente escrito por Bakunin e o segundo por Nechayev. Nechayev também publica o segundo número do Justiça do Povo (datado do inverno de 1870), bem como seis publicações d’O Sino em abril e maio de 1870. Para financiar estas venturas, Nechayev usou dinheiro do tão falado fundo Bakhmetiev, deixado a Alexander Herzen por um jovem nobre russo que em 1858 viajou ao pacífico sul para fundar uma comunidade utópica. Quando Herzen conheceu Nechayev em Genebra, 1869, ele, instintivamente, não gostara de Nechayev. Mas, sob pressão de Bakunin e Ogarev, ele renunciou a metade deste fundo, boa parte dele foi passada a Nechayev, que a usou para financiar suas atividades revolucionárias quando retornou à Rússia. Quando Herzen morre, em Janeiro de 1870, Bakunin insiste a Ogarev para que reivindique o saldo do fundo à família de Herzen. O filho de Herzen cedera e, de Ogarev, quase todo o dinheiro foi para Nechayev, que se recusara a assinar um recibo, mas aceitara em nome de seu não-existente comitê central. Na mesma época, Bakunin estava tendo problemas financeiros próprios. Ela havia aceitado uma incumbência de um editor russo chamado Poliakov para traduzir Das Kapital[34], de Karl Marx, e havia recebido 300 rublos, mas não pôde fazer qualquer avanço no projeto. Em 17 fevereiro de 1870, Nechayev escrevera uma carta de ameaça a um estudante russo chamado Liubavin, que havia agido como um intermediário entre Bakunin e Poliakov, exigindo que Bakunin fosse deixado em paz e que fosse liberado de todas as obrigações que estavam sobre ele. A carta, escrita em papel do comitê central da Justiça do Povo e adornada com um machado, uma adaga e uma pistola, foi, mais tarde, utilizada por Marx para descredibilizar Bakunin e para expulsá-lo da Internacional. Muito antes, todavia, as relações entre Bakunin e Nechayev começaram a deteriorar-se. O racha que se seguiu, como Lehning e Confino mostram, foi um dilema complicado envolvendo considerações psicológicas, financeiras, políticas, morais e ideológicas. Durante sua segunda estada na Suíça, a atitude de Nechayev sobre Bakunin não era a mesma que a de um ano antes. Segundo Ralli, ele não mostrava qualquer respeito a seu mentor. Ao contrário, ele demandava que o percebessem como a única pessoa com uma organização revolucionária séria. Ele tratava com Bakunin de maneira cada vez mais ríspida, até mesmo negando a ele dinheiro do fundo Bakhmetiev para o custeio de despesas diárias. Ele reclamara a Sazhin que Bakunin não tinha mais “o nível de energia e abnegação” requisitados de um verdadeiro revolucionário, um reflexo de um conflito de gerações – de filhos contra pais, de “homens da década de 1860” contra os “homens da década de 1840” – dentro do movimento popular. Ele começou, de fato, a tratar Bakunin como o Catecismo dizia que liberais deviam ser tratados após ter-se conseguido deles extrair tudo que se podia. Ele buscou impor a Bakunin e seus amigos seus métodos autoritários próprios, chegando ao ponto de roubar deles documentos pessoais, com vistas a chantageá-los e manipulá-los no futuro (“o revolucionário deve apossar-se deles, apossar-se de todos os seus segredos, comprometê-los ao máximo, até que nenhuma escapatória lhes reste” – Parágrafo XIX do Catecismo). A desilusão de Bakunin foi arrasadora. Seu orgulho sofrera sensivelmente, por seu afeto pelo “Garoto”. “Se você introduzi-lo a um amigo, ele buscará imediatamente semear a discórdia, a difamação e a intriga entre você e seu amigo, e colocá-los-á em desavença”, escrevera Bakunin, “Se seu amigo tem uma esposa ou filha, ele tentará seduzi-la e engravidá-la para desapossá-la da moralidade convencional e, assim, mergulhá-la, contra vontade, no protesto revolucionário contra a sociedade” (Tal comportamento foi precisamente o de Nechayev em relação a Natalie Herzen, como descreve o diário dela). Enquanto isso, German Lopatin havia chegado da Rússia e contava a verdade acerca do assassinato de Ivanov, explicando que as cicatrizes no dedo de Nechayev eram injúrias de sua vítima, expondo a ficção de Nechayev sobre seu comitê central e sua vangloriada fuga da fortaleza. O ápice da controvérsia veio com uma carta de Bakunin a Nechayev, de 2 de Junho de 1870, uma tradução inglesa dela (feita por Lydia Bott) foi publicada na revista Encounter em julho e agosto de 1972, com nota introdutória do Professor Confino. A carta não foi “descoberta” por Confino, como a Encounter afirma, embora ele tenha sido, de fato, o primeiro a publicá-la. Sua existência na Bibliothèque Nationale havia sido notada anteriormente, e Arthur Lehning a havia examinado em 1962, juntamente com outros documentos pertinentes do arquivo de Nataile Herzen. Além do mais, a nota introdutória que está na Encounter, feita por Confino, está equivocada ao dizer que esta é a única carta de Bakunin a Nechayev ainda existente, uma vez que há uma pequena carta de 11 de Maio de 1870[35], publicada na obra de Lehning. Confino está, ainda assim, correto ao chamar esta carta um dos mais extraordinários documentos na história do movimento revolucionário do século XIX. Pois esta não só joga luz sobra autoria do famoso Catecismo, mas também esclarece as razões da ruptura de Bakunin com Nechayev; ajuda-nos a entender as diferentes visões deles acerca de organizações secretas, e, acima de tudo, ilumina a questão da ética revolucionária – da relação entre meios e fins – que revolucionários de toda parte continuam a enfrentar. Bakunin, expressando desapontamento e quase insuportável humilhação, escreve com grande impressão e força. Ele reclama a Nechayev de ter tido “completa confiança em você, enquanto você enganou-me. Descobri-me um completo tolo. Isso é doloroso e vergonhoso para um homem de minha experiência e idade. Pior que isso, degradei minha situação no que diz respeito às causas russas e internacionais”. Sobre a questão da revolução, Bakunin rejeita firmemente o jacobinismo e blanquismo de Nechayev – sua crença na tomada do poder por uma minoria revolucionária e o estabelecimento de uma ditadura revolucionária – clamando, em oposição, uma sublevação espontânea de massas feitas pelo próprio povo: “Estou profundamente convencido de que qualquer outra revolução é desonesta, danosa e significa morte à liberdade e ao povo”. Qual o papel de uma organização revolucionária? A concepção de Nechayev é falsa, preparando os novos “exploradores do povo”, matando “todo sentimento e honestidade pessoais” e “educando-os a mentir, suspeitar, espionar e denunciar”. Uma verdadeira organização revolucionária, diz Bakunin, “não compele o povo a quaisquer novas regulações, ordens, estilos de vida, mas simplesmente liberta suas vontades e dá-lhes amplo escopo à sua autodeterminação, e à sua organização econômica e social, que deve ser criada por eles mesmos e por baixo, não por cima”. A organização revolucionária deve “fazer impossível, após a vitória popular, o estabelecimento de qualquer poder estatal sobre o povo – mesmo o mais revolucionário, mesmo o seu poder – porque qualquer poder, seja lá como se chame, irá inevitavelmente sujeitar o povo à velha escravidão sob nova forma”. “Amo-o profundamente, e continuo a amar”, escreve Bakunin, mas você deve rejeitar seu “falso sistema jesuíta”, seu “sistema de enganação, que está crescentemente tornando-se seu único sistema, sua maior arma e meio, [e][36] isso é fatal à própria causa”. Este foi o apelo de Bakunin a seu teimoso discípulo. Ainda assim, sua rejeição ao “nechayevismo” estava longe de completa. Apesar de toda sua desilusão, sua atitude acerca de Nechayev permanecia ambivalente. Nechayev, a seus olhos, ainda era um devotado revolucionário, que agia, enquanto outros apenas falavam; e cuja energia, perseverança, autenticidade e força-de-vontade ainda exerciam um enorme atração nele. “Você é um homem ardente e dedicado”, escreve Bakunin a Nechayev. “Isso é sua força, seu valor, e sua justificação”. Se você alterar seus métodos, ele acrescenta, “Desejo não somente permanecer aliado a você, mas fazer nossa ligação ainda mais próxima e firme”. Bakunin enviara uma mensagem similar a Ogarev e seus associados: “A principal coisa no momento é salvar nosso errante e confuso amigo. Apesar de tudo, ele permanece um homem valioso, e existem poucos homens valiosos no mundo… nós o amamos, acreditamos nele, prevemos que sua atividade futura será de imenso benefício ao povo. É por isso que temos de afastá-lo de seu falso e desastroso caminho”. Portanto, apesar de todo seu orgulho ferido, apesar de toda sua desaprovação das práticas e princípios de Nechayev, o afeto de Bakunin por seu “filhote de tigre” era tão forte que ele era incapaz de romper definitivamente com ele – não obstante as mentiras e humilhações, a desenfreada imoralidade do Catecismo e até mesmo o assassinato de Ivanov. Então, também, ainda permaneciam muitas bases comuns entre eles. O programa de ambos, admitia Bakunin, era “verdadeiramente idêntico”. Apenas mais tarde, quando Nechayev começou a empregar seus métodos tortuosos contra o próprio Bakunin, que ele expressara seu asco contra eles. Bakunin, não menos que Nechayev, tinha uma paixão por conspirações e organizações secretas. Apesar de todos os seus ataques a ditaduras revolucionárias, ele era, ele próprio, um incansável advogado de uma associação revolucionária fechada, unida por tácita obediência a um líder revolucionário. Os admiradores não-críticos de Bakunin são pouco convincentes quando sustentam que suas referências a “disciplina de ferro” ou a uma “ditadura invisível” são isoladas e descaracterizadas; seja voltando à época em que suas teorias anarquistas estavam plenamente desenvolvidas, seja quando expressas enquanto ele estava sob a perniciosa influência de Nechayev. Ao contrário, conspiração foi um fio central em toda sua carreira revolucionária. Não por acaso ele tenha celebrado Buonarroti como “o maior conspirador de sua época”. Ao longo de sua vida adulta, da década de 1840 até a de 1870, Bakunin buscou criar sociedades clandestinas à moda daquelas do ocidente. Em 1845 ele se tornou um Franco-maçon. E em 1848, clamava por uma organização secreta de grupos de três a cinco homens, que estivessem “sujeitos a estrita hierarquia e obediência incondicional a um controle central”. Ele não abandonou este objetivo nos anos subsequentes. Durante a década de 1860 ele fundou uma gama de sociedades secretas – a fraternidade Florentina (1864), a fraternidade Internacional (1866), a Aliança Internacional da Social Democracia (1868) – e elaborou diretrizes para dirigir o comportamento de seus membros. A organização deveria agir “como um pelotão a serviço de seu general”, trabalhando “invisivelmente nas massas” e permanecendo intacta mesmo depois de alcançada a revolução, de modo a prevenir o estabelecimento de qualquer “ditadura oficial”. Esta organização deveria exercer, ela própria, uma “ditadura coletiva”, uma ditadura “sem qualquer selo, título, direito oficial, assim, a mais poderosa, pois carece da aparência do poder”. Seus membros, declarou Bakunin, em linguagem que lembra a do Catecismo, devem se submeter a uma “rígida disciplina”, que, se violada, deveria ser considerada um “crime” punível na forma de “expulsão, combinada com o recebimento da vendeta de todos os seus membros”. Em 1872 ele ainda escrevia: “Nosso objetivo é a criação de uma poderosa, mas sempre invisível, organização; que deve preparar a revolução e liderá-la”. A mesma posição é manifestada em sua carta a Nechayev. A revolução popular, ele repete, deve ser “liderada invisivelmente, não por uma ditadura oficial, mas por ditaduras inominadas e coletivas, compostas por aqueles em favor da total libertação do povo de toda a opressão, firmemente unidos em uma sociedade secreta e sempre, e em qualquer lugar, agindo em favor de um objetivo comum e em acordo com um programa comum”. Ele chama esta organização revolucionária “o batalhão do exército do povo” e adiciona, novamente na linguagem do Catecismo, que esta organização deve ser composta por pessoas “que são apaixonadas e obstinadamente devotas, que, tanto quanto possível, tenham renunciado todos os interesses pessoais e que tenham renunciado, definitivamente, à vida e à morte; a tudo que às pessoas é atraente; a todos os confortos e deleites materiais; a toda a satisfação de ambição, status e fama… Eles devem ser total e completamente absorvidos por uma paixão, a libertação do povo”. A organização, ademais, deve ter um comitê executivo e demanda rígida disciplina de seus membros. Paradoxalmente, esta deve ser uma vanguarda moralmente pura, embora em certos casos – aqui, novamente, temos a linguagem do Catecismo – engaje-se em mentira e enganação, especialmente contra grupos revolucionários rivais: “Sociedades cujos objetivos são próximos aos nossos devem ser forçadas à fusão com a nossa sociedade ou, ao menos, devem estar subordinada à nossa sem conhecimento disso… Tudo isso não pode ser atingido apenas propagando a verdade; artimanha, diplomacia, enganação, são métodos jesuítas necessários; até mesmo enredamentos podem ser usados para este propósito… Portanto, esta simples lei deve ser a base de nossa atividade: verdade, honestidade e mutua confiança entre todos os Irmãos e a qualquer homem que é possível de se tornar um Irmão – mentiras, artimanhas, enredamento e, se necessário, violência aos inimigos”. Os métodos de Bakunin, portanto, não estão tão longe dos de Nechayev. A principal diferença é que Nechayev realmente aos colocou em prática – incluindo chantagem e assassinato, dirigidas contra amigos e inimigos indiscriminadamente – enquanto Bakunin limitou-se apenas a palavras ou a certas mistificações relativamente inofensivas, como a aliança revolucionária de proporções globais em nome da qual ele supostamente falava. [34] Título alemão original d’O Capital, a edição mais recente publicada no Brasil é da editora Boitempo, Livro I publicado em 2013, Livro II publicado em 2014. A editora espera publicar o Livro III da obra em 2016. [35] Também no apêndice [36] Colchete de Paul Avrich. ** V – Prisão Após a ruptura em 1870, Bakunin e Nechayev nunca mais se viram. Nechayev foi para Londres, onde publicou o jornal chamado Obshchina (A Comuna), onde demandava de Bakunin e Ogarev o que sobrara do fundo Bakhmetiev. Após visitar Paris, às vésperas da comuna, ele retorna a Londres, então vai novamente à Suíça, onde leva uma existência precária no bojo do antigo negócio de seu pai, pintura de letreiros, e onde fora abrigado, por algum tempo, pelos discípulos italianos de Mazzini. O governo tzarista, todavia, estava determinado a pegá-lo; gastou mais dinheiro e esforço em sua caça que em qualquer outro revolucionário do século XIX. Bakunin enviou a Nechayev um aviso de que as autoridades estavam no seu encalço, mas Nechayev ignorou o aviso, convencido de que seu antigo mentor estava apenas “tentando tirá-lo de Zurique”. Finalmente, em 14 de agosto de 1872, foi delatado à polícia suíça por Adolf Stempkowski, um antigo revolucionário polonês que havia se tornado espião russo. Pouco depois disso ele foi extraditado à Rússia como um assassino comum, apesar dos vigorosos protestos de seus companheiros expatriados (inclusive Bakunin) de que ele era, na verdade, um refugiado político. [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-8.jpg 50][A Comuna, nº 1, setembro de 1870. Editado por Nechayev]] Em 2 de novembro de 1872, Bakunin expressara sua simpatia por Nechayev em uma memorável carta a Ogarev, que merece ser citada por extenso: “Tenho profunda pena dele. Ninguem nunca fez a mim, e intencionalmente, tanto mal quanto ele, mas tenho pena dele mesmo assim. Ele era um homem de rara energia, e quando nos encontramos, queimava nele uma chama muito ardente, muito pura, por nosso pobre e oprimido povo; nossa histórica e corrente miséria nacional causava nele real sofrimento. Naquele tempo seu comportamento externo era bastante desagradável, mas seu eu-interior não era maculado. Foi seu autoritarismo e sua obstinação descontrolada que, muito lamentavelmente e por meio da ignorância dele juntamente com seu maquiavelianismo e métodos jesuítas, por fim, mergulharam-no irremediavelmente na lama… todavia, uma voz interior diz-me que Nechayev, agora perdido para sempre, e certamente consciente disso, irá agora invocar das profundezas de seu ser, deformado e maculado, mas longe de raso ou comum, toda sua energia e coragem antigas. Ele irá perecer como um herói, e desta vez não trairá nada e ninguém. Tal é minha crença. Veremos se estou certo”. O restante da história de Nechayev pode ser contada brevemente. Quando julgado, em Moscou, janeiro de 1873, ele portou-se com inflexíveis provocações. “Recuso-me a ser escravo de seu governo tirânico”, ele declarou. “Não reconheço o imperador e as leis deste país”. Ele não respondeu a nenhuma das perguntas e foi finalmente levado gritando “Abaixo o despotismo!”. Após ser sentenciado a vinte anos de trabalho forçado, autodeclarou-se “um filho do povo” e invocou Razin e Pugachev: “que penduraram os nobres, como na França os enviaram à guilhotina”. Na cerimônia de “execução civil” seguinte a seu julgamento ele gritou: “Abaixo o tzar! Vida longa à liberdade! Vida longa ao povo russo!”. Os últimos dez anos da vida de Nechayev foram gastos em confinamento solitário na fortaleza de Pedro e Paulo, da qual ele havia falsamente alegado fuga em 1869. Seu comportamento na prisão, como Max Nomad relata, foi “um dos maiores episódios da história revolucionária”. Quando o General Potapov, da polícia secreta, visitou sua cela e ofereceu-lhe indulgência se ele servisse como espião, Nechayev golpeou-lhe a cara, derramando-lhe o sangue. Pelos próximos dois anos suas mãos e pés foram mantidos algemados, até que a carne começou a apodrecer. Ainda assim, o espírito de Nechayev permanecia inteiro. De fato, mesmo na prisão ele era capaz de exercer seu fascínio carismático sobre os outros, conquistando até seus guardas, que começaram a chama-lo “águia”. Ele os fez ler o jornal ilegal do grupo Vontade do Povo e até os ensinou a como escrever letras em código. Com a ajuda deles, na verdade, ele foi capaz de comunicar-se com seus colegas prisioneiros e, eventualmente, com o mundo exterior, enviando cartas aos comitê central da Vontade do Povo na véspera do assassinato de Alexander II. Vera Figner conta em suas memórias a excitação que tiveram ao saber que Nechayev ainda estava vivo, e próximo, na fortaleza de Pedro e Paulo, e não na Sibéria à qual fora condenado. Os planos de libertá-lo, contudo, foram postergados, com vistas a concentrar energias contra o tzar. Após o assassinato de Alexander II, o grupo Vontade do Povo foi esmagado e a relação de Nechayev com seus guardas foi descoberta, devido a uma traição de um colega prisioneiro. Como resultado, mais de sessenta funcionários da prisão foram presos e julgados, enquanto Nechayev foi sujeito a um regime homicida que, pouco tempo depois, levou-o à morte. Ele morreu de exaustão e escorbuto em 21 de novembro de 1882, contando 35 anos, pereceu “como um herói”, tal qual previu Bakunin. ** Conclusão O que, então, podemos concluir sobre Nechayev? Foi ele um absoluto canalha sem quaisquer qualidades que o redimam, ou um devoto revolucionário que foi injustamente caluniado por seus detratores? Até certo ponto, é claro, ele permanece um enigma, e uma biografia de fôlego, baseada em todas as fontes disponíveis, seria uma fascinante e válida empreita. Enquanto isso, contudo, algumas avaliações podem ser feitas. No lado positivo, sua coragem e dedicação não podem ser negadas. Ele era dotado, segundo Sazhin, de “colossal energia, de devoção fanática à revolução, de um caráter de aço, e de uma infatigável capacidade para o trabalho”. Ele viveu uma vida de pobreza e extrema autoprivação. Do dinheiro que obtivera do fundo de Bakhmetiev ele não gastou um único tostão consigo mesmo. Nem pode a genuinidade de seu fervor revolucionário ou de seu ódio ao privilégio e à exploração serem colocados em dúvida. Ele pagou por isso sendo trancafiado em uma masmorra por quase um terço de sua vida, um destino que ele encarou com resistência e nobreza que são sem par nos anais do martírio revolucionário. Mas sua dedicação altruísta carregava uma marca áspera e cruel. Ela não era temperada pelo calor e pela compaixão humana que Bakunin possuía em tanta abundância. Nechayev ganhou sua influência, antes, por sua feroz energia, seu imoralismo calculado e seu ódio sem limites ao estabelecido e a todos aqueles que ele considerava seus inimigos. Suas maiores faltas, escrevera Lev Deutsch, foram “uma confiança infinita em sua própria infalibilidade, um total desprezo pelos seres humanos, e uma sistemática aplicação do princípio de que os fins justificam os meios”. Ele considerava todos os homens e mulheres como meras ferramentas na luta revolucionária, desse modo despojando-os de suas dignidades pessoais, até mesmos de suas identidades. Desde o começo de sua carreira, escreveu Albert Camus em O Homem Revoltado[37], Nechayev “nunca parou de subornar os estudantes em torno dele, o próprio Bakunin, os refugiados revolucionários, e, até, os guardas de sua prisão”. Ele não titubeava em trazer radicais menos intransigentes às suspeitas da polícia para envolvê-los mais profundamente em suas próprias atividades conspiratórias. Ele alçou a conveniência revolucionária ao gral de bem absoluto, perante o qual toda a moralidade instituída deve se retirar. Nos interesses da revolução, dos quais ele era para ser, sozinho, o juiz, toda ação era justificada, todo crime legítimo, não importa o quão repugnantes possam ser. Ele mesmo praticara o roubo, a chantagem e o assassinato que pregava aos seus colegas conspiradores. Ele os praticou, ainda, tanto em amigos quanto em inimigos. “ele enganava todos que conhecia”, observa E. H. Carr, “e quando não era mais capaz de enganá-los, seu poder se esvaia”. Sua originalidade, Camus salienta, reside em “justificar a violência praticada aos próprios irmãos”. Portanto, em última instância, ele prenuncia, todavia em escala menor, os assassinatos em massa de Stalin em nome da necessidade revolucionária. Em resumo, enquanto Bakunin, quaisquer que sejam suas faltas, era essencialmente um libertário, Nechayev, quaisquer que sejam suas virtudes, era essencialmente um autoritário. Seus reais mentores não eram Fourier, Proudhon e Bakunin, mas Robespierre, Babeuf e Tkachev, cujos princípios jacobinistas ele levou às últimas dimensões. Longe de ser um anarquista, ele era um apóstolo da conveniência política, preocupado com os meios de conspiração e com organizações centralizadas, mas que com o objetivo de uma sociedade sem estado. Seu jacobinismo e maquiavelianismo entravam em atrito com o espírito libertário, rodeando o anarquismo com uma aura de brutalidade e crueldade que eram alheios à elementar humanidade. Nas mãos de Nechayev, anarquismo, o ideal de liberdade e dignidade humana, era maculado, rebaixado e, por fim, destorcido ao irreconhecível. Apesar disso, Nechayev tinha uma profunda influência sobre o movimento revolucionário, tanto entre anarquistas quanto entre não-anarquistas. Embora revelado como assassino de um companheiro revolucionário, sem contar um ladrão e chantagista, seus delitos eram sustentados por alguns contrabalanceados com seu fervor e autossacrifício. Assim, a Vontade do Povo enaltecera sua coragem e dedicação acima dos aspectos sombrios de sua carreira; e Lenin, que admirava seus talentos organizacionais e sua devoção abnegada à causa, glorificava-o como um “titã revolucionário”. Durante as revoluções de 1905 e 1917 a imagem de Nechayev agarrava mais que alguns jovens militantes da extrema esquerda, que, na paixão pela conspiração revolucionária, pelos métodos terroristas, e em sua extrema hostilidade a intelectuais, ergueram a peculiar estampa de seu mentor. Complementando, grupos contemporâneos, como os Panteras Negras, o Setembro Negro, os Wheathermen, a Fração do Exército Vermelho e o Exército Simbionês de Libertação empregaram os métodos de Nechayev – incluindo terror indiscriminado e a sujeição de meios a fins – em nome da causa revolucionária. O líder dos Panteras Negras Eldridge Cleaver conta-nos em Alma no Exílio[38] que apaixonara-se pelo Catecismo do Revolucionário e tomara a obra como uma bíblia revolucionária, incorporando seus princípios em sua vida cotidiana, empregando “táticas de crueldade em meu trato com qualquer um com quem eu tivesse contato” (o Catecismo foi publicado como um panfleto em 1969 pelos Panteras Negras de Berkeley, com uma introdução de Cleaver). O Exército Simbionês de Libertação foi acusado pelo assassinato (usando balas com ponta de cianeto) de um superintendente de escolas em Oakland, Califórnia, e alguns membros romperam com a organização por sua “devoção à violência e sua egoística insistência, por parte da liderança, em tomar decisões secretas”. Mesmo o assassinato de Ivanov, estranhamente, teve seus homólogos, no assassinato de um alegado informante cometido pelo grupo Panteras Negras em New Haven, 1969, e no massacre de 1972, cometido pelo líder do Exército Vermelho Japonês, de não menos que quatorze membros de seu grupo por violações da “disciplina revolucionária”. Mas as táticas do “nechayevismo” também provocaram espalhada indignação dentro do movimento revolucionário. Em seu próprio círculo, em São Petersburgo, nos fins da década de 1860, Nechayev já encontrava opositores em socialistas libertários como Mark Natanson, Feliks Volkhovsky, German Lopatin e Michael Negreskul. O Círculo Chaikovsky, da década de 1870 – que incluía Kropotkin e Kravchinsky, bem como Natanson, Volkhovsky e Lopatin – também não endossavam os métodos jacobinos de Nechayev, seu imoralismo cínico e sua organização partidária ditatorial. Em contraste ao Justiça do Povo, eles buscaram criar uma atmosfera de confiança e honestidade, e fundar uma organização baseada na ajuda e respeito mútuos entre seus membros. Rejeitando o maquiavelianismo de Nechayev, eles argumentavam que, no fim, não importa o quão nobre[39] a pessoa fosse, qualquer um poderia ceder à corrupção de tais meios monstruosos; e questionavam, como Bakunin, se o treinamento de grupos revolucionários nas linhas propostas por Nechayev não criariam uma elite arrogante de buscadores-do-poder que dariam ao povo o que eles deveriam querer, quer eles quisessem de fato ou não. Portanto, eles alinhavam-se no socialismo libertário de Herzen, Bakunin e Lavrov contra o revolucionismo autoritário de Ishutin, Tkachev e Nechayev, que, eles sentiam, não poderiam inspirar uma verdadeira revolução socialista, por sua falta de uma verdadeira moralidade socialista. O mesmo criticismo foi, mais tarde, levantado contra os Bolcheviques por Piotr Kropotkin, nos lábios de quem, relata Maria Goldsmith, “a palavra ‘nechayevismo’ era sempre uma forte repreensão”. Como um membro do Círculo Chaikovsky, Kropotkin criticou publicamente todas as associações ensimesmadas de “revolucionários profissionais”, com seus esquemas clandestinos, comitês dirigentes, disciplina de ferro e sujeição de meios a fins. Ele insistia que “uma individualidade moralmente desenvolvida deve ser a base de qualquer organização”. Para Kropotkin os fins e os meios são inseparáveis, e ele era inflexível em sua oposição a todas as táticas que fossem conflituosas com seus princípios e objetivos. Nem Bakunin, em seus momentos mais perspicazes, teria descordado. Como ele escrevera a Sazhin menos de dois anos antes de sua morte: “Perceba, de maneira ampla, que nada vivo e forte pode ser construído sobre trapaça jesuítica, que a atividade revolucionária que busca êxito deve não buscar seu suporte em paixões rasas e pequenas, e que nenhuma revolução pode suceder sem ideias elevadas e conspicuamente claras”. [37] Publicado originalmente, em 1951, sob o título L’homme révolté. No Brasil a obra foi publicada em 1999 pela editora Record. [38] Publicado originalmente como Soul on Ice, em 1968. No Brasil, foi publicado em 1971 pela Civilização Brasileira. [39] Nobre aqui no sentido de “nobreza de espírito”, “espírito eleveda”. (N.T.) ** Nota bibliográfica A primeira edição deste panfleto, consistindo de artigos publicados na Freedom entre 3 de novembro e 1 de dezembro de 1973, apareceu em 1974. A presente edição reproduz o texto original, com a revisão desta Nota Bibliográfica. O mais exaustivo e competente livro sobre Bakunin é a obra em três volumes de Max Nettlau Michael Bakunin: eine Biographie (Londres, 1896-1900), que é difícil de encontrar e de ler, mas que ainda não foi superada – embora uma rival marxista é a obra em quatro volumes de Yuri Steklov M. A. Bakunin: yego zhizn i deyatelnost (Moscou, 1926-1927). Existem diversas bibliografias posteriores, incluindo as de E. H. Carr Michael Bakunin (Londres, 1937), de H. E. Kaminski Bakounine: l avie d’um révolutionnaire (Paris, 1938), de Natália Pirumova Bakunin (Moscou, 1970), de Jeanne-Marie (pseudônimo de Violette Gaffiot) Michel Bakounine: une vie d’homme (Genebra, 1976) e a de Arthur P. Mendel Michael Bakunin: Roots of Apocalypse (New York, 1981). Houveram também diversos estudos, incluindo o de K. J. Kenafick Michael Bakunin and Karl Marx (Melbourne, 1948), o de Eugene Pyziur The Doctrine of Anarchism of Michael A. Bakunin (Milwaukee, 1955), o de Hem Day Mikhail Bakunin: A Study in the Psychology and Politics of Utopianism (Oxford, 1982), e o de Richard B. Saltman The Social and Political Thought of Michael Bakunin (Westport, Conn., 1983). Trabalhos tratando especificamente do caso Nechayev são os de René Cannac Netchaiev: du nihilisme au terrorisme (Paris, 1961), de Jean Barrué Bakounine et Netchaiev (Paris, 1971), e a de Stephen T. Cochrane The Collaboration of Nechaev, Ogarev e Bakunin em 1869: Nechaev’s Early Years (Giessen, 1977). A obra de Michal Prawdin The Unmentionable Nechaev (New York, 1961) foi já superada pela de Philip Pomper Sergei Nechaev (New Brunswick, N.J., 1979). Um longo artigo ilustrado comemorando o centenário da morte de Nechayev apareceu na Freedom em 11 de dezembro de 1982. Não existem coleções apropriadas dos escritos de Bakunin em Inglês, mas existem várias antologias utilizáveis, incluindo Marxism, Freedom and the State, editado por K. J. Kenafick (Londres, 1950); The Political Philosophy of Bakunin, editada por G. P. Maximoff (New York, 1953), Bakunin on Anarchy, edotada por Sam Dolgoff (New York, 1971), e Michael Bakunin: Selected Writings, editada por Arthur Lehning (Londres, 1973). Existem boas coleções em diversos outros idiomas. A mais importante edição moderna são os Archives Bakounine, editados desde 1961 por Arthur Lehning, do International Institute of Social History in Amsterdam e notável pela preparação meticulosa e prodigiosa produção. O quarto volume, Michel Bakounine et ses rélations avec Sergej Nečaev, 1870-1872 (Leiden, 1973), dá um detalhado registro documental da segunda fase da relação deles, incluindo o subsequente destino de Nechayev. Infelizmente o compêndio sobre a primeira fase da relação deles e da atividade inicial de Nechayev na Rússia ainda não apareceu. Enquanto isso Michael Confino, da Tel Aviv University produziu dois livros bastante valiosos – Violence dans la violence: le débat Bakounine-Nečaev (Paris, 1973) e Daughter of a Revolutionary: Natalie Herzen and the Bakunin/Nechaev Circle (La Salle, Illinois, 1973; Londres, 1974) – que dão similares, embora não iguais, registros documentais de todo o episódio (incluindo o texto completo do Catechism of the Revolutionary). E Arthur Lehning produziu Michel Bakounine et les autres (Paris, 1976), uma biografia documental. Outros livros úteis que dão informações relevantes sobre o movimento anarquista ou sobre o movimento revolucionário russo incluem o segundo volume de Max Nettlau Geschichte der Anarchie: Der Anarchismus von Proudhon zu Kropotkin (Berlin, 1927), E. H. Carr The Romantic Exiles (Boston, 1939), Max Nomad Apostles of Revolution (Boston, 1939), Albert Camus L’homme révolté[40] (Paris, 1951), G. H. D. Cole A History of Socialist Thought: Marxism and Anarchism (Londres, 1954), Eugene Lampert Studies in Rebellion (Londres, 1957), Richard Hare Portraits of Russian Personalities between Reform and Revolution (Londres, 1959), Franco Venturi Roots of Revolution (New York e Londres, 1960), George Woodcock Anarchism[41] (Cleveland, Ohio, 1962; novas edições, 1975 e 1987), James Joll The Anarchists (Londres, 1964; nova edição, 1979), Eugene Lampert (Paris, 1965), Paul Avrich The Russian Anarchists (Princeton, N.J., 1967), Robert Payne The Fortress (New York, 1967) e David Miller Anarchism (Londres, 1984). [40] Para a edição brasileira da obra, conferir nota 1 da conclusão. [41] Esta obra foi publicada no Brasil em 2002 pela L&PM Pocket em dois volumes, sob o título História das Idéias e Movimentos Anarquistas. ** Nota bibliográfica à edição brasileira | Nota bibliográfica à edição brasileira[42] A publicação, no Brasil, de obras teóricas e de analises biográficas de fôlego sobre o pensamento anarquista é bastante escassa. Boa parte das obras mencionadas pelo autor inexiste em português, e também há pouco fomento à produção de interpretações anarquistas próprias em nosso país, principalmente a nível acadêmico. Apesar disso, alguns estudos e publicações existem. Mencionarei alguns, sem pretensão de apresentar a totalidade dos estudos anarquistas em língua portuguesa: É interessante começar mencionando a obra, publicada em 2001 pela editora Imaginário, A Bibliografia Libertária – o anarquismo em língua portuguesa, que, após introdução debatendo a publicação de obras libertárias em português, apresenta um extenso sumário de “todas” as obras libertárias publicadas em língua portuguesa de 1974 até o ano 2000. É organizada por Adelaide Gonçalves e Jorge E. Silva. Há também a obra De Baixo para Cima e da Periferia para o Centro, organizada por Andrey Ferreira e Tadeu Toniatti, publicada em 2014 pela editora Alternativa. Esta obra, além de apresentar textos inéditos de Bakunin em língua portuguesa, traz extensa introdução fazendo balanço dos estudos, das publicações e do lugar da teoria anarquista em organizações de movimento social e epistemologia no Brasil. Em termos biográficos, no Brasil temos a obra de Sérgio Queiroz chamada Bakunin – Sangue, Suor e Barricadas, publicada em 1988 pela editora Papirus. Recentemente também, em 2015, foi traduzida a obra de Fritz Brupbacher Bakunin – o Satã da Revolta, publicada em coedição pelas editoras Intermezzo e Imaginário. Do ponto de vista mais teorético-analítico temos algumas obras como Os Arquitetos da Ordem Anárquica – de Rousseau a Proudhon e Bakunin, de Patrizia Piozzi, publicada pela editora da UNESP em 2006; o livro de 2014 Teoria Bakuniniana do Estado, de Felipe Corrêa, publicado pela Imaginário. Há também textos de Maurício Tragtenberg produzidos como introdução das obras Deus e o Estado e Federalismo, Socialismo e Antiteologismo. Tais textos serviram de introdução e breve análise a estas duas obras quando de suas publicações pela editora Cortez, ambas em 1988. Os dois textos podem ser encontrados na compilação Maurício Tragtenberg – Teoria e ação libertárias, publicado em UNESP em 2011[43]. Como espero que tenha ficado claro nestas sugestões bibliográficas, foquei nas publicações que tratam mais especificamente de Bakunin. Todavia, é importante salientar que existem diversas outras que tratam não só dele, mas do anarquismo em sentido amplo. Sobre Nechayev não encontrei nada publicado em formato de livro, mas certamente existem textos online. [42] Essa nota foi produzida pelo editor brasileiro. [43] Há também, nesta obra, uma interessante análise da polêmica entre Marx e Bakunin, intitulada Marx/Bakunin. ** Sobre o autor [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-6.jpg 35][Paul Avrich, 1931-2006]] Paul Avrich foi um professor e pesquisador norte-americano. Teve um papel fundamental na preservação da história do movimento anarquista russo e estadunidense. Morreu em 2006, aos 74 anos, na cidade de New York. Quando do acontecimento, doou cerca de 20 mil manuscritos e publicações anarquistas, de sua coleção, à Biblioteca do Congresso (EUA). Dentre seus títulos, destacamos aqui os mais relevantes: - The Russian Anarchists (1967) - Kronstadt, 1921 (1970) - Russian Rebels, 1600-1800 (1972) - The Anarchists in the Russian Revolution (1973) - An American Anarchist: The Life of Voltairine de Cleyre (1978) - The Modern School Movement: Anarchism and Education in the United States (1980) - The Haymarket Tragedy (1984) - Anarchist Portraits (1988) - Sacco and Vanzetti, The Anarchist Background (1991) - Anarchist Voices: An Oral History of Anarchism in America (1995) - Sasha and Emma: The Anarchist Odyssey of Alexander Berkman and Emma Goldman (2012) [em coautoria com Karen Avrich] ** Sobre os colaboradores *** Prefaciador Felipe Corrêa é editor pós-graduado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mestre pela Universidade de São Paulo (EACH), no programa de Mudança Social e Participação Política, e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação, área de concentração “Ciências Sociais na Educação”, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Membro da Comissão Editorial da Faísca Publicações e do Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA). E-mail: felipecorreapedro@gmail.com *** Ilustrador Heitor Vilela é Jornalista e Ilustrador. Formou-se pela Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás e é coordenador da página de arte Rabiscos e Escarros. [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-10.jpg 70][Desenho original de Heitor Vilela utilizado como base à capa desta edição. Feito em nanquim e aquarela (tintas de tons vermelhos e pretos)]] E-mail: heitorairplane@gmail.com ** Apêndices: cartas de Bakunin a Nechayev | Apêndices — Cartas de Bakunin a Nechayev [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-8.png 50][Rubrica de Mikhail Bakunin. Fonte: Wikipedia]] *** Carta de 11 de maio de 1870 [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-11.png 70][Digitalização da carta de Bakunin a Nechayev de 11 de maio de 1870. Fonte: Oeuvres Complètes. International Institute of Social History, Netherlands Institute for Scientific Information Services, Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences, 2000 (CD-ROM)]] 11 de Maio de 1870, Locarno[44]
Casa Pedrazzini
Meu querido amigo. O que significa seu silêncio? Você recebeu minhas cartas ( de 2, 4, 6 e 9 de maio), e minhas mensagens (5 e 7)? Enviei para o endereço que você me indicou. Se você já recebeu, por que não me responde? Disse-me bem, não sei e não compreendo nada. Por favor, responda-me imediatamente. Onde você está? O que está acontecendo? O que aconteceu com você? Como vai o comitê? Cadê a resposta que me prometeu? E acima de tudo, por que esta assembleia? Aguardo sua resposta. M. B. [44] Agradecemos a professora Maria Luiza (UFG) pelas dicas no francês. *** Carta de 2 de junho de 1870 [[p-a-paul-avrich-bakunin-nechayev-pt-12.png 70][Digitalização da 1ª folha da carta de Bakunin a Nechayev de 2 de junho de 1870. Fonte: Oeuvres Complètes. International Institute of Social History, Netherlands Institute for Scientific Information Services, Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences, 2000 (CD-ROM)]] 02 de Junho de 1870, Locarno Estimado companheiro: dirijo-me agora a você e, através de você, ao seu e ao nosso Comitê. Espero que se você está agora em um lugar seguro, livre das pequenas moléstias e inquietações, possa reconsiderar tranquilamente a sua situação e a nossa em geral, nossa causa comum. Comecemos reconhecendo que nossa primeira campanha, iniciada em 1869, se perdeu, estamos derrotados. Esmagados por duas razões principais: a primeira, o povo não se levantou em cuja revolta confiávamos com todo o direito. Vemos que não se esgotou o limite de seus sofrimentos e o limite de sua paciência. Vemos que sua confiança em si mesmo, em seu direito e em sua força, ainda não estava avançada e não se encontrou um número suficiente de pessoas capazes por toda a Rússia para atuar junto e despertar essa confiança. A segunda razão, nossa organização, pela qualidade e pela quantidade de seus membros e do mesmo modo de sua formação, resultou insuficiente. Por isso fomos derrotados, perdemos muitas forças e pessoas valiosas. Este é um fato inquestionável e devemos reconhecer-lo totalmente, sem retroceder em nenhum momento, para que seja um ponto de partida de nossas próximas reflexões, empresas e ações. Você estava consciente disso, assim como seus amigos, sem nenhuma dúvida antes, muito antes de me contar. Pode-se dizer que nunca me falaram disso. Tive que adivinhar pelas contradições, numerosas e evidentes, de suas declarações e por fim convencer-me, pela estado geral da situação, pois estava muito claro que não havia modo [...] de ocultar-lo nem sequer aos companheiros mais desinformados. Você estava convencido disso más que a medias quando veio a minha casa em Locarno. Mas você me falou com completa certeza e do modo mais afirmativo da iminência da necessária sublevação. Você me enganou, e eu, suspeitando ou pressentindo instintivamente a mentira, me negava consciente e sistematicamente a acreditar. Você continuou falando e atuando como se me dissesse a pura verdade. Se me houvesse mostrado, durante sua estadia em Locarno, a situação tal como era em relação ao povo e a organização, sem dúvida haveria redigido minha convocação aos oficiais no mesmo sentido e com o mesmo espírito, porém, com outras palavras. E haveria sido melhor para mim, para você e sobre tudo para a situação. Eu não lhes haveria falado de um movimento eminente. Não me aborreço com você e não lhe faço reprovação por saber que quando você está mentindo, ocultando ou silenciando a verdade, você o faz fora de interesses pessoais, faz simplesmente por que acredita ser útil a causa. Todos nós e eu lhe queremos com afeto e lhe respeitamos profundamente precisamente por que nunca encontramos um homem tão desapegado de si mesmo como você e tão entregue a causa. Mas nem esse afeto, nem esse respeito, poderiam impedir-me de lhe dizer francamente que seu sistema de mentiras, que tende cada vez mais a ser sua principal, seu único sistema, sua arma e meio principal, é mortal para a mesma causa. Não obstante, antes de tentar demonstrar-lhe, e espero conseguir, falarei sobre a minha atitude para com você e seu Comitê. Buscarei explicar por que, a pesar dos pressentimentos e as dúvidas racionais e instintivas, que me avisavam cada vez mais contra a verdade das suas palavras, ainda não acreditava neles. Até minha última viajem a Genebra, eu falava e atuava como se confiasse totalmente em você. Se pode dizer que estou 30 anos distante da Rússia, entre meus 40 e 51 anos estava no estrangeiro, a princípio com um passaporte, logo como emigrante. Aos 51 anos, depois de dois anos prisioneiro nas fortalezas de Saxônia e Áustria, fui entregue ao governo russo, que durante ainda 6 anos me manteve, a princípio na fortaleza Pedro e Paulo, no Revelim Alexis, logo em Shliselburgo. Aos 57 anos, fui mandado a Sibéria, passei dois anos no oeste e dois no leste. Aos 61 anos eu fugi da Sibéria. Desde então, por suposto, não voltei a Rússia. Assim, durante 30 anos, vivi 4 anos (há 9), dos 57 aos 61, livre na Rússia, ou seja, na Sibéria. Isso, naturalmente, me deu a possibilidade de conhecer de perto o povo russo, seus camponeses, seus burgueses, seus comerciantes, especialmente na Sibéria, porém, não a sua juventude revolucionária. Na minha época não havia outros exilados políticos na Sibéria senão alguns poucos dekabristas e polacos. Conheci, no entanto, é verdade, um grupo de quatro Petrashevistas, Petrashvski, Lvov e Tol, mas essas pessoas representavam um tipo de transição entre os dekabristas e a juventude atual. Eram socialistas doutrinários, livrescos, fourieristas e pedagogos. Os jovens reais, nos quais eu acredito, desclasados, desapegados, [...] este grupo da revolução popular, de que falei várias vezes em meus escritos, não os conheço e só agora começo pouco a pouco a relacionar-me com eles. A maior parte dos russos que vinham saudar Herzen em Londres eram pessoas bem situadas e homens acadêmicos ou oficiais liberalizantes ou democratizantes. O primeiro revolucionário russo sério foi Potebnia, o segundo, você. Não vou falar de Utin nem dos outros emigrados de Genebra. Assim, até nosso encontro, a verdadeira juventude revolucionária russa era para mim “terra incógnita” [assim está no original em russo]. Bastou-me pouco tempo para compreender sua seriedade, para confiar em você. Me convenci e até agora sigo convencido que ainda que vocês não sejam muito numerosos, representam uma ação séria, a única ação revolucionária séria na Rússia. E feita minha convicção, disse a mim mesmo que minha obrigação era ajudar-lhes com toda minha energia e meus meios, associando-me como pudesse ao movimento russo. Esta decisão foi mais fácil de tomar já que o seu programa, pelo menos no ano passado, não só parecia, mas era inclusive idêntico ao meu, elaborado constantemente [...] sobre a base da experiência de uma já larga vida política. Definamos em alguns traços este programa sobre a base na qual eu e você nos aliamos profundamente o ano passado e do qual você se afasta, ao que parece, sensivelmente, mas que, por minha parte, continuo fiel [...] ao ponto que se seus sentimentos atuais e seu afastamento – ou o de seus amigos – deste programa forem definitivos, me veria obrigado a romper todas as relações políticas e íntimas com você. Este programa pode se formular claramente em algumas palavras: liquidação total do mundo estatal e jurídico e da chamada civilização burguesa por uma revolução popular espontânea, invisivelmente dirigida, de nenhuma maneira por uma ditadura oficial, senão pela ditadura anônima e coletiva dos amigos da emancipação completa do povo de qualquer jugo, solidamente aliados em uma associação secreta e atuando sempre e por todas as partes com um único objetivo e um programa único. Tal é a idéia e tal é o plano sobre a base do qual me aliei a vocês. Para realizar-lo, lhes estendi a mão. Vocês sabem como me mantive fiel a minha promessa de aliança. Vocês sabem como confiei em vocês desde que me convenci de sua seriedade e da identidade de nossos programas revolucionários. Não lhe perguntei quem são seus amigos, nem quantos são, nem verifiquei suas forças. Acreditei sob palavra. O fiz por debilidade, por cegueira, ou por burrice? Vocês mesmos sabem que não. Vocês sabem muito bem que nunca houve em mim confiança cega e que já no ano passado durante conversas sozinho com você, e outra vez na casa de Ogarev e em sua presença, lhe falei claramente que não éramos forçados a acreditar em você, porque para você não há problema em mentir quando lhe parece que a mentira pode ser útil a causa. Portanto, não temos outra garantia de veracidade de suas palavras senão sua induvidável seriedade e total entrega a causa. Que seja importante esta garantia, não o salva, no entanto, dos erros e resvalos se nos entregássemos a você com os olhos fechados. Mas apesar dessa convicção, que lhe expressei várias vezes, permaneci, contudo, com você e em todas as partes lhe ajudei o quanto podia. Deseja saber por que o fiz? Primeiro, porque até sua saída de Genebra para Rússia nossos programas era no fundo os mesmos. Disso eu pude me convencer não apenas com nossas conversas diárias, senão pelo fato que todos os meus escritos concebidos e publicados em sua presença, suscitavam em você uma grande simpatia pelos pontos que melhor e mais claramente traduziam nosso programa comum, e também porque seus escritos editados o ano passado levavam um caráter idêntico. Segundo, porque reconhecia em você a energia real e incansável, a dedicação, a paixão [...] e a reflexão, acreditei e acredito capaz de reunir ao redor de você, não para você senão para a causa, verdadeiras forças. E eu dizia a mim mesmo e dizia a Ogarev, que se não estavam ainda reunidas, seguramente o seriam rapidamente. Terceiro, porque de todos os russos que conheço, você me pareceu o mais apto para levar a cabo esta empresa. Disse a mim mesmo e a Ogarev que não devíamos esperar a chegada de outra pessoa, que ambos éramos maiores, que era pouco provável encontrar alguém como você, mais dedicado, mais capaz. Se, portanto, desejávamos estabelecer vínculos com a causa russa, tínhamos que associar-nos com você e não com outros. Não conhecemos seu Comitê nem sua associação e unicamente podemos julgar por você. Se você é sério, por que não seriam seus amigos, presentes e futuros? Sua induvidável seriedade, era para mim uma garantia que, por uma parte, você não iria admitir pessoas inúteis e, por outra, que vocês não ficariam sozinhos e que se esforçariam para constituir uma força coletiva. Existe, é verdade, em você um ponto débil que me assombrou desde os primeiros dias de nosso encontro, mas ao que, o confesso, não lhe dei a devida atenção: é sua inexperiência, sua falta de conhecimento das pessoas e da vida, ao qual está ligado a um fanatismo, não distante ao misticismo. A ignorância das condições sociais, dos costumes, características, idéias e sentimentos ordinários do chamado mundo culto, o faz ainda hoje incapaz de trabalhar com êxito nesse meio, inclusive para destruir-lo. Você até hoje desconhece as métodos que permitem adquirir influência e força, o que o condena a erros fatais cada vez que para as necessidades da causa entra em contato com pessoas ilustradas. Viu-se claramente com sua infeliz tentativa de publicar Kolokol em condições impossíveis. Mas falaremos mais diante de Kolokol. O desconhecimento das pessoas lhe acarreta necessariamente erros. Você exige muito delas e ao mesmo tempo espera muito delas, encarregando-lhes tarefas acima de suas forças, na medida em que todas as pessoas devem estar animadas da mesma paixão que você. Além disso, você absolutamente não confia nas pessoas e por isso não leva em conta a paixão que se vai despertando nelas, a orientação que se vai criando, assim como a honradez de suas aspirações para os mesmos fins que você. E você tenta sujeitar-la, aterrorizar-la, atar-la com um controle exterior e amiúde insuficiente, para que uma vez caída em suas mãos não possa escapar jamais. E não obstante as pessoas fogem e fugirão constantemente enquanto você não mude seu sistema de comportamento com elas, enquanto não se esforce para que elas encontrem principalmente a razão da aliança com você. Lembre-se de quando se aborreceu quando o chamei de “abrek” [1], e seu catecismo, um catecismo de “abrek”. Você disse que em todos os indivíduos deveria estar a renuncia total a si mesmo e a todos os desejos pessoais, satisfações, sentimentos, afetos e relações, como estado normal, natural e constante de todos os indivíduos sem exceção. Sua dureza para consigo mesmo, seu autêntico e grande fanatismo, você quer que seja, desde agora uma regra de vida para toda a comunidade. Você aponta a fatos absurdos, impossíveis, a negação completa da natureza dos homem e da sociedade. Esta busca é nefasta, porque lhe empurra a gastar suas forças de modo banal, e os tiros saem pela culatra. Ninguém, por maior força que tenha, e nenhuma associação, por mais perfeita que seja a sua disciplina e poderosa sua organização, não conseguirá nunca vencer a natureza. Somente os fanáticos religiosos e os ascetas podem tentar vencer-la. Por isso estranhei muitíssimo de encontrar em você uma espécie de idealismo místico e panteísta. Dadas suas inclinações, isso me pareceu perfeitamente claro, ainda que perfeitamente absurdo. Se, querido amigo, você não é um materialista como nós os pecadores, senão um idealista, um profeta, um monge da Revolução, seu herói não pode ser nem Babeuf nem sequer Marat, senão Savonarola. Por sua forma de espírito você se aproxima mais a [ilegível...], aos jesuítas que a nós. Você é um fanático. Daí sua enorme força de caráter e junto a ela, sua cegueira, e a cegueira é uma debilidade grande e mortal. A energia cega divaga e tropeça; e quanto mais terrível é esta energia, mais irreparáveis e significativos os erros. Falta muito em você o espírito crítico, e com essa carência [...] é impossível uma apreciação correta dos indivíduos, das situações, dos meios adequados às metas. Tudo isso compreendi e já dizia a mim o ano passado. Porém, duas considerações equilibravam a totalidade a seu favor. Primeiro, reconhecia e reconheço em você uma força considerável e, se pode dizer, sumamente pura, sem nenhuma mescla de vaidade, uma força como não encontrei nenhuma igual em outros russos. Segundo, dizia e ainda o digo, que você ainda é jovem, com tanta renuncia preciosa ao personalismo, aos caprichos vaidosos e ilusões, que não poderia por muito tempo seguir uma via mentirosa e enganosa, funesta para a própria causa. Esta é ainda hoje minha convicção. Por fim, via e sentia que você estava longe de me dar completa confiança e que em muitos aspectos me tratava como um instrumento para fins imediatos e desconhecidos por mim. Mas não me inquietava totalmente. Primeiro, eu gostava do seu mutismo sobre quem participava em sua organização, dada minha convicção de que nesse tipo de assunto, inclusive as pessoas mais próximas só devem saber o que é na prática imprescindível para o êxito de sua tarefa. E você vai reconhecer esta verdade, de que eu nunca lhe fiz perguntas indiscretas. Inclusive se você tivesse citado nomes, em oposição ao seu dever, isso não me ajudaria em nada, por não conhecer as pessoas que você lidera. Tive que julgar-lhe por sua palavra, e acreditei e acredito em você. Um comitê composto de pessoas como você e merecendo toda sua confiança, merece por nossa parte não menos que uma confiança integral. Coloca-se uma questão: existiu realmente sua organização, ou você tentou unicamente lançar-la? E se existiu, era numerosa e representava ao menos um embrião de uma força, ou só era uma mera esperança? Existiu inclusive o próprio Comitê, seu santo dos santos, com a forma indicada e com esta profunda coesão que você vincula à vida e à morte, ou você somente se dispôs a formar-lo? Em uma palavra, representava você uma força isolada, muito honrável por certo, porém individual, ou uma força coletiva real e existente? E [...] se a associação e o Comitê dirigente existiram de verdade – supondo que, especialmente o Comitê, estivesse compostos exclusivamente de homens dedicados, firmes, tão fanaticamente entregues e desapegados de si mesmos como você, me ocorre uma outra pergunta: Possuíam e possuem bastante espírito prático e conhecimentos, bastante preparação teórica e aptidão para conhecer as condições e relações dentro da vida do povo e as classes na Rússia, para que o Comitê revolucionário não seja de maneira nenhuma insignificante, senão autêntico, e para que abarque toda a vida russa e penetre em todas as camadas sociais da Rússia, como realmente uma organização poderosa? Da ardente energia dos participantes depende a franqueza da ação; do espírito prático e dos conhecimentos deles, seu êxito. Para eu ter uma idéia tanta da realidade como das possibilidades e do espírito da empresa de vocês, eu não parava de lhe fazer perguntas, e confesso que suas respostas não me pareceram absolutamente satisfatórias. Como não se esquivava nem me enrolava, você, contra a sua vontade, expressou o seguinte: sua associação, dada sua filiação, era muito insignificante, e por seus meios materiais, era ainda mais. Falta-lha ainda espírito prático, conhecimentos e destreza. Mas o Comitê, integrado por você, é sem nenhuma dúvida composto de homens como você, e entre eles você é um dos melhores, um dos mais firmes. Você é o fundador e até agora o dirigente da associação. Tudo isso, estimado amigo, eu entendi e soube já no ano passado. Isso não me impediu de nenhum modo a aliar-me com você, porque reconheci em você [...] um militante inteligente e dedicado com paixão, como há poucos, e porque eu estava convencido que você havia conseguido descobrir pelo menos alguns homens do seu temperamento e agrupar-los. Eu estive convencido e sigo sendo até o momento, que pela via da experiência e com esforços incansáveis e ardentes, você iria adquirir rapidamente os conhecimentos, a razão a destreza, sem os quais o êxito é impossível. E como fora do seu círculo eu não supunha e não suponho que possa existir na Rússia outro tão sério como você, apesar de tudo, decidi ficar unido com você. Não me incomodava de nenhuma maneira ver-lhe sem cessar exagerar frente a mim suas forças: é uma postura objetiva e muitas vezes positiva, e outro valor de todos os conspiradores. Mas é verdade que notei na sua tentativa de me enganar a prova de sua compreensão ainda insuficiente do povo. Me pareceu que com todas nossas conversas, você deveria ter compreendido que para me entusiasmar não necessitava dar-me provas de uma força já existente e organizada, senão apenas a prova de sua inquebrantável e inteligente vontade de criar tal força. Entendi também que possuía frente a mim alguém como um representante e de alguma maneira um embaixador de uma organização já existente e bastante forte. Ao portar-se dessa maneira, você se colocou na posição de me apresentar suas condições da parte de uma poderosa organização, e não apenas como um indivíduo que juntava forças. Você deveria ter falado comigo de igual para igual, de pessoa para pessoa, e expor-me [...] seu programa [...] e sua ação. Isso não entrava em seus cálculos. Você ficava demasiado fanaticamente apegado ao seu programa e seu plano para submeter-los a qualquer crítica. E segundo, você não confiava bastante em minha dedicação pela causa e em minha compreensão para mostrar-me sua empresa sob sua verdadeira luz. Você teve uma atitude ascética para com toda a emigração e teve razão. Você o foi talvez um pouco menos comigo, porque te dei diversas provas de minha vontade de servir a causa sem nenhuma pretensão pessoal nem cálculos. Você me tomava, no entanto, por um incapacitado cujos conselhos e conhecimentos podem as vezes ser útil, porém [...] cuja participação em sua ardente empresa seria inútil e até prejudicial. Eu vi isso muito bem, porém não me ofendi absolutamente. Você mesmo sabia [...] isso e não podia induzir-me a separar-me de você. Eu não tinha que demonstrar-lhe que não sou absolutamente uma pessoa acabada e incapaz de tomar parte em uma ação ardente e séria como lhe parecia. Deixava e deixo ao tempo e a sua própria experiência que lhe convençam do contrário. Existia e há até hoje uma circunstancia particular que me obrigava e me obriga ainda a mostrar-me muito cauteloso frente a todos os assuntos e as pessoas da Rússia. É a minha total falta de dinheiro. Toda minha vida lutei com a pobreza e cada vez que pude empreender e fazer algo útil, o fiz não com meus recursos senão com recursos alheios. Isso me custou desde a muito tempo, sobre tudo da parte da canalha russa, uma montão de calúnias e ataques. Esses senhores contaminaram profundamente minha fama e com isso paralisaram sensivelmente minha atividade. Acudi a toda a verdadeira paixão e a sincera vontade que me animam (digo sem vaidade, senão por experiência) para não quebrar-me e seguir atuando. Você também [...] sabe que o quão mentirosos e odiosos são os rumores que correm sobre meu luxo pessoal e minha inclinação a fazer dinheiro as custos dos demais, a enganar-los. Particularmente as canalhas da emigração russa, os Utin e Cia., se atrevem a tratar-me de trapaceiro e explorador interesseiro, eu que, desde que tenho memória, nunca vivi por minha satisfação pessoal e que sempre me esforcei para emancipar aos demais. Não tome isso por vanglória, digo isso a você e a seus amigos, já que, sinto o direito e a necessidade de dizer-lhe de uma vez por todas. É evidente que para dedicar-me por inteiro a serviço da causa, devo ter os meios de existência necessários. Estou envelhecendo; oito anos [...] de detenção provocaram uma enfermidade crônica [...] daí determinados cuidados, certas condições para servir utilmente a causa. Além disso, tenho uma mulher e filhos que não posso condenar a morrer de fome. Esforcei-me para reduzir meus gastos ao mínimo, mas apesar disso não podia viver sem receber cada mês uma certa quantia. Aonde tomar-la, se dou todo meu labor a causa comum? Há ainda outras razões; por haver fundado a alguns anos a Aliança Internacional Revolucionária Secreta, não posso nem quero abandonar-la para dedicar-me unicamente a causa russa. Pelo menos, em meu pensamento, a causa russa e a causa internacional são apenas uma. Até agora esta não me deu meios de subsistência, só me custou dinheiro. Tal é em poucas palavras a chave da minha situação. Você compreende que esta pobreza, por uma parte, e as calúnias rasteiras propagadas por emigrantes russos da outra, me paralisam em relação as pessoas novas e a todas as causas. Você vê quantos motivos tinha para não querer me impor, não pedir-lhe mais confiança além daquela que lhe parecia oportuno outorgar-me. [ilegível] esperar a você e seus amigos se convencerem de que era possível, útil e necessário confiar em mim. Além disso, eu via e entendia muito bem que, ao não tratar-me de igual para igual, como uma pessoa de confiança, de acordo com o seu sistema e acatando, como se viu, sua necessidade lógica, você me considerava como um objeto de experimentação, ao 80% cego, para a causa, usando como ferramenta minha pessoa, minha militância e meu nome. De modo que, não dispondo na realidade da força que me falava, estava usando meu nome para organizar-la na Rússia, até o ponto que muito acreditam que estou na cabeça de uma associação secreta de que, como você sabe, desconheço absolutamente tudo. Teria eu que permitir que se sirvam de meu nome como meio de propaganda e recrutamento para uma organização com um plano de ação e objetivos imediatos da qual ¾ das partes me desconhecidas? Sem vacilar respondo categoricamente: sim, podia e devia fazer-lhe. Aqui estão minhas razões: Primeiro, sempre estive convencido de que o Comitê Revolucionário Russo deve e somente ele pode ter sua atividade na Rússia, e querer dirigir a revolução russa desde o exterior é um absurdo. Se você e seus amigos tivessem que ficar muito tempo no exterior, lhe explicaria que você já não é membro do Comitê. Se vocês fossem emigrantes, deveriam, como eu mesmo fiz, submeter-se, quanto ao que concerne as atividades russas, a direção absoluta de um novo Comitê na mesma Rússia, reconhecido por vocês sobre a base de um programa e um plano discutido juntos. Vocês formariam um Comitê russo no estrangeiro com plena autonomia para administrar todas as atividades, a gente e os círculos russos fora da Rússia, em plena conformidade de pontos de vistas com o Comitê [de lá], e com autonomia e independência que corresponde para a eleição dos modos e meios de ação, e sobre tudo de acordo com a Aliança Internacional. Nesse caso, eu teria o dever e o direito de exigir que eu integrasse em plano de igualdade este Comitê russo no estrangeiro. É o que por outra parte havia pedido em minha última carta que dirigi ao Comitê e a você, reconhecendo que este deve estar na Rússia. Por suposto, eu não tive nem a possibilidade nem a intenção de regressar a Rússia, e tampouco tenho a pretensão de entrar no Comitê que ai está. Através de você tive conhecimento do programa e dos objetivos da atividade desse Comitê. Como eu estava inteiramente de acordo com vocês, lhe comuniquei estar disposto e com a firme resolução de ajudar ao Comitê e servir-lo por todos os meios a minha disposição. Posto que meu nome lhe parecia útil para atrair novos aderentes a sua organização, lhe autorizei para usar-lo. Eu sabia que isso ia pela causa (nosso programa comum e o seu caráter eram minha garantia) e não temi ver-me exposto, em caso de erros ou fracassos, às críticas públicas, porque estou acostumado as injúrias. Porém, lembre-se de que já no verão passado convencionamos entre nós dois que você me comunicaria todas as empresas, atividades e [contatos com] russos no estrangeiro e que tudo o que se faça ou tente fazer ai, não se faria sem que eu soubesse e sem minha aprovação. Era uma condição necessária. Primeiro, porque conheço o estrangeiro muito melhor que qualquer um de vocês; e segundo, porque uma solidariedade cega e independente de você para as suas ações e publicações no estrangeiro poderiam colocar-me em uma situação contrária aos meus deveres e aos meus direitos como membro da Aliança Internacional. Esta condição, como vamos ver, não foi cumprida pela sua parte e, por não aplicar-se integralmente, eu estaria na obrigação de romper todas as relações políticas e pessoais com você. Antes de tudo, meu sistema difere do seu aonde não admite nem o interesse, nem sequer a possibilidade, de uma outra revolução a não ser a revolução espontânea, ou seja, popular e social. Qualquer outra revolução, esta é minha profunda convicção, seria desonesta, nociva e mortal para a liberdade e o povo, porque lhe asseguraria uma miséria nova e uma nova servidão. E o essencial é que qualquer toda revolução resulta desde agora impossível, fora do alcance e irrealizável. A centralização e a civilização, as ferrovias, o telégrafo, os novos armamentos e a nova organização do exército, em fim, a ciência administrativa, quer dizer, a ciência da submissão e da exploração sistemática das massas, a ciência da domesticação de todo tipo de sublevações populares, está tão cuidadosamente elaborada, verificada pela experiência e aperfeiçoada no decurso dos últimos setenta e cinco anos de história contemporânea, acrescentando o fato de que o Estado e seu armamento representa atualmente uma força tão enorme, que todas as tentativas artificiais, os complôs secretos fora do povo, os ataques e os assaltos de surpresa viriam a despedaçar-se frente a esta força, que somente poderá ser vencida e destruída pela revolução espontânea, popular e social. Assim, o único objetivo da associação secreta deve ser não o de constituir uma força artificial fora do povo, senão despertar, agrupar e organizar as forças populares espontâneas. Nestas condições, o exército da revolução, o único capaz e real, não está fora do povo, é o próprio povo. Não se lhe despertará através de meios artificiais. As revoluções populares são engendradas pela própria força das coisas ou por essa corrente histórica que, invisível e subterrânea, incessante e a maior parte do tempo lenta, corre por entre as camadas populares, abarcando-as cada vez mais, penetrando gota a gota, até que se escape desde abaixo para fora sua selvagem corrente, até que rompa todos os obstáculos que encontrar no seu caminho. Tal revolução é impossível artificialmente. Nem sequer se pode adiantar significativamente, ainda que eu não duvide que uma organização dirigida devidamente e inteligentemente possa facilitar sua explosão. Há períodos na história em que as revoluções são totalmente impossíveis; existem outros em que elas são inevitáveis. Em qual desses tipos de períodos estamos na atualidade? A meu ver, e é minha profunda convicção, em um período de revolução popular generalizada e inevitável. Não tratarei aqui de provar a justeza desta opinião, me levaria muito longe. Tampouco é necessário, dado que me dirijo a alguém e a pessoas que, estou seguro disso, a compartilham por inteiro. Digo então que por qualquer lugar em toda a Europa, a revolução social e popular é inevitável. Explodirá em breve, mas onde se acenderá primeiro: na Rússia, na França ou em outro país do Ocidente? Ninguém pode prever. Talvez estoure dentro de um ano, talvez mais cedo, ou nem sequer antes de dez ou vinte anos. Esta não é a questão, e aqueles que quiserem servir lealmente a revolução não o farão por mero prazer. Todas as associações secretas que querem de verdade trabalhar por ela devem primeiro abandonar todo nervosismo, toda impaciência. Não devem adormecer, pelo contrário, devem manter-se dispostas dentro do possível em qualquer momento, estar, portanto, em alerta e sempre capazes de agarrar toda ocasião favorável. Mas ao mesmo tempo temos a necessidade de formar-las e organizar-las não para um levantamento próximo, senão para o trabalho clandestino paciente e de larga duração, como seus amigos, os padres jesuítas. Limitarei minhas reflexões a Rússia. Quando então vai estourar a revolução russa? Ignoramos. Muitos, e o pecador de mim dentre outros, esperavam a sublevação do povo em 1870; mas o povo não se despertou. Deve-se deduzir disso que o povo russo poderia prescindir da revolução, evitar-la? Não, tal dedução não é possível, seria absurda. Quem conhece a situação sem saída e de fato crítica de nosso povo, por uma parte, no plano econômico e político e, por outra, a incapacidade decidida de nosso Governo e do Estado, não apenas de modificar, senão de suavizar um pouco a situação (incapacidade que procede não de tal ou qual característica específica de nossos governantes, senão da própria índole de nosso sistema estatal em particular e de cada estado em geral), deve inevitavelmente chegar a conclusão que a revolução popular russa é inevitável. O é em negativo e em positivo, porque em nosso povo, apesar de sua ignorância, forjou-se com a história um ideal que ele se esforça, conscientemente ou não, por cumprir. Aquele ideal é a posse comunitária da terra com uma emancipação completa de qualquer opressão estatal e serviçal. A isso apontava o povo na época dos falsos Dmitri, de Stenka Razin e Pugachev; a isso tende ainda hoje as revoltas incessantes, mas dispersas e sempre reprimidas. Só assinalei dois traços principais do ideal popular russo, sem pretender definir-lo por inteiro com algumas palavras. Contudo, por acaso é pouco o que está vivendo o povo russo em suas aspirações intelectuais e o que virá com a primeira revolução? Isso me basta agora para demonstrar que nosso povo não é uma folha em branco em que qualquer associação secreta pode escrever o que ela bem entender, o programa comunista de você por exemplo. O povo elaborou, em parte consciente e quase tudo inconscientemente, seu próprio programa, que cada associação secreta deve conhecer, adivinhar, e ao qual terá que conformar-se se quiser vencer. É um fato sem nenhuma dúvida e conhecido por todos nós que na época de Stanka Razin e de Pugachev, cada vez que um levantamento popular se produzia, ao menos durante certo tempo, nosso povo fazia uma única coisa: tomava posse de toda a terra para colocar-la em comum, mandando para os diabos os nobres, os grandes latifundiários, os funcionários do Tsar e algumas vezes até mesmo os sacerdotes, e organizava sua comuna livre. Isso significa que nosso povo guarda em sua memória e em seu ideal um valioso elemento para a organização futura, elemento que não existe ainda entre os povos ocidentais: a comuna econômica livre. Na vida e no pensamento popular existem dois fatores, dois fatos em que podemos nos apoiar: as freqüentes rebeliões e a comuna econômica livre. Mas existe um terceiro fator, um terceiro fato: é o povo cossaco ou o mundo dos bandoleiros e ladrões, que reúne em si mesmo um protesto contra a opressão do Estado e a do patriarcado comunitário, que se conecta com os dois primeiros. As freqüentes revoltas, ainda que sempre provocadas por circunstancias fortuitas, provêem não obstante de causas gerais e traduzem o profundo descontentamento geral do povo inteiro. São de certo modo um fenômeno corrente e natural da vida popular russa. Não existe no campo russo um povo que não esteja profundamente descontente com sua situação, que não padeça de escassez, de asfixia, de deseja de mudança e não oculte no fundo de sua alma coletiva o desejo de apoderar-se de toda a terra senhorial, logo a dos kulaks, com o sentimento de que está sem nenhuma dúvida em seu direito. Não há aldeia que, tendo possibilidade, não vá ao levantamento. Se o campo não levanta tão rápido, é unicamente pelo medo, por imaginar-se indefeso. Este sentimento provém da desunião das comunas, a ausência de solidariedade real entre elas. Se em cada aldeia se soubesse que no momento que se levantar todos os outros povos farão o mesmo, pode-se dizer certamente que não haveria um só povo na Rússia que não se subleve. Daí se retira o primeiro dever, a orientação e o objetivo da organização secreta: despertar em todas as comunas rurais o sentimento de sua segura e inevitável solidariedade, e assim despertar no povo russo o sentimento de seu poder; em uma palavra, unir as diversas revoltas camponesas em um levantamento popular. Um dos meios importantes de alcançar esse objetivo, de acordo a minha profunda convicção, é e deve ser valer-se de nossos cossacos livres, a multidão de nossos vagabundos (os santos e os outros), os peregrinos e os benguny [2], os ladrões e os bandoleiros, todo esse amplo e clandestino mundo, que desde sempre está protestando contra o Estado e o estatismo e contra a civilização knutogermânica. Isso já foi exposta em um volante anônimo: “A questão revolucionária e o modo de aplicar-la” provocando um grito de indignação em todas as pessoas de bem e charlatães vaidosos que tomam sua verborragia doutrinária e bizantina por ação. Mas tudo isso é absolutamente verdadeiro e está confirmado por toda nossa história. O mundo dos cossacos, ladrões, bandoleiros e vagabundos, desempenhou precisamente o papel de vínculo para unir as freqüentes revoltas das comunas isoladas; e no tempo de Stenka Razin e Pugachev, os vagabundos foram os melhores e os mais fiéis intermediários da revolução popular, preparadores da agitação popular, precursores do levante do povo inteiro; Quem ignora que os vagabundos, ao apresentar-se a ocasião, se convertem facilmente em ladrões e bandoleiros? E quem, entre nós, não é bandoleiro ou ladrão? Por acaso o Governo não é? Nossos especuladores e negociantes estatais e privados? Nossos latifundiários e comerciantes? Por minha parte, não suporto, não admito nem o bandoleirismo, nem o roubo, nem qualquer violência contra as pessoas. Mas reconheço que se tenho que escolher entre o bandoleirismo e o roubo desde o trono, o que utiliza de todos os privilégios, e entre o roubo e o bandoleirismo do povo, sem a menor vacilação tomo o partido deste último, o vejo natural, necessário e até em certo sentido legítimo. O bandoleirismo popular, eu reconheço, desde o ponto de vista da verdade humana, deixa muitíssimo de ser belo. Mas o que é belo na Rússia? Pode haver algo mais sujo que o mundo das pessoas de bem, funcionários, pequenos burgueses cultos e elegantes, ocultando sob seus brilhos ocidentais a mais terrível perversão de pensamento, sentimentos, ações! Ou, no melhor dos casos, um vazio triste e sem saída. Na perversão do povo, ao contrário, existe a natureza, a força, a vida, existe no final o direito, dados os sacrifícios durante muitos séculos de história. Existe um poderoso protesto contra a base principal de toda perversão, contra o Estado, por isso é uma possibilidade de porvir. Por isso tomo partido dos bandoleiros populares e vejo neles uma das principais alavancas da futura revolução popular na Rússia. Entendo que isto pode indignar os nossos puros ou não puros idealistas, idealistas de qualquer coloração, de Utin a Lopatin, que imaginam poderem através da violência, por uma organização secreta artificial, impor ao povo seu próprio pensamento, sua vontade e seu modo de atuar. Não acredito nessa possibilidade, estou convencido, pelo contrário, que com a primeira grande derrota do Estado de toda a Rússia, sejam quais forem as causas, o povo se levantará não pelo ideal de Utin e Lopatin, nem sequer o de vocês, senão pelo seu próprio, e nenhuma força estará em condição de parar e modificar seu movimento natural, porque não existe dique capaz de conter o oceano furioso. Vocês todos, meus queridos amigos, estarão varridos como gravetos se não souberem nadar no sentido do povo. Creio que com o primeiro grande impulso do levantamento do povo, o mundo dos vagabundos, bandidos e ladrões, profundamente arraigado em nossa vida popular e um de seus principais fenômenos, se colocará em marcha poderosa e massivamente. Bom ou mal, é um fato indiscutível e inevitável, e quem deseja realmente a revolução popular russa, que quer servir-la, sustentar-la, organizar-la, não apenas no papel, senão nos atos, deve conhecer este fato. Deve ter isso em conta, sem tratar de se esquivar, ter uma atitude consciente e prática, usando-lo como um meio poderoso para o triunfo da revolução. Aí não se pode ser puro. Quem quiser preservar sua pureza ideal e virginal, que fique em seu gabinete, que sonhe, pense, escreva suas reflexões e versos. Mas quem quer ser um autêntico militante revolucionário na Rússia, que tire seus luvas, porque não existem luvas que possam proteger-lhe da incalculável sociedade russa generalizada. O mundo russo, estatal e privilegiado ou popular, é um mundo horrível. A revolução russa será sem lugar a dúvidas uma revolução horrível. Quem teme os horrores ou a lama que se distancie deste mundo e dessa revolução; mas quem deseja servir-la, sabendo o que irá acontecer, que fortaleça seus nervos e esteja disposto a tudo. Valer-se do mundo dos bandidos como instrumento da revolução popular, como meio de vínculo entre as sublevações de massas isoladas, é uma tarefa difícil. Admito que é necessária, mas ao mesmo tempo sei que sou totalmente incapaz de dedicar-me a ela. Para empreender-la e levar-la a cabo, é preciso ter nervos sólidos, uma força colossal, convicções apaixonadas e uma vontade de ferro. Tais homens podem fazer picadinho de vocês. Mas as pessoas de nossa geração e com nossa educação é incapaz de fazer isso. Ir entre os bandoleiros não significa tornar-se a si mesmo um bandoleiro e apenas um bandoleiro. Isto não significa compartir suas paixões, suas misérias, suas motivações por sinal detestáveis, seus sentimentos e seus atos. Isto significa dar-lhes uma alma nova e despertar neles a necessidade de um objetivo diferente, de um objetivo popular. Estas pessoas selvagens e brutas até a crueldade possuem uma natureza fresca, forte, intacta e em plena vitalidade, e conseqüentemente aberta a uma propaganda vivaz, naturalmente sempre que uma propaganda vivaz e não doutrinária se atreva e possa aproximar-se deles. Estou disposto a falar-lhe mais sobre esse tema caso prossiga esta correspondência com você. Outro elemento valioso da vida popular futura na Rússia, como lhe dizia, é a comuna econômica livre. Efetivamente é um elemento muito valioso e que não existe no Ocidente. A revolução social no Ocidente deverá criar esse embrião indispensável e fundamental da organização futura, e esta tarefa custará ao Ocidente muitos esforços. Entre nós já está feita, quando estourar a revolução na Rússia, e quando o Estado – com todos seus empregados – se desmoronar, o campo russo se organizará sem qualquer problema, por si só, no ato. Na Rússia, por outro lado, existe uma dificuldade que não existe no Ocidente. Nossas comunas são terrivelmente desunidas; quase não se conhecem e se opõe freqüentemente como inimigas segundo o velho habito russo. Ultimamente, por causa das medidas financeiras do Governo, as comunas começam a acostumar-se a união no plano comarcal, de modo que a comarca está adquirindo um significado e uma consagração popular, mas não vai mais longe. Cada comarca não sabe e não quer saber nada da comarca vizinha. Mas para preparar a vitória da revolução, para organizar a futura liberdade do povo, é necessário que as comarcas, por seu próprio movimento popular, se unam em distritos, os distritos em regiões, e que as regiões formem entre elas uma Federação Russa Livre. Despertar em nossas comunidades rurais a consciência desta necessidade por sua própria liberdade e por seu bem, é igualmente a tarefa da organização secreta, porque ninguém além dela irá querer empreender este dever, à que se opõem diretamente os interesses do Governo e de todas as classes privilegiadas. De que modo atuar, o que fazer e como proceder para despertar nas comunas essa consciência, a única de que se pode dizer que é de verdade saudável? Não é o lugar para aprofundar o tema. Tal é, estimado amigo, em suas grandes linhas todo o programa da revolução popular russa, profundamente enraizada no instinto histórico e na condição de nosso povo. Quem deseja colocar-se na cabeça do movimento popular deve aceitar este programa por inteiro e ser deu realizador. Aqueles que querem impor ao povo seu próprio programa se colocam do lado dos tontos. O mesmo povo, nós já vimos, por sua ignorância e desunião, não está em condição de formular este programa, sistematizar-lo e unir-se em seu nome. O povo necessita então de ajudantes. Aonde recrutar-lhes? Em todas as revoluções este problema é o mais difícil. Até agora, em todo o Ocidente, os auxiliares da revolução procediam das classes privilegiadas e quase sempre se convertiam em seus beneficiários.neste âmbito também a Rússia tem mais sorte que o Ocidente. Existe dentro do país uma massa enorme de pessoas instruída e capaz de pensar, a que ao mesmo tempo lhe falta totalmente uma situação, carreira e saída: as três quartas partes ao menos de nossa juventude universitária se encontra precisamente nessa situação. Os seminaristas, os filhos de camponeses e burgueses, os filhos de pequenos funcionários e nobres arruinados, mas para que falar-lhe disso: você conhece esse mundo melhor do que eu. Tomando o povo como exército revolucionário e a estes últimos como nosso estado-maior, constitui-se o valioso material da organização secreta. Mas, esse mundo, é preciso organizar-lo e moralizar-lo. Você, por causa do seu sistema, o está pervertendo e preparando por dentro a traidores e exploradores do povo. Recorde que em todo esse mundo há muito pouco sentido moral, exceto um escasso número de naturezas férreas e de grande moral, formadas segundo a teoria darwinista em meio de uma opressão imunda e uma miséria inaudita. Os virtuosos, ou seja, aqueles que amam o povo, tomam partido pela justiça contra a injustiça e por todos os oprimidos contra todos os opressores, o são unicamente por causa de sua própria situação e não por consciência nem vontade. Eleja nesse mundo cem pessoas aleatoriamente e coloque-as em uma situação que lhes permita explorar e oprimir o povo: pode-se afirmar sem lugar a dúvidas que lhe exploraram e oprimiram com plena tranqüilidade. Há, portanto, nas pessoas, pouca virtude espontânea. Aproveitando a miserável situação que a faz virtuosa inconscientemente, é preciso despertar, educar e fortalecer nas pessoas essa virtude involuntária, para que se torne apaixonada e consciente por meio de uma propaganda constante e pela organização. Mas você faz exatamente o contrário: ao copiar o sistema jesuítico, você apaga sistematicamente nas pessoas todo sentimento humano e todo sentido pessoal da justiça (como se o sentimento humano e o sentido da justiça pudessem ser impessoais!), você cultiva nelas a mentira, a desconfiança, a espionagem e a delação, e você conta muito mais com as pressões exteriores, mediante as quais você enreda, que com a valentia interior das pessoas. De modo que bastará que modifiquem as circunstancias para que as pessoas percebam que os temores do Governo são mais terríveis que o que você lhes infunde, e para que se convertam, graças a suas lições, em excelentes servidores e espiões das Autoridades. Em decorrência disso, estimado amigo, agora, seguramente a maior parte de seus companheiros caídos nas mãos da polícia, sem grande esforço por parte do Governo e sem tortura, delataram tudo e todos. Esse fato penoso, se você souber se corrigir, deveria abrir-lhe os olhos e obrigar-lhe a mudar sua atuação. Como moralizar esse mundo? Despertando nele franca e conscientemente, excitando em seu espírito e em seu coração a única e absorvente paixão da emancipação do povo inteiro e da humanidade. Esta é a religião nova e única, cuja força move a alma e cria um impulso coletivo salvador. Tal deverá ser mais a frente o único conteúdo de nossa propaganda. Seu objetivo imediato: articular a organização secreta, uma organização que deverá por sua vez constituir uma força popular auxiliar e ser uma escola prática para a educação moral de todos os seus membros. Definamos frente a tudo o objetivo, o sentido, a finalidade desta organização. Em meu sistema, como já o apontei várias vezes, esta não deve ser o exército revolucionário. Para nós, só existe um exército revolucionário: o povo. A organização não deve ser nada mais que o estado- maior desse exército, não a organizadora de sua própria força senão a do povo, como intermediário entre o instinto popular e o pensamento revolucionário. E este pensamento só é revolucionário, vivaz, real e autêntico, quando expressa, enquanto da forma aos instintos populares moldados pela história. Tentar impor às massas o pensamento da organização, banal ou alheio a seus instintos, significa querer subordiná-las a um novo Estado. Por isso uma organização que deseje sincera e unicamente libertar a vida do povo deve adotar um programa que seja a expressão integral das aspirações populares. Me parece que o programa exposto no primeiro número de Narodnoe Dielo [Ação popular] corresponde totalmente a este objetivo. Não impõe ao povo novas regulamentações, ordens ou modos de vida, pelo contrário, liberta sua vontade abrindo amplos horizontes a sua autodeterminação e a sua organização econômica e social, que deve criar por si mesmo, de baixo para cima e não de cima para baixo. A organização deve francamente penetrar-se da idéia que é a servidora, a auxiliar do povo e não sua dona, em nenhum caso, nem sob nenhum pretexto, nem sequer o do bem popular. Uma tarefa enorme corresponde a organização: não só preparar o triunfo da revolução popular pela propaganda e a união das forças populares; não só destruir na totalidade, com o poder desta revolução, toda ordem econômica, social e política existente; senão que, além disso, depois de viver o triunfo da revolução, no dia seguinte da vitória popular, deve impossibilitar o estabelecimento de todo poder estatal sobre o povo, até mesmo um poder que seria em aparência o mais revolucionário, incluindo o seu. Todo poder, independente do nome que se coloque, inevitavelmente imporá ao povo sua antiga servidão sob uma nova forma. Nossa organização deverá, portanto, ser bastante forte e viável para superar a primeira vitória do povo, o que não é nada fácil, e deverá estar profundamente penetrada de seus princípios para que não possa esperar que inclusive em plena revolução não modifique nem seu pensamento, nem seu caráter, nem sua orientação. O que a de ser esta orientação? Quais serão o objetivo principal e a tarefa da organização? Ajudar o povo a decidir ele mesmo sobre a base da igualdade absoluta, uma liberdade humana completa e universal, sem a menor intromissão de qualquer poder, até mesmo o provincial ou de transição, quer dizer, sem intermediários de qualquer sistema estatal. Somos os inimigos declarados de todo poder oficial, inclusive se é um poder ultra-revolucionário, de toda ditadura reconhecida publicamente. Somos anarquistas, socialistas revolucionários. Mas se somos anarquistas, perguntará você, com que direito queremos atuar sobre o povo e com que meios o faremos? Rechaçando todo poder. Com que autoridade, com que força vamos administrar a revolução popular? Mediante uma força invisível que não terá nenhum caráter público e que não se imporá a ninguém; mediante a ditadura coletiva de nossa organização que será tanto mais poderosa quanto ficar invisível, não declarada e privada de todo direito e sentido. Imagine-se em pleno triunfo de uma revolução espontânea na Rússia. O Estado e com ele toda ordem social e política foram aniquiladas. O povo inteiro se levantou, tornando-se dono de tudo o que necessita e expulsando a todos seus inimigos. Não há lei nem poder. O oceano da rebelião rompeu todos os diques. Toda esta massa, que longe de ser homogênea é, pelo contrário, sumamente diversificada, está cobrindo a imensa extensão do império russo, começou a viver e atuar por si mesma, a partir da realidade, e não de algo que se lhe impunha por fora, e o faz por todos os lugares e a sua maneira: é a anarquia geral. A sujeira removida, amontoada em grande quantidade no seio do povo, retorna à superfície. Em determinadas partes surge uma multidão de homens novos, audazes, inteligentes, sem escrúpulos e ambiciosos que buscam, por suposto, cada um a da sua maneira, ganhar a confiança do povo para si e usar-la em proveito próprio. Essas pessoas lutam e se destroem uns aos outros. É como uma anarquia espantosa e sem saída. Mas imagine, em meio desta anarquia popular, uma organização secreta que dispersa seus membros em grupos pequenos por toda a superfície do império, mas estão firmemente unidos, animados por uma mesma idéia e um mesmo objetivo, aplicados por todas as partes, de acordo obviamente com as circunstancias, e segundo um mesmo plano. Estes grupos, que ninguém conhece como tais, não possuem nenhum poder reconhecido oficialmente. Mas com a força de seu pensamento, que expressa a própria natureza dos instintos, desejos e necessidades populares; com a clara consciência de seu objetivo em meio a uma multidão que luta sem objetivo nem plano; com a força da inteligência e da energia dos membros que constituem esses grupos e conseguem unir em torno de si homens mais ou menos apegados a mesma idéia e naturalmente submetidos a sua influencia, tais grupos, que não buscam nada para eles próprios, nem proveitos, nem honras, nem autoridade, estarão capacitados para dirigir o movimento popular contra todos os ambiciosos, desunidos e opostos uns aos outros, e encaminhar-los para a realização tão integral como seja possível do ideal social e econômico, e para a organização da liberdade popular mais completa. É o que chamo a ditadura coletiva da organização secreta. Esta ditadura não conhece nem ganância, nem vaidade, nem ambição, porque é impessoal, invisível e porque não fornece a ninguém daqueles que compõem os grupos, tampouco aos próprios grupos, nem proveitos, nem honras, nem reconhecimento oficial de um poder qualquer. Não ameaça a liberdade do povo dado que, por carecer de qualquer caráter oficial, não se apresenta como um poder estatal sobre o povo, senão que sua única meta, definida por seu programa, é conseguir a realização mais completa das liberdades populares. Tal ditadura não é absolutamente contrária ao livre desenvolvimento e a autodeterminação do povo, nem a sua organização desde baixo até acima de acordo a seus usos e instintos, tendo em vista que trabalha exclusivamente pela única influencia natural e pessoal de seus membros, que estão desprovidos de todo poder e dispersos por meio de sua rede invisível, em todas as regiões, distritos e municípios. Eles se esforçam, de comum acordo e cada um em seu povoado, para orientar o movimento revolucionário espontâneo do povo segundo um plano determinado de antemão e bem definido. Este plano que organiza a liberdade popular deve ser, primeiro, preparado com bastante solidez e claridade em seus princípios e objetivos essenciais com o fim de descartar qualquer possibilidade de desacordo e choques por parte dos membros da organização que o apliquem. E segundo, deve ser amplo e natural o bastante para abarcar e aplicar as inevitáveis mudanças procedentes de circunstancias diversas e movimentos heterogêneos da diversidade da vida popular. Assim, toda a questão é como organizar, com os elementos disponíveis e conhecidos, tal ditadura coletiva secreta e tal força que poderia desde agora fazer uma ampla propaganda popular, uma propaganda que penetre realmente dentro das massas; pela força desta propaganda, e também pela organização do próprio povo, reunir as energias dispersas do povo em um todo poderoso capaz de destruir o Estado. E segundo, a questão é como se poderia manter a organização durante o processo revolucionário, sem perder seu ardor e sem mudar sua orientação no dia seguinte da liberdade popular. Tal organização, e em particular seu núcleo central, deve ser integrada pelas pessoas mais firmes, mais inteligentes e dentro do possível com instrução (ou seja, uma inteligência com base na experiência), mais apaixonada, com uma dedicação sem titubeios nem modificações, havendo renunciado na medida do possível a todo interesse pessoal e rechaçado de uma vez por todas, em sua vida e até a morte, como sendo uma prisão aos indivíduos: as comodidades e os gozos sociais, as satisfações da vaidade, da ascensão social e a fama. Esta gente estaria concentrada unicamente e inteiramente na única paixão de emancipação do povo, sem buscar um papel histórico em sua vida ou até de um rastro pessoal na história depois de sua morte. Esta abnegação total só é possível com a paixão. Você não estimula a consciência do dever absoluto, e menos ainda com o sistema de controle exterior, manipulação e obrigação. Apenas uma paixão pode motivar em um indivíduo este milagre este poder, sem esforço. De onde procede e como nasce tal paixão nos indivíduos? Encontra-se na vida e nasce da ação conjunta do pensamento e da vida; de modo negativo, como ódio e protesto contra aquilo que existe e oprime; de modo positivo, pela convivência com aqueles que pensam e sentem de forma similar, como criação coletiva de um novo ideal. Portanto, tens que entender que esta paixão só é eficiente, salvadora, quando nela se encontram na mesma medida, estreitamente vinculada os dois componentes, o negativo e o positivo. Uma paixão negativa, o ódio, não cria nada, nem sequer a força necessária para a destruição e, portanto, não destrói nada; a paixão positiva não quebra nada, dado que a criação do novo é impossível sem destruir o velho, ela tampouco cria algo, ficando sempre como um sonho doutrinário ou uma doutrina baseada no sonho. A paixão profunda, a paixão arraigada e sem vacilações é a base de tudo. Aquele que não a possui, inclusive se tem uma inteligência muito elevada, inclusive se é muito honesto, não será capaz de agüentar até o final a luta contra o terrível poder social e político que nos oprime a todos. Não será capaz de resistir todas as dificuldades, as impossibilidades e, sobretudo, as decepções que lhe esperam e com as quais chocará sem dúvida nenhuma durante esta luta desigual e diária. O homem sem paixão não terá nem força, nem fé, nem iniciativa, nem valentia, e sem valentia tal obra não se cumpre. Mas a paixão sozinha não basta; a paixão engendra energia, porém, a energia sem uma direção clara resulta estéril e absurda. Por isso, da mesma forma que a paixão, faz falta a razão fria, calculadora, realista, prática frente a tudo, e também teórica, conformada amplamente pela conhecimento e a experiência; sem perder de vista nenhum detalhe; capaz de compreender as pessoas e diferenciar-las, captar a realidade, as relações, as condições da vida social em todas suas camadas e manifestações, seu verdadeiro aspecto e sentido, não com o sonho e de modo arbitrário, como se faz amiúde, meu amigo, e você em especial. É necessário, por fim, conhecer bem a Rússia e a Europa, sua verdadeira situação política e social, assim como o estado de espírito em uma e outra parte. Quer dizer que a paixão própria, sendo sempre o elemento principal, deve guiar-se com a razão e o conhecimento, deve deixar de agitar-se, e sem perder sua chama interior e sua inquebrantável firmeza, converter-se em uma paixão fria e, por isso, mais forte. Tal é o ideal do conspirador convocado a formar parte do núcleo da organização secreta. Você me perguntará aonde encontrar semelhante pessoa, se existem muitas na Rússia e inclusive em toda a Europa. Nesse assunto, em meu sistema, não é necessário que tenhamos muitos membros. Lembre-se que você não deve organizar o exército, apenas o estado-maior da revolução. Pessoas assim, estão quase totalmente preparadas. Talvez você encontre dez. Das capazes de ser-lo e que já estão preparadas para isso, no máximo cinqüenta ou sessenta, e ao olho de bom cubero é bastante. Você mesmo, estou profundamente convencido disso, apesar de todas suas torpezas, seus erros lamentáveis e funestos, apesar de todas as suas superstições vulgares e burras, dentro de um sistema tão mentiroso, você não tem de forma nenhum ambição pessoal, vaidade ou ambição (como muitos, muitos mesmo, tendem a acreditar). Você mesmo, de quem terei que separar-me e com quem decidi romper, se você não renunciar a esse sistema, você mesmo, forma parte destas pessoas tão pouco numerosas. Esta é a única razão de meu afeto por você, de minha confiança com você apesar de tudo, de minha larga paciência, que, contudo está por acabar-se. Pese os seus terríveis defeitos e reflexões insuficientes, vejo e reconheço em você uma pessoa inteligente, firme, enérgica, capaz de trabalhar com sangue frio, apesar da inexperiência e da ignorância, pese muitas vezes o uso de embustes, com uma total abnegação e apaixonadamente, profundamente apegado e entregue a causa da emancipação do povo. Retire de você seu sistema e tornar-se-á um ser valioso. Se você não o quer tirar, se converterá seguramente em um ser perigoso e sumamente destruidor, não para o Estado, senão para a causa da liberdade. Porém, tenho a grande esperança de que os últimos eventos ocorridos na Rússia e no estrangeiro tenham-lhe aberto os olhos, e de que deseja e acredita ser imprescindível estendermo-nos a mão sobre bases sinceras. Então, eu repito, veremos em você uma pessoa valiosa e reconheceremos com alegria como nosso chefe para todas as atividades na Rússia. E se você é realmente um homem dessa natureza, então sem nenhuma dúvida encontrará na Rússia pelo menos dez homens como você. Se não os possui, busque e os encontrará e forme com nós uma nova associação sobre as bases e as seguintes condições recíprocas: 1) Reconhecimento completo, inteiro e apaixonado do programa , mencionado mais acima, de Narodnoe Delo (Ação Popular), com os complementos e esclarecimentos que lhe pareçam necessários; 2) Igualdade de direitos de todos os membros e solidariedade incondicional e absoluta – um por todos e todos por um -, com a obrigação de todos e de cada um em ajudarem, sustentarem e salvar cada membro até a última possibilidade, dentro do que é factível, sem por em perigo a própria existência da associação; 3) Sinceridade absoluta entre os membros. Exclusão de todo jesuitismo nas relações, a desconfiança ruim, o controle pérfido, a espionagem e as delações recíprocas, ausência e proibição terminante de rumores e indiretas. Quando um filiado tem algo a reprovar a outro, deve fazer-lo na assembléia geral e em sua presença. Controle fraterno coletivo de cada um por todos, controle em nenhum caso incômodo, mesquinho e, sobretudo malévolo, do qual deve substituir seu sistema de controle jesuítico, e deve fazer-se com a educação moral, com o pilar da força de cada membro, com base na confiança fraterna mútua, na qual se fundará toda a força interior e, portanto exterior da associação; 4) Ficam excluídos da associação todos os nervosos, medrosos, vaidosos e ambiciosos. Podem servir, sem eles saberem, como instrumento da associação, mas não devem absolutamente formar parte do núcleo da organização; 5) Ao aderir à associação cada membro se condena para sempre a não ser conhecido nem se destacar. Toda sua energia e sua inteligência pertencem a associação e devem tender, não a criar sua força social pessoal, senão a força coletiva da organização. Cada um deve convencer-se que o prestígio individual é impotente e estéril e que apenas a força coletiva poderá derrubar o inimigo comum e alcançar o objetivo positivo comum. Por isso, as paixões individuais de cada filiado deverão ir-se apagando frente a paixão coletiva; 6) A inteligência individual de cada um se perde, como a um rio no mar, na razão coletiva, e todos os membros obedecem absolutamente as decisões desta; 7) Todos os membros são iguais em direitos, conhecem todos seus companheiros e com eles discutem e decidem todas as questões essenciais com relação ao programa da associação, assim como sua atividade geral e seu andamento. A decisão da assembléia geral é uma lei absoluta; 8) Cada filiado possui de fato o direito de informar-se de tudo. Porém, se descarta toda curiosidade trivial na associação, assim como os comentários ocos sobre a atividade e os objetivos da associação secreta. Informado do programa comum e da orientação geral da ação, nenhum membro pedirá nem tratará de conseguir detalhes desnecessários para a boa execução daquilo que ele está encarregado; e sem necessidade prática não falará a nenhum companheiro seu da tarefa que lhe foi encomendada; 9)A associação elege entre seus filiados um Comitê executivo de três ou cinco membros que, sobre a base do programa e do plano geral de atividade adotado pela mesma, deve organizar sua ramificação e dirigir seu trabalho por todas as regiões do império; 10) Este Comitê é eleito por um período ilimitado. Se a associação, que penso chamar de Fraternidade Popular, se a Fraternidade Popular está satisfeita com a atividade do Comitê, o mantenha em suas funções, e enquanto as exerça, cada membro da Fraternidade Popular e cada grupo regional devem obedecer-lhe de forma absoluta, exceto nos casos em que as ordens do Comitê contradigam o programa geral, os princípios fundamentais, ou o plano conjunto de ação revolucionária, conhecidos por cada um tendo em vista que todos os irmãos participam em igual medida na avaliação e nas decisões; 11) Neste caso, os membros e os grupos devem deixar de executar a ordens do Comitê e processar-lo frente a assembléia geral da Fraternidade Popular. Se a assembléia não está satisfeita com o Comitê, sempre poderá substituir-lo por outro; 12) Cada membro, assim como cada grupo, ser julgado pela assembléia geral da Fraternidade Popular; 13) Posto que cada irmão está informado de tudo, inclusive da composição do Comitê, a admissão de todo membro novo deve ir de mãos dadas com a maior cautela, reflexão e restrição, uma só má eleição pode arruinar tudo. Nem um novo aderente será admitido de outro modo que com o acordo de todos os irmãos ou em última instancia e de nenhuma maneira com menos que as três quartas parte dos membros do conjunto da Fraternidade Popular; 14) O Comitê divide os membros por região e forma grupos ou comandos regionais. No caso de haver um número insuficiente de membros, tal comando ficará reduzido a um único irmão; 15) O comando regional está encarregado de constituir uma associação de segundo grau – a Fraternidade Regional – sobre a base do mesmo programa, das mesmas regras e do mesmo plano revolucionário; 16) Todos os membros da Fraternidade Regional se conhecem uns aos outros, porém, desconhecem a existência da Fraternidade Popular. Apenas sabem que existe um Comitê Central que lhes transmite suas ordens para serem executadas através do Comitê Regional, designado pelo Comitê Central; 17) O Comitê Regional está constituído, dentro do possível, apenas de irmãos populares designados e substituídos pelo Comitê Central, ou em última instancia de um único irmão popular. Neste caso, este designa, com o acordo do Comitê Central, os dois melhores membros da Fraternidade Regional e forma com eles o Comitê Regional. Porém, não existe igualdade entre todos os membros dado que só o irmão popular está em contato com o Comitê Central, do qual lhe transmite as ordens de seus companheiros do Comitês Regional; 18) O ou os irmãos populares que se encontrem nas regiões, buscam na Fraternidade Regional as pessoas capazes e dignas de serem admitidas na Fraternidade Popular apresentando-as à assembléia geral da mesma e através do Comitê Central; 19) Cada comitê regional organiza Comitês de Distrito compostos de membros da Fraternidade Regional, nomeados e substituídos pelo Comitê Regional; 20) Os comitês de Distrito podem fundar, em caso de necessidade, mas não sem a aprovação do Comitê Regional, uma organização de terceiro grau, a Fraternidade de Distrito, cujo programa e estatutos deverão se aproximar o máximo possível ao programa geral e aos estatutos da Fraternidade Popular. O programa e os estatutos da Fraternidade de Distrito só serão vigentes depois de ser discutidos e aprovados pela assembléia geral da Fraternidade Regional e confirmados pelo Comitê Regional; 21) O controle jesuítico, o sistema de manipulação policial e de mentiras estão excluídos decididamente dos três graus da organização secreta, assim como as Fraternidades Regionais, de Distrito e da Fraternidade Popular. A força do conjunto da associação, da mesma forma que a moral, a lealdade, a energia e a dedicação de cada membro se fundam exclusiva e inteiramente na verdade, na franqueza e na confiança recíprocas e no controle fraterno aberto de todos por cada um. Assim são os grandes traços do plano da associação como a entendo. Desde logo, este plano deve ser desenvolvido, completado, algumas vezes modificado de acordo às circunstâncias e a índole do meio, e até definido de modo muito mais claro. Porém, estou convencido de que o essencial deve manter-se se você deseja criar de verdade uma força coletiva capaz de servir a causa da emancipação do povo, e não uma nova exploração deste. Os sistemas de manipulação e de mentira jesuíticos excluem-se totalmente desse plano, por ser meios e princípios nocivos, dissolventes e degradantes. Porém, fica também excluídos o palavrório parlamentar, a agitação por vaidade. Se observa uma estrita disciplina de todos os membros para com os Comitês e todos os Comitês locais em relação ao Comitê Central. O juízo e o controle dos membros pertencem as Fraternidades e não aos Comitês. O novo poder executivo está nas mãos destes últimos. O direito de julgar os Comitês, incluindo o Comitê Central, pertence unicamente a Fraternidade Popular. A Fraternidade Popular, em meu plano, nunca terá mais de cinqüenta a setenta membros. No início é possível que não haja mais que dez filiados e inclusive menos, logo se irá estendendo, de um a um, e submetendo a cada um a um exame prévio sumamente minucioso, dentro do possível, com a admissão por decisão unânime de todos os membros da Fraternidade Popular ou no mínimo das três quartas partes destes. Não é possível que em dois ou três anos não se encontre trinta ou quarenta homens capazes de serem irmãos populares. Represente você a Fraternidade Popular em toda a Rússia, com quarenta ou a lo sumo setenta membros. Logo algumas centenas de membros da organização de segundo grau – os irmãos regionais -, e cobrirá toda a Rússia com uma rede realmente poderosa. Sua plana maior está formada, e como já se disse, nela se assentam, ao mesmo tempo que uma extrema prudência e a expulsão de qualquer palavrório e charlatanismo parlamentar, a verdade, a franqueza e a confiança recíprocas e, por fim, a solidariedade real, como elementos de moralização e de união. A associação inteira forma um corpo, um todo sólido unido, dirigido pelo Comitê Central e leva uma guerra subterrânea permanente contra o Governo e contra as organizações que a combatem ou que simplesmente trabalham fora dela. E aonde existe guerra, existe política, aí se impõe a violência, a astúcia e a manipulação. As associações com objetivos próximos aos nossos devem ser pressionadas para que se unam a nós ou, pelo menos, a ficarem-nos subordinadas, sem que o saibam e afastando todos os elementos nocivos. As associações contrárias e propriamente nefastas devem ser anuladas. Por fim, o Governo deve ser aniquilado. Tudo isso não se fará pela mera propaganda da verdade; a astúcia, a diplomacia, a mentira serão necessárias. Ali o jesuitismo e até a manipulação tem o seu lugar; a manipulação é um bom e excelente meio para caracterizar e aniquilar o inimigo, porém, ela não é absolutamente um modo útil para ganhar e atrair novos filiados. Assim, na base de nossa atividade, deve haver esta simples lei: verdade, honestidade, confiança entre todos os irmãos e com toda pessoa capaz e que queira filiar-se. A mentira, a manipulação e, se lhe faz falta, a violência, são contra os inimigos. Trabalhando desse modo você moralizará, potencializará e unirá mais estreitamente os seus, e você destruirá e anulará as relações e as forças alheias. Quanto a você, meu estimado amigo, - e é seu principal, seu imenso erro -, você se deixou seduzir pelo sistema de Loyola e de Maquiavel, o primeiro se propunha escravizar a humanidade inteira, o segundo criar um poderoso Estado (monárquico ou republicano, pouco importa), ou seja, a escravidão do povo. Com seu gosto pelos princípios e os procedimentos jesuíticos e policiais, você pensou fundar neles sua própria organização, sua força coletiva secreta, a alma – para dizer assim – de toda sua associação. Em conseqüência, você trabalha com seus amigos como se fossem inimigos: trampea com eles, mente, se esforça para separar-los, inclusive que criem inimizades entre eles, de modo que não possam unir-se contra sua tutela. Você busca a força, não para a união deles, senão a desunião, e não confiando absolutamente neles, tenta conseguir contrariamente a eles fatos, cartas, que por sinal você lê sem estar autorizado e até rouba. Sempre os enreda por todos os meios possíveis para que dependam de você como escravos. Para piorar, você faz isso de modo tão torpe, tão desajeitado, indiscutível, imprudente e irreflexivo, que todas suas manipulações, suas artimanhas e esquemas aparecem rapidamente em plena luz. Impregnou-se tanto de jesuitismo que se esqueceu de todos os demais, se esqueceu até mesmo do objetivo e do desejo apaixonado que lhe atraiu a emancipação do povo. Tanto se impregnou de jesuitismo que está disposto a predicar-lo como imprescindível a todos, até a Sukovski. Você quis inclusive dedicar artigos e encher com seus ensinamentos o Kolokol, recordando o refrão Suvorov: “Graças a Deus, não é certo o que todos pensavam ser”. Em uma palavra, você se pôs a jogar com o jesuitismo, como uma criança com futilidades ou Utin com a revolução. Vejamos o que você alcançou e conseguiu fazer em Genebra com a ajuda de seu sistema jesuítico. O fundo Bajmetev lhe foi entregue. Esse é o único resultado real e importante que conseguiu. Porém, Ogarev lhe transmitiu este fundo e eu lhe aconselhei com vigor para que o fizesse, não porque você se comportara de modo jesuítico, senão porque, apesar do seu jesuitismo demasiado simplista, ambos sentimos e reconhecemos em você a um homem profundo, ardente e seriamente dedicado a causa russa. Porém, saiba – e é de minha parte uma amarga constatação – que quase começo a me arrepender de haver aconselhado a Ogarev a lhe entregar este fundo, não porque penso que você poderá empregar-lo de modo desonesto e com finalidades pessoais – me preservem todos os santos de tão vil idéia e realmente absurda, e eu quero morrer se penso que você possa usar sequer um centavo para você mesmo –, não, começo a arrepender-me porque, observando todos seus atos, eu deixei de acreditar em sua maturidade política, em sua seriedade e na existência de seu Comitê e de toda sua associação. A quantia não é enorme, mas é o que tínhamos e vai ser desperdiçada em vão, de modo inútil, descarado, em tentativas disparatadas e impossíveis. Mas com essa quantia reduzida e a ajuda de poucas pessoas, expressando-lhes com muita sinceridade sua intenção de servir a causa russa comum, sem exigências nem pretensões, sem vaidade nem presunção, teria podido fazer não poucas coisas úteis em Genebra. Você poderia ter criado um órgão serio, com um programa francamente social revolucionário e associado ao periódico, um Birô no estrangeiro para a condução de nossa ação fora da Rússia, com certa autonomia ainda que não absolutamente completa, mas não obstante real. Foi com esse fim que fui chamado a primeira vez a Genebra por seu comitê, quer dizer, por você. E o que encontrei em Genebra? Primeiro o programa deformado do Kolokol, do qual o Comitê e você pediam diretamente absurdos e feitos impossíveis. Você sabe que posso admitir a debilidade que me induziu a ceder a você nesta questão. Vou ter que responder por este infeliz Kolokol e em geral por minha solidariedade com você frente a todos meus amigos internacionais, por uma parte, por causa de Utin, e por outra, de Sukovski, que, o primeiro com seu ódio, o segundo com sua boa vontade, nos vão caluniando. A propósito de Sukovski: você lhe demonstrou seu grande desconhecimento e incompreensão das pessoas e sua incapacidade de as atrair para sua causa com uma atitude direta, honesta quer dizer, forte. Conhecendo muito bem Sukovski lhe havia descrito em detalhes o seu caráter, suas capacidades e incapacidades, de modo que lhe seria fácil incitar-lhe a estabelecer relações sérias com você. Apresentei-lhe ele como um homem muito bom, capaz, longe de ser idiota, ainda que sem espírito de iniciativa, mas assimilando bem as idéias alheias e podendo propagá-las e difundir-las com bastante eloqüência, mais pela palavra que pelo papel. É um homem impressionante como um artista, devotado com bastante força a uma tendência, mas falta-lhe caráter na medida em que não gosta do perigo, frente a uma oposição categórica cede facilmente as influências mais diversas. Em uma palavra, é um homem muito capaz de levar a propaganda, mas de nenhuma maneira para formar parte de uma associação secreta. Você deveria ter acreditado em mim e não acreditou, e ao invés de ganhar Sukovski para nossa causa, você o afastou de você e de mim. Você tentou enrolar-lhe, enganar-lhe, para que se convertesse em seu escravo. Com este fim você se colocou a criticar-me, rir de mim, mas houve em Sukovski um espírito de honestidade que se rebelou. Me contou tudo o que você lhe disse de mim, com indignação e repugnância, e se eu fosse mais orgulhoso e mais fraco, haveria bastado isso para que eu rompesse minha relações com você. Se lembrará que me contentei em repetir-lhe, sem comentários, as palavras de Sukovski. E você nada respondeu e não me pareceu útil prosseguir a conversa. Logo que você expôs a Sukovski sua teoria preferida de comunismo estatal e de jesuitismo policial, e o afastou definitivamente de você. Por fim, houve as miseráveis fofocas de Henry que fizeram de Sukovski seu inimigo mortal, e não só seu, pode-se dizer que meu também. E, no entanto, apesar de todos seus pontos débeis, Sukovski poderia ter sido útil. Reconheço também, estimado amigo, que seu sistema de chantagem, de armadilha e intimidação com Tatá, me revoltaram extremamente, já expus isso diversas vezes. O resultado é que você lhe infundiu uma profunda desconfiança para todos nós e o sentimento que você e eu tínhamos a intenção de explorar seus recursos, extrair-los, desde logo, não para a causa, mas para nós mesmos. Tatá é, em toda a acepção do termo, uma pessoa honesta e sincera, mas incapaz, ao meu ver, de dedicar-se por inteira a seja o que for. É, portanto, uma diletante, não por natureza, senão por mentalidade, diletante tanto do ponto de vista moral como intelectual, mas se pode confiar em sua palavra e era possível que se convertesse, senão em nossa amiga, pelo menos em uma companheira fiel. Você tinha que portar-se com ela franca e lealmente, sem buscar estratagemas em que você acreditar retirar sua força. Mas que revelam sua debilidade. Enquanto acreditei possível e útil falar com ela direta e francamente para atuar sobre seu livre pensamento, o fiz. Não quis ir mais longe com você, estava com asco. E só quando por você me informei que Natalia Alekseevna propagava calúnias sobre mim, afirmando que eu pegava o dinheiro de Tatá e quando vi que esta estava perplexa, me afastei dela decididamente. A propósito, você me afirmou muitas vezes que havia sabido por Tatá que Natalia Alekseevna e Tchórzewski gritavam por todas as partes, contavam a todos, escreviam que eu buscava aproveitar os recursos de Tatá. Mas Natalia Alekseevna e Tchórzewski afirmam pelo contrário que não disseram nunca a ninguém ou escreveram semelhante coisa e Tatá me confirmou isso. Durante minha última estadia em Genebra, você disse saber por Serebrennikov (Sêmen) que Sukovski havia declarado a este último que eu explorava Tatá. Fiz a pergunta a Serebrennikov e soube que Sukovski lhe falou de você e não de mim. Você me contou também que a mulher de Sukovski lhe havia pedido que você se unisse a Utin, afirmando-lhe que toda aliança comigo era inútil, impossível e doentia. Porém ela disse o contrário: não lhe falou de mim, não lhe propôs que fosse com Utin, com quem me disse que havia rompido mais ou menos, e não foi ela senão você quem lhe propôs buscar fundos para unir-se, e é você que esperava ditos fundos. Você já consegue ver quanto a mentira insensata é inútil e como sai facilmente a luz. Confesso que desde minha primeira viagem a Genebra foi uma forte decepção e quebrou minha confiança em sólidos vínculos e em uma ação com você. Sobre o assunto pelo qual havia sido chamado a Genebra e que era a única razão da minha viagem, não intercambiamos nem uma só palavra concreta. Varias vezes comecei a orientar a conversa sobre o birô no estrangeiro e você a evitou. Você esperava não sei que resposta definitiva do Comitê que nunca chegou. Acabei por ir embora depois de remeter através de você cartas ao Comitê (na qual pedia que se expusesse e precisasse claramente o assunto pelo qual me haviam chamado) e declarei estar firmemente decido a não voltar a Genebra enquanto não recebesse uma resposta satisfatória. Em maio você voltou a me chamar a Genebra. Me neguei várias vezes a fazer a viagem, no fim eu fui. Este último passo confirmou todas minhas dúvidas e arruinou minha confiança na lealdade e na veracidade de sua palavra. A conversa na minha presença entre você e Lopatin, na mesma tarde da minha chegada, as acusações precisas, duras deste contra você, com uma confiança que não deixava lugar a nenhuma dúvida sobre a veracidade de suas palavras, que convertiam as suas em outras tantas mentiras. Sua recusa completa de todos os detalhes que figuram no relato de sua evasão tal como você a publicou, suas acusações diretas contra os companheiros mais próximos de você, acusações escritas, que Lopatin, segundo as palavras de você, que me confirmou mais tarde, teve a oportunidade de ler, particularmente seu desprezo pelas atuações, manobras e denuncias totalmente inúteis de Pryzov, que sempre me pintou como um de seus melhores e mais firmes companheiros. Por fim, a negativa direta e decidida de Lopatin da existência de seu Comitê nesses termos: “Nechayev pode lhe contar isso, porque você está longe da Rússia. Porém, não tentará repetir-lo frente a mim, por saber muito bem que estou interado de tudo e que conheço todos os grupos, as pessoas, as relações entre uns e outros e o que passou lá. Você vê que com seu silencio confirma a exatidão de tudo o que lhe disse sobre sua evasão, cujos melhores detalhes e circunstancias ele sabe que os conheço muito bem, assim como seus companheiros e seu Comitê fictício”. De fato, a tudo isso você respondeu com o silêncio e nem sequer tratou de defender nem a si mesmo, nem a nenhum de seus companheiros, nem sequer a realidade de seu Comitê. Lopatin triunfava e você frente a ele afundava. Não podia dizer-lhe, estimado amigo, quanto me era penoso por você e por mim. Eu já não podia colocar em dúvida a verdade das palavras de Lopatin. Significava que você havia mentido sistematicamente para nós. Significava que toda sua ação estava encharcada, apodrecida pela mentira e baseada em areia. Significava que seu Comitê era unipessoal, pelo menos para as três quartas partes, com dois, três ou quatro companheiros em suma que lhe ficam submetidos ou sobre quem você exerce uma influência predominante. Toda a ação pela qual você deu sua vida se desmoronou, se esfumaçou por causa de uma orientação mentirosa e burra de seu sistema jesuítico, que rebaixou você e mais ainda seus companheiros. Eu o quero profundamente e sigo querendo, tinha por você uma grande, muito grande confiança e ao ver-lhe em tal situação, na humilhação frente a este charlatão do Lopatin, senti uma indescritível amargura. Me era doloroso, e por mi mesmo. Incitado pela confiança em você, lhe entreguei meu nome e me solidarizei publicamente com sua ação. Tentei com toda minha energia atrair a simpatia de Ogarev e a confiança dele para sua empresa. Lhe aconselhei sempre que lhe entregasse o Fundo em sua totalidade. Ganhei-lhe a Ozerov e fiz de tudo para convencer Tata para que se somasse a nós, ou seja, a você, e que se entregasse por inteira a ação. Por fim, contra minha convicção, convenci a Ogarev que publicasse Kolokol com base em seu programa fantasioso, absurdo, impossível. Em uma palavra, confiando em você sem reserva, quando você me enganava sistematicamente, me portei como um tonto rematado (o que é tão amargo quanto vergonhoso para um homem como eu, dada minha experiência e minha idade) e, o que é pior, comprometi minha posição frente a causa russa e a causa internacional. Quando Lapatin saiu eu lhe perguntei: “Ele disse a verdade? Será possível que tudo o que você me disse tinha sido só mentira?” Você desviou a resposta. Era tarde. Fui embora. E todas as conversações e discussões do dia seguinte com Lopatin me convenceram que ele dizia a verdade. Você ficou em silêncio. Eu esperava o resultado de seu último encontro com ele, você não me comunicou. Porém acabo de tomar conhecimento por cartas de Lopatin que Ozerov lhe lerá. O aprendizado me basta para tomar medidas contra novas tentativas suas de explorar a mim e a meus companheiros. Em conseqüência, escrevi um ultimato que lhe li rapidamente na casa dos turcos e me pareceu que você o aceitava. Desde este encontro, não nos voltamos a ver. Ao fim, recebi anteontem uma carta que Lopatin que me ensinou dois tristes fatos: primeiro, você mentiu... (não vou empregar superlativo) contando-me sua conversa com ele. Tudo o que você me disse era pura mentira. Não lhe disse que lhe devolvi as cartas de Liubavin, e tampouco; “O velho não resistiu a prova, agora é nosso prisioneiro, já não pode fazer nada contra vocês...”; a isto você lhe havia respondido: “Se Bakunin teve a debilidade de devolver as cartas de Liubavin, temos outras delas, etc.” Você mentiu, caluniou Lopatin, você me enganou deliberadamente. Lopatin se assombra que eu tenha podido acreditar em você e com palavras corteses tira conclusões pouco lisonjeiras sobre minhas capacidades mentais. Não esta equivocado, nesse caso eu fui completamente burro. Porém não teria me julgado com tanta severidade se ele soubesse como eu lhe quis e acreditei com paixão e ternuras profundas! Você decidiu arruinar tal confiança, pior para você. Eu poderia supor que um homem inteligente e dedicado a causa, como você parecia aos meus olhos, apesar de tudo o que ocorreu, podia eu imaginar que você poderia mentir de modo tão descarado e estúpido frente a mim, quando minha dedicação não lhe deixava lugar a dúvidas? Como não passou pela sua cabeça que sua insolente mentira viria a tona e que eu pediria, deveria pedir explicações a Lopatin, quanto mais que em meu ultimato se dedicava a necessidade de tratar com plena caridade o assunto Liubavin? O segundo fato: Liubavin não recebeu minha resposta a sua carta descarada; por tanto, tampouco tive o recibo adjunto. Quando mostrei a você minha resposta e o recibo, você me pediu que esperasse e que não o enviasse. Eu lhe rechacei e então você se encarregou de entregar minha carta e você não o fez. Basta com tudo isso Nechayev, acabaram nossas antigas relações e nossos compromissos recíprocos. Você mesmo os destruiu. Se você acreditou e acredita ainda me obrigar e me enrolar moral e materialmente, está muito equivocado. Nada no mundo pode me prender contra minha consciência, minha honra, minha vontade, minha concepção e meu dever revolucionários. É verdade que no plano financeiro, me encontro hoje, dependo de você, em uma situação muito difícil. Não tenho meios de existência e minha única fonte de renda – a tradução de Marx e a esperança de poder receber outras obras literárias – agora se esgotou. Não tenho um centavo e não sei como sairei desse apuro, mas esta é a última das minhas preocupações. A verdade é que me equivoquei frente a meus companheiros e fico meio paralisado agora. Estão chovendo calúnias sobre mim pelo Fundo, a história com Liubavin, com Tatá, em fim, por tudo o que ocorreu ultimamente na Rússia. Mas tudo isso não me vai fazer parar. Estou disposto, se for necessário, a confessar minha insensatez e arrependimento publicamente. Seguramente, será para mim uma vergonha grande, mas que me recomporá. Não serei mais seu aliado forçado. Declaro-lhe decididamente, portanto, que todas minhas relações até agora insalubres com você e todos meus laços com sua ação se romperam. Porém, rompendo-os, lhe proponho estabelecer entre nós novos vínculos sobre outras bases. Lopatin, que não lhe conhece tão bem como eu, se estranharia com tal proposta de minha parte depois de tudo o que passou entre nós. Não será uma surpresa para você nem para meus companheiros mais próximos. Sem dúvida alguma, você fez muitas burrices e sujeiras realmente prejudiciais e desastrosas para a própria causa. Porém, é claro para mim, que todos seus atos estúpidos e suas tremendas burradas não tinham como meta nem o interesse pessoal, nem a ganância, nem a vaidade ou o amor próprio, senão unicamente sua falsa concepção da ação. Você tem uma dedicação apaixonada e poucos existem como você, daí sua força, sua valentia, seu direito. Você e seu Comitê (se ele existe de verdade) estão cheios de energia e dispostos a cumprir sem frases ocas quando acreditam ser válido para a causa, e isto é valioso. Porém, ao seu Comitê e a você mesmo lhes falta equilíbrio, isso é evidente agora. Como crianças, vocês se agarraram ao sistema jesuítico vendo nisto toda sua força, seu êxito e sua salvação. Vocês esqueceram-se do essencial e do objetivo da associação: emancipar o povo não apenas dos dirigentes, senão de vocês mesmos. Por adotar esse sistema, vocês levaram-no a extremos monstruosos e estúpidos, pervertendo e desonrando a associação no mundo inteiro; com esquemas muito torpes e absurdos incríveis, tal como suas cartas de ameaças a Liubavin, a Natalia Alekseevna, e sua longa e amável paciência com Utin (quando este nos estava difamando fortemente a todos com insolência), assim como seu nefasto programa comunista e um montão de manipulações sem-vergonhas. Tudo isso testemunha uma ausência completa de inteligência, saber e conhecimento dos indivíduos, das relações e das coisas. Portanto, é impossível, ao menos neste momento, contar com sua razão, apesar de você ser sumamente inteligente e capaz de adquirir mais juízo ulteriormente, mas isso é uma esperança para o futuro. Para o presente, você se mostrou torpe e ridículo como uma criança. Firmada definitivamente minha convicção, estou na seguinte situação: Suas palavras, suas afirmações e suas promessas ocas, sem conformação com os fatos, agora não vou acreditar nelas por saber que para você não importa mentir se lhe parece útil a causa. Tampouco acredito no você vê como justo e racional, porque você e seu Comitê me deram muitas provas de insensatez. Porém, se nego sua visão da realidade e das possibilidades, não rechaço sua energia e sua dedicação absoluta à causa, vejo que neste âmbito, poucos homens existem na Rússia como você. Era isso, repito mais uma vez, é a principal e inclusive a única razão de meu afeto por você e de minha confiança. Até hoje tenho a convicção de que você é – mais que todos os outros russos que conheço – capaz e chamado a servir a causa revolucionária russa, unicamente, logicamente, se quiser e puder modificar todo seu sistema de atividade na Rússia e no estrangeiro. Se você não o quiser modificar, se converterá inevitavelmente, em razão das qualidade de fazem a força, em um homem eminentemente perigoso à causa. Com essas considerações, e apesar de tudo o que passou entre nós, desejaria não apenas estar unido a você, senão que estar ainda de modo mais estreito e firme, supondo, naturalmente, que você modifique por completo de sistema e coloque como base de nossas futuras relações a confiança mútua, a franqueza e a verdade. Caso contrário, nossa ruptura é inevitável. Agora vêm minhas condições de ordem pessoal e geral. Começo pelo pessoal: 1) Você me colocará fora de cena e reconhecerá que não tenho nada a ver com a história com Liubavin; e escreverá uma carta coletiva a Ogarev, Tata, Ozerov e a S. Serebrennikov, na qual você declarará, de acordo com a verdade, que eu ignorava tudo na carta do Comitê e que foi escrita sem meu conhecimento e contra minha vontade; 2) Que você leu minha resposta a Liubavin a qual estava anexada o recibo de 300 rublos, e que, encarregado de deixar a carta no Correio, deixou-a ou não na caixa de correio; 3) Que nunca tive direta e indiretamente uma intervenção na gestão do Fundo Bajmetev. Que você recebeu a totalidade do Fundo em datas distintas, primeiro das mãos de Herzen e Ogarev, depois, a maior que sobrou, de Ogarev que, depois da morte de Herzen era o único com o direito a administrar-lo, e que você o aceitou em nome do Comitê do qual você era o representante; 4) Se você ainda não deu recibo a Ogarev pela entrega do Fundo, você deverá lhe dar; 5) Você deverá devolver o quanto antes a mensagem de Danielson, pelo nosso intermediário e o de Lopatin. Se não está em suas mãos (mas tenho certeza que está com você), você se comprometerá nesta mesma carta a enviarnos o mais rapidamente possível; 6) Você abandonará as tentativas, que não levam a nada e que são indignas para a causa, de aproximação e reconciliação com Utin, que a ambos nos calunia assim como a todos os seus em Rússia de um modo sumamente repugnante. Ao contrário, você se comprometerá, escolhendo a hora e a ocasião para não prejudicar a causa, para combater-lo abertamente. Estas são as minhas condições: a recusa de um desses pontos, e em particular dos inço primeiros e da primeira metade do sexto, ou seja, o fim de todas as relações com Utin, será para mim um motivo suficiente para romper qualquer vínculo com você. E tudo isso você deve cumprir de modo amplo, direto, honesto, sem mal-entendidos mesquinhos, reticências, alusões e equívocos. Já é hora que tenhamos um jogo limpo. Agora vêm as condições globais: 1) Sem dar os nomes, que não necessitamos, nos mostrará a situação real de sua organização e sua ação na Rússia, suas esperanças, sua propaganda, seu movimento, sem exageros e enganos; 2) Extinguirá de sua organização qualquer uso de sistema policial e jesuítico, conformando-se em aplicar-lo somente em casos de necessidade prática extrema, principalmente com sensatez, apenas contra o governo e os partidos inimigos; 3) Você deixará o pensamento absurdo que se pode fazer a revolução fora do povo e sem a participação popular, e tomará como base de toda sua organização a revolução popular espontânea, em que o povo será o exército, e a organização unicamente a estado-maior; 4) Adotará como base da organização o programa social revolucionário exposto no primeiro número de Narodnoe Delo [Ação Popular], o plano de organização e de propaganda revolucionária apresentado por mim em minha carta, com os acréscimos e as modificações que juntos em assembléia geral consideremos necessárias; 5) Tudo o que adotemos em discussão comum e decisões unânimes, será submetido a você e a todos seus companheiros em Rússia e no estrangeiro. Se rechaçarem nossas decisões, você terá que determinar se quer ir com eles ou com nós, romper as relações com eles ou com nós; 6) Se aceitarem o nosso programa, plano de organização, o regulamento da associação e o plano de propaganda e ação revolucionária, você por eles e em seu nome nos dará a mão e sua palavra de honra que daqui pra frente este programa, plano de organização, propaganda e ação serão a lei absoluta e a base imprescindível de sua associação na Rússia; 7) Confiaremos em você e sobre novas bases estabeleceremos com você novos e fortes vínculos, nós Ogarev, Ozerov, S. Serebrennikov, eu e talvez Tatá, se você quiser, e se você e todos os outros estão de acordo, seremos de verdade irmãos populares, vivendo e militando no estrangeiro. Por isso, sem manifestar nunca uma curiosidade supérflua, teremos o direito de saber e saberemos de modo positivo, com todos os detalhes desejados, a situação clandestina e os objetivos imediatos em Rússia; 8) Logo, todos os já mencionados formaremos um Birô no estrangeiro para a condução sem nenhuma exceção de todos os assuntos russos no estrangeiro no estrangeiro conformando-nos às indicações políticas gerais da Rússia, mas elegendo livremente os métodos, as pessoas e os meios; 9) Além disso, se publicará Kolokol com um programa revolucionário socialista claro, por ser necessário e por haver os fundos suficientes; Tais são, Nechayev, minhas condições para com você. Se você abandonou a reflexão cega, se em você voltou um ânimo de compreensão sensata da ação e se o amor pela ação é efetivamente mais forte em você que em todos os demais, então você as aceitará. Se não as aceitar, minha decisão é inquebrantável, terei que romper toda relação com você e, sem ajustar-me a nada mais que a minha própria consciência, meu enfoque e meu dever, trabalharei com independência. Mikhail Bakunin, 2 de Junho de 1870.